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Eleição 2012

Putin, o selvagem

por Gianni Carta publicado 09/10/2011 09h27, última modificação 06/06/2015 18h15
O czar na sua derradeira versão, em campanha para a Presidência da Rússia em 2012, exibe o seu lado “machão”

Os russos sempre tiveram seus czares. Sob diferentes regimes ideológicos, a lista é longa: Pedro o Grande, Alexandre III, Lenin, Stalin. E tem até uma mulher, Catarina II. O argumento do Kremlin sobre a necessidade de um líder forte no poder foi sempre o mesmo: desde os tempos dos czares a Rússia nunca teve uma sociedade civil sólida, e, portanto, precisou, em permanência, de um líder forte.

Agora, a história se repete, ou melhor, continua na sua mesmice sob Vladimir Putin. Eleito presidente pela primeira vez em 2000, reeleito em 2004, e agora, após quase quatro anos como primeiro-ministro, visto que a Constituição não lhe permitia um terceiro mandato consecutivo, ele será candidato para a Presidência de março de 2012.

Foi o que anunciou o leal Dmitri Medvedev, o atual presidente, durante o Congresso da legenda Rússia Unida, em 24 de setembro. Putin, de 58 anos, com aqueles seus enigmáticos olhos de ex-espião da KGB, concordou: “Será uma grande honra”. Em seguida, o atual primeiro-ministro disse à plateia que esse pacto entre ele e Medvedev foi selado há anos. Em miúdos, Medvedev sempre foi seu fantoche.

O suposto acordo entre Putin e Medvedev revela como seu processo político, baseado em lealdades mafiosas, como aquelas existentes em um mercado livre caótico, é de um inaudito cinismo. Certo é o seguinte: como sempre na história da política russa, as próximas eleições legislativas e presidenciais, em dezembro e março, serão um espetáculo circense.

O personagem mor nesse show responde pelo nome de Vladimir Putin. O futuro presidente (os pleitos são meras formalidades) não beija bebês. Isso é coisa para políticos europeus afetados. Putin preferiu abrir sua campanha presidencial já no fim de agosto em uma Harley-Davidson. Seguia-o uma gangue de harleiros, os quais, à sua imagem, trajavam manjados casacos pretos de couro.

Os harleiros adentraram a cidade portuária de Novorossiysk, que comemorava sua libertação durante a Segunda Guerra Mundial. A multidão, consta, curtiu a cena animada pelo hino dos motoqueiros, os Night Wolves. No seu discurso, Putin chamou os bikers de “irmãos patriotas”. Só faltou cantar Born to be Wild.

Putin encarna o chamado “homem de ação”. Nesta semana, seu secretário de imprensa, Dmitry S. Peskov, confessou, porém, que o atual primeiro-ministro não encontrou ânforas do século- VI em um espetacular mergulho, em agosto. De qualquer modo, as incríveis cenas de Putin metido em um macacão de mergulho e com uma sofisticada máscara de oxigênio a emergir das profundezas das águas correram o mundo. “Isso é normal, não há pretexto para tirar um sarro dessa situação”, opinou Peskov. De qualquer forma, Putin não precisa mostrar suas qualidades atléticas, emendou Peskov. “Na maioria dos casos, ele faz tudo por conta própria.”

Desde sua chegada ao Kremlin, o judoca Putin é fotografado aplicando golpes indefensáveis. Eis o recado: Putin é forte. E, à imagem de Mussolini (para a ira de Hitler), Putin também mostra seu largo torso nu para as câmeras. Na Sibéria, sempre de torso nu à vista, o vimos a caçar tigres, pescar, cavalgar. Naquela histórica viagem, em 2008, vimos também o lado romântico do premier: olhar perdido no horizonte, pousou para as câmeras sentado no tronco de uma árvore.

Segundo vários tabloides, à época Putin queria trabalhar sua imagem de machão para conquistar uma campeã russa de ginástica rítmica, então de 24 anos. Putin teria até beijado a bela Alina Kabaeva, fotografada seminua em revistas russas, em um restaurante.

Sempre segundo os tabloides, o premier queria casar-se com Kabaeva. Estava separado de Ludmilla, sua mulher então de 50 anos. Ludmilla, diziam os jornais, já não acompanhava os ritmos do marido. Especializada em linguística, Ludmilla foi professora de alemão na Universidade Estadual de São Petersburgo, cidade natal do marido.

Teria sido esse suposto affair de Putin com a ginasta mera especulação? Flertes em público, e devidamente documen-tados, não escassearam. Certo é que Kabaeva é aplicada. Participou de duas edições dos Jogos Olímpicos, trabalhou como garçonete e modelo. Em seguida, integrou o grupo Putinskie Krasolki, ou Gatas de Putin, e virou deputada na Duma, a câmara baixa do Parlamento.

Kabaeva foi ofuscada pelo Exército de Putin, um trio de jovens beldades que se despem em vídeos para garantir a vitória do premier na presidencial. As moças oferecem um IPad2 para outras dispostas a fazerem seus próprios vídeos, mas nuas, é claro. Não surpreende o fato de Putin ter frequentado as ville do premier italiano Silvio Berlusconi. Quem sabe tenha até participado das famosas festas bunga bunga.

De fato, Berlusconi parece ser um modelo para Putin. Assim como seu homólogo italiano, Putin teria feito uma plástica para tirar bolsas localizadas abaixo dos olhos. O espião também seria um adepto do Botox. No entanto, essas operações, teriam, segundo especialistas, tornado o rosto de Putin menos másculo.

Mesmo assim, Putin continua durão, pelo menos no trato com a mídia. O Krem-lin já baniu oponentes do premier em estúdios de tevê. A mídia, vale lembrar, sempre foi manipulada pelo governo, e jornalistas intimidados. Para se ter uma ideia, somente em novembro de 2010 houve 60 casos de violência contra jornalistas. Oleg Kashin, por exemplo, do diário Kommersant, a reportar sobre os desmatamentos para viabilizar a construção de uma rodovia entre Moscou e São Petersburgo, foi um dos casos mais flagrantes. Isso porque cenas da surra que levou foram reprisadas na internet, e em seguida por redes de tevê.

As imagens mostraram como um dos dois agressores manteve Kashin no solo enquanto o outro lhe desferiu cerca de 50 vigorosas pancadas com uma barra de ferro. Com traumatismo craniano, fraturas nas mandíbulas, numa perna e em vários dedos, o jornalista permaneceu longo tempo em coma induzido.

Slava Alekseyev, jornalista russo, revela a CartaCapital que um dos suspeitos das agressões contra Kashin é o movimento pró-Kremlin Nashi (“Nosso”). “Trata-se de um agrupamento como a juventude hitlerista que na Alemanha nazista exterminava os inimigos do regime sem recorrer ao tribunal.” Algo como os esquadrões da morte no Brasil, compara Alekseyev, que já visitou o País mais de uma vez em épocas diversas.

Nem todos têm elos com o Kremlin. Mas seria uma coincidência o aumento da violência com a chegada de Putin à Presidência, em 2000? E como explicar os confrontos do Kremlin com Mikhail Khodorkovsky, presidente da gigante do petróleo Yukos preso por fraude fiscal em 2003? Khodorkovsky, de 48 anos e ainda atrás das grades, foi encarcerado por financiar legendas de oposição a Putin. Enquanto isso, uma caterva de empresários sonegadores continua solta.

Há histórias muito piores a envolver Putin. Andrei Lugovoi teria contaminado o chá do ex-agente da KGB Alexander Litvinenko, em Londres, com polônio. Litvinenko morreu logo em seguida, em novembro de 2006. Putin não permitiu a extradição de Lugovoi de Moscou para Londres. O mistério continua, e os britânicos até hoje não entenderam o que aconteceu na sua capital.

E qual o paradeiro de Medvedev? Por que ele aceitou o acordo com Putin? A falta de uma resposta para essa pergunta significa a ausência de um sistema democrático naquele país. Se Medvedev teve alguma credibilidade, já não tem mais. De saída, Alexei Kudrin, respeitado ministro das Finanças considerado, inclusive, para o cargo de primeiro-ministro, avisou que não serviria em um governo de Medvedev. Irritadíssimo, Medvedev convidou-o a renunciar. Kudrin atendeu.

Graças a Medvedev, o mandato presidencial é agora de seis anos, em lugar de quatro. Assim sendo, é provável que Putin permaneça no poder até 2024, Se for novamente candidato em 2018. Assim, ele superará Leonid Brezhnev, que ficou 18 anos na liderança da União Soviética. E só perderá para Stalin, ditador por 31 anos. De qualquer modo, Putin não será uma nota de rodapé na história dos czares russos.

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