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Opinião

Protestamos contra o terrorismo, não por Charlie

por Gianni Carta publicado 12/01/2015 10h15, última modificação 12/01/2015 16h42
Manifestantes foram às ruas para repudiar radicais islamistas e não para defender a liberdade de imprensa. Por Gianni Carta, de Paris
Loic Venance / AFP
Charlie Hebdo

Manifestantes em Paris durante a Marcha Republicana realizada na capital francesa

De Paris

Slogans políticos são importantes porque definem as causas pela quais lutamos. Quem ocupa Wall Street quer acabar com a arrogância dos banqueiros, nesse mundo globalizante no qual eles são protegidos enquanto o povo paga pela sua ganância e impunidade. “Indignados”, por sua vez, protestam contra a austeridade imposta pela chanceler alemã Angela Merkel, para citar um exemplo.

No domingo 11, mais de 3 milhões de franceses e cidadãos mundo afora marcharam contra o terrorismo e pela liberdade de imprensa. Políticos de todas inclinações ideológicas e cidadãos comuns de todas as fés mostraram aos radicais islamistas que não se dobram diante do terrorismo.

Tratou-se de um ato necessário para reforçar os valores desta República, onde os direitos do homem são primordiais.

Como tem se dito por aqui, a França viveu seu 11 de setembro. Em três dias de ataques terroristas, 17 pessoas inocentes perderam a vida. Três terroristas foram mortos pela polícia, e dois continuavam soltos nesta segunda-feira 12, inclusive a mulher de um deles.

Tudo começou na quarta-feira 8, quando os irmãos Chérif e Said Kouachi, de 32 e 34 anos, invadiram o semanário satírico Charlie Hebdo. Deixaram 10 mortos, entre eles o editor da publicação, Charb, de 47 anos, e mais quatro dos melhores cartunistas do país, Wolinski, Cabu, Honoré e Tignous.

Fazia parte da célula terrorista outro homem, Amedy Coualiby. Em um ataque contra um supermercado kosher matou quatro reféns. Coualiby teria sido responsável pela morte de uma policial no sul de Paris. E teria ferido um homem a praticar jogging em um parque.

A França continuará em estado de alerta máximo por semanas.

O presidente François Hollande esteve à altura: exprimiu-se com objetividade, com dignidade e no tom apropriado. Fez mais: aglutinou 40 estadistas de peso, entre eles o presidente da União Europeia, Donald Tusk, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, o premier britânico David Cameron, Angela Merkel e o premier israelense Benjamin Netanyahu.

A marcha parisiense reuniu mais de 1,5 milhão de cidadãos. Desfilaram importantes símbolos da República: a tricolor, Joanna D’Arc, e Marianne, a simbólica mãe da nação que encarna os valores “Égalité, Liberté et Fraternité”.

Buquês de flores e velas foram colocados nos lugares onde ocorreram atentados, ou onde caíram vítimas. Em uníssono, o povo entoou a revolucionária Marselhesa, hino nacional.

Lia-se em camisas, bandeiras, cartazes e faixas: “Je suis Charlie! Nous sommes Charlie!” As caricaturas do Charlie Hebdo eram alçadas para as câmaras de televisão. Numerosas pessoas escreveram em suas mãos ou testas um grande “C”, para Charlie.

Pela enésima vez, o ministro do Interior Bernard Cazeneuve explicou o motivo do “C”: “Esse é um protesto também para defender a liberdade de imprensa”.

Entenda-se: os dois irmãos Kouachi não são diferentes de Coualiby, responsável pelas mortes dos quatro reféns no supermercado kosher, e provavelmente da policial. Mereceram o fim que tiveram. Como todos extremistas islamistas, os dois irmãos eram fanáticos do apocalipse. Cometeram, a sangue frio, armados como soldados, uma carnificina ao tirar a vida de jornalistas inocentes e policiais a simbolizar a França no seio de Paris.

No entanto, o ataque contra o semanário Charlie Hebdo foi um ato terrorista, não contra a liberdade de imprensa. Se o Le Monde tivesse sido o alvo, teria sido um ataque contra a liberdade de imprensa.

Jamais teria um editorial do vespertino defendido a tese de que o profeta é um jihadista. E o Le Monde não publicaria uma charge de Maomé com uma bomba no turbante, como o fez o semanário Charlie Hebdo. A liberdade de imprensa conhece seus limites, especialmente quando o tema envolve religião.

Charlie Hebdo é um semanário satírico famoso pelas polêmicas contra as três religiões monoteístas.

Em novembro de 2011, um coquetel molotov havia provocado um incêndio e destruído a velha redação do semanário satírico. À época, o ataque terrorista tinha elos com o fato de o semanário ter sido intitulado Charia Hebdo (Semanário da Lei Islâmica). Na capa, uma caricatura de Maomé, convidado para ser o redator chefe da edição. Dizia a charge: “100 chicotadas para aqueles que não morrerem de rir”.

Charb recebeu várias ameaças de morte. Desde então o diretor do semanário vivia sob proteção policial. Idem a nova redação do jornal.

É claro que Charb e os jornalistas/caricaturistas do semanário satírico não mereciam ser vítimas dessa barbárie.

No entanto, aceitaram o risco.

Outro a aceitar o risco foi o filósofo Robert Redeker. Em 2006, escreveu um artigo criticando a religião muçulmana em um diário que representa a imprensa “livre”, o Le Figaro. A Al-Qaeda colocou a prêmio cabeça de Redeker, conselheiro do jornal acadêmico Les Temps Modernes, fundado por Jean-Paul Sartre. Desde então, Redeker, entrevistado várias vezes por esta CartaCapital, vive sob proteção policial em endereços desconhecidos.

Em suma, não houve ataque contra o Le Figaro, visto que o artigo era assinado por Redeker. O diário se desolidarizou de Redeker.

Na quarta-feira 14, um milhão de exemplares de Charlie Hebdo serão vendidos nos quiosques, em vez dos habituais 60 mil. Oito páginas, em vez das costumeiras dezesseis. Isso graças aos fundos oferecidos por outras plataformas da mídia.

Mas é importante frisar: “Não somos todos Charlie” porque não se tratou de um ataque contra a “imprensa livre”.

A República foi atingida nestes últimos dias. É preciso mudar o slogan para deixar claro o seguinte: nossa luta, neste caso, é contra o terrorismo.