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Minustah - 10 anos

VivaRio treina haitianos para jogarem futebol no Brasil

por Marsílea Gombata publicado 14/08/2014 04h19, última modificação 14/08/2014 05h46
Há dez anos no país caribenho, ONG carioca mantém clínica de vacinação, escola de hotelaria, além de aulas de capoeira e dança
Jules Jelin Esaü
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Treino à tarde na Academia Pérolas Negras, no interior do Haiti

De Croix-des-Bouquets

O dia dos atletas começa cedo: às 6h, terminando o desjejum, todos se preparam para o primeiro treino do dia, das 6h30 às 8h30. Param para aulas da educação primária e secundária das 9h até as 14h, quando almoçam. Após o descanso, o segundo treino, das 17h às 18h30. Tomam banho e jantam. Duas vezes por semana, recebem ainda aulas de idiomas, das 19h30 às 20h30. Hora para desanuviar a cabeça antes de deitar cedo para recobrar as energias para o dia seguinte.

As garotas e garotos haitianos têm entre 11 e 17 anos e vivem em regime de internato. Ficam na Academia Pérolas Negras, na cidade haitiana de Croix-des-Bouquets, de segunda a sexta-feira, saindo sábado e domingo para visitar a família.

Além dos 80 jovens que dormem, comem e vivem na sede de um dos principais projetos da ONG VivaRio no Haiti, cerca de 25 haitianos visitam a escolinha de futebol aos sábados para participar de peneiras que selecionam os mais promissores. A ideia é tornar um jogador amador em um atleta, potencializando o seu talento, para que um dia ele jogue em um time profissional dentro ou fora do Haiti.

Na escola de futebol criada em 2009, 18 dos 85 jovens são meninas. Além do técnico responsável pelos treinos, há ainda um coordenador pedagógico que cuida da educação formal, um coordenador esportivo e um fisioterapeuta.

“O futebol é a maior paixão dos haitianos. Qualquer espaço de 20 metros por 30 metros vira escolinha”, conta Rafael Novaes Dias, coordenador esportivo desde 2011 do projeto. “São mais de 1 mil escolinhas de futebol pelo país. E todos com o mesmo sonho: o de ser um Neymar ou um Messi”.

Ele conta que os jovens selecionados para compor o time de atletas da Pérolas Negras são encontrados em peneiras realizadas em diferentes regiões do país. Muitos chegam à escolinha desnutridos, mas com uma alimentação balanceada se desenvolvem bastante tecnicamente.

“A academia faz muito por mim. Todos os dias em que me levanto, peço a Deus para crescer no futebol, ser um bom jogador profissional e conseguir ajudar a minha família”, diz Jean Fedrick, 15 anos, fã do volante Luiz Gustavo.

Segundo Dias, um rastreamento feito pela VivaRio mostrou que 90% dos haitianos que passaram pela escolinha jogam hoje na primeira e na segunda divisão dos times do Haiti e conseguem se sustentar com o futebol. Outros foram também para times do exterior, inclusive do Brasil, jogar nas categorias de base de clubes como Botafogo, Vasco e Cruzeiro.

Foi o caso de Oracius Wilmond. Nascido na cidade de Saint Marc, o jovem de 17 anos chegou ao Brasil pela primeira vez em fevereiro para jogar pelo Pérolas Negras do Haiti contra a Seleção Brasileira das Favelas, no campeonato Taça das Favelas, no Rio de Janeiro. Impressionou “olheiros” e foi chamado para o Cruzeiro. Atual jogador da categoria de base do Vasco, ele diz gostar de morar no Brasil, mas sonha mesmo em jogar no futebol europeu. “Sou fanático pelo Brasil, mas um dia quero jogar no Chelsea”, conta o ex-jogador da seleção sub-17 do Haiti e fã de David Luiz.

A Academia Pérolas Negras é uma das principais vitrines da ONG carioca, que neste ano completa uma década no Haiti. A ONG carioca, que chegou ao país por meio de um convite do setor de conflito da ONU, foi chamada para compor a equipe civil do setor de desmobilização, desarmamento, reintegração (DDR). Hoje, de forma indireta, atinge com todos os seus projetos cerca de 180 mil haitianos.

Além da academia de futebol, a ONG mantém uma escola de hotelaria e educação ambiental na cidade de Arcahaie e o centro Kay Nou (“nossa casa”, em crioulo) na comunidade de Bell Air em Porto Príncipe, onde há um centro de vacinação para controle de epidemias, médicos e enfermeiros especializados em clínica geral, ginecologia e pediatria, atendendo 120 pacientes por dia.

É também na VivaRio em Bell Air que conflitos mais simples são mediados com a ajuda de atores da comunidade local e onde são ministradas aulas de dança e capoeira. A luta brasileira, inclusive, é a menina dos olhos da VivaRio, que a enxerga como agente de pacificação.

Um dos expoentes desse processo é o jovem haitiano conhecido como “Corsário” – nome de batismo de Jean-Marc Rodney (foto abaixo). O jovem de 18 anos trocou as tardes em que trabalhava como garoto de recados de gangues em Bell Air pelos treinos diários de capoeira em Kay Nou em 2005.

Destacou-se na atividade e passou a ajudar nas aulas que têm como alvo meninos em situação de extrema vulnerabilidade. Hoje prepara o espírito e as malas para ir viver no Congo, onde coordenará um projeto de capoeira semelhante na VivaRio de lá. A ONG foi chamada para atuar no país africano a pedido da Embaixada do Brasil, depois de as forças da missão de paz da ONU no país passarem para as mãos do general brasileiro Carlos Alberto dos Santos Cruz.

“No início, quando diziam que a capoeira não me levaria a lugar algum, eu falava que, ao menos, ela me ajudaria a curar os meus traumas”, disse Corsário. “Creio que alcancei mais do que isso".

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