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Professor da Universidade de Nova York contesta ligações entre Chávez e Farc

por Redação Carta Capital — publicado 12/05/2011 15h17, última modificação 12/05/2011 15h22
De autoria de ex-agentes do governo Bush e Blair, relatório afirma que venezuelano deu suporte sistemático à guerrilha. “Promotores da política de Uribe tentam desestabilizar relações com a Colômbia”, acusa Greg Grandin

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, em inglês), produziu um estudo difundido na terça-feira 10 sobre as supostas relações entre a Venezuela e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs). O dossiê intitulado Os documentos das Farc: Venezuela, Equador e o arquivo secreto de Raúl Reyes diz basear-se em dados armazenados em computadores de líderes da guerrilha apreendidos após um ataque em solo equatoriano em 2008. A credibilidade do IISS foi contestada, ainda no dia 10, pelo professor de História da Universidade de Nova York, Greg Grandin. Em artigo publicado no The Guardian, de co-autoria de Miguel Tinker Salas, ele ressaltou que entre os especialistas do instituto britânico figuram ex-assessores do governo de George W. Bush e de Tony Blair. Na prática, são especialistas que atestaram a existência de armas de destruição em massa no Iraque, a razão utilizada por norte-americanos e britânicos para depor Saddam Hussein.

“Em outras palavras, algumas das pessoas que manipularam o povo norte-americano e do Reino Unido para invadir o Iraque agora querem que acreditemos em suas ‘revelações’ sobre a Venezuela, o Equador e as Farc”, escreve Grandin. “A política dos Estados Unidos, ao longo da maior parte do governo Uribe (2002-2010), pareceu determinada a provocar tensão entre Colômbia e Venezuela. Agora, (...) promotores dessa política estão novamente buscando criar problemas, desta vez por meio do IISS”, conclui.

A IISS afirma que desde 2000 o presidente Hugo Chávez teve a clara intenção de dar apoio financeiro em uma escala calculada para afetar o equilíbrio estratégico da Colômbia, inclusive com garantias para que a guerrilha utilizasse território venezuelano.

Leia o artigo traduzido

O que os arquivos das FARC revelam, por Greg Grandin e Miguel Tinker Salas     

A divulgação, na última terça-feira, de um “dossiê” com arquivos das FARC, que foram supostamente apreendidas pelo governo colombiano em 2008, é verdadeiramente um “não-evento”. O informe do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês), parece uma tentativa dos tubarões nos EUA e no Reino Unido por perpetuar, por meio da desinformação, as políticas fracassadas da administração de George W. Bush e de administrações dos tempos da Guerra Fria, época à qual pertence esse tipo de prática.

Todas as conclusões do estudo se baseiam na falsa premissa de que os documentos que o texto afirma analisar são completamente confiáveis. No entanto, observadores imparciais da suposta captura de computadores das FARC, e a subseqüente divulgação à mídia de informações, concordam há muito que esses arquivos são, no melhor dos casos, duvidosos. Afinal, o exército colombiano, que afirma ter tomado posse dos documentos em laptops e flash drives após o bombardeio ilegal de um acampamento das FARC no Equador, em 2008, é a única fonte capaz de afirmar se os documentos são, de fato, autênticos.

O IISS, e outros que querem que o mundo acredite na autenticidade dos documentos, apóiam-se firmemente na suposta verificação de autenticidade dos arquivos conduzida pela Interpol. Mas o que a Interpol realmente disse, em seu informe sobre os documentos, em 2008, foi que o tratamento dado pelo exército colombiano aos arquivos “não está de acordo com princípios internacionalmente reconhecidos para o manuseio de evidências eletrônicas por parte de agentes da lei”. A Interpol ressaltou que houve um período de uma semana entre a captura dos computadores e a entrega deles à agência internacional, período em que autoridades colombianas modificaram 9.440 arquivos, e deletaram outros 2.905, de acordo com o informe forênsico completo da Interpol. Esse fato “complica a validação dessas evidências para fins de incluí-la em um procedimento judicial”, afirmava o texto.

Logo após a surpreendente “descoberta” e “captura” (os comutadores, eles nos disseram, sobreviveram a um bombardeio sem nenhum arranhão), o exército colombiano fizeram “revelações” que rapidamente se provaram falsas. Uma foto de um oficial equatoriano de alta patente em reunião com as FARC, ao fim, era uma farsa. Ainda mais vergonhoso do que isso, declarações do exército colombiano de que as FARC planejavam fazer uma Bomba Suja (artefato que combina explosivos tradicionais e material radioativo) foram publicamente desmentidos pelo governo dos Estados Unidos e por especialistas em terrorismo.

As evidências desses documentos de apoio venezuelano às FARC eram tão fracas que o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, afirmou ao subcomitê para assuntos do hemisfério ocidental da Casa Branca, apenas um mês depois, que não havia “nenhuma evidência” de tal apoio ou conluio.

Ainda mais desanimador para o caso do exército colombiano foram as declarações do general Douglas Fraser, chefe do Comando Sul das forças armadas norte-americanas, em resposta a questionamentos do senador John McCain, em relação à conexão Venezuela-FARC e as “revelações” dos laptops da guerrilha: “Nós não vimos nenhuma conexão específica que me permitisse verificar de que houve relacionamentos diretos entre governo e terroristas”, disse, e adicionou que é “cético” à idéia. (Fraser mudou seu testemunho no dia seguinte, depois de uma reunião com Arturo Valenzuela, oficial para a América Latina do Departamento de Estado norte-americano. Mas Fraser, como líder das atividades militares estadunidenses na América do Sul, está em uma posição muito melhor para certificar as informações).

Mas provavelmente mais revelador de tudo sejam as atuais relações próximas mantidas pelos governos de Venezuela e Colômbia, agora que Juan Manuel Santos substituiu Álvaro Uribe na presidência. Se a Colômbia de fato tivesse evidências de apoio venezuelano às FARC, Santos teria tão prontamente se aproximado do governo Chávez, rapidamente retomando o comércio e o apoio político? Santos, interessantemente, é o homem que, como ministro da Defesa colombiano, autorizou o ataque ao acampamento das FARC.

A política dos Estados Unidos, ao longo da maior parte do governo Uribe (2002-2010), pareceu determinada a provocar tensão entre Colômbia e Venezuela. Agora, com Santos no cargo, e a Colômbia seguindo adiante e até derrubando um acordo com os Estados Unidos da era Uribe que estipulava aumento da presença militar norte-americana na Colômbia, promotores dessa política estão novamente buscando criar problemas, desta vez por meio do IISS.

Estão pedindo ao mundo que confiem na palavra de ex-agentes de inteligência da administração Bush –que ajudam a coordenar as atividades do IISS– e suas contrapartes no Reino Unido, que incluem ex-conselheiros de Tony Blair e Margaret Thatcher. Os especialistas do IISS escolhidos para apresentar as descobertas do dossiê esta semana em Washington, por exemplo, incluem um ex-agente de inteligência britânico que conduziu operações na América Latina. Outros conselheiros notórios do IISS incluem Robert D. Blackwill (ex-assessor para segurança nacional de George W. Bush), Eliot Cohen (ex-conselheiro sênior de Condoleezza Rice para assuntos estratégicos), Sir David Manning (ex-conselheiro de política externa de Tony Blair) e o Príncipe Faisal bin Salman bin Abdulaziz, da Arábia Saudita.

Em outras palavras, algumas das pessoas que manipularam o povo norte-americano e do Reino Unido para invadir o Iraque agora querem que acreditemos em suas “revelações” sobre a Venezuela, o Equador e as FARC.

O IISS está cheio de pessoas que sabem uma coisa ou outra sobre “propaganda negra” –informação forjada ou alterada, de origem secreta, usada para avançar em objetivos políticos. O uso de “propaganda negra” é tão velha quanto a própria espionagem, e é usada rotineiramente pela CIA e pelo MI6. O ex-agente da CIA Philip Agee descreveu diversas operações dessa natureza em suas memórias: “Inside the Company: CIA Diary”, publicado nos anos 1970.

Se os capangas de Bush agora estão usando “propaganda negra” para difamar Chávez e minar seu governo, não seria a primeira vez. O governo Bush apoiou a tentativa de golpe contra Chávez em abril de 2002. O uso de informação alterada –gravações que foram manipuladas para fazer parecer que apoiadores de Chávez haviam disparado contra manifestantes desarmados– tiveram um papel chave na tentativa de golpe. Por que qualquer um levaria em conta afirmações de ex-funcionários do primeiro escalão da administração Bush sobre vínculos entre a Venezuela e o Equador com as FARC?

Infelizmente, existe muita gente que fala alto que continua a ver a América Latina pelo prisma da Guerra Fria, como os atuais chefes para assuntos estrangeiros da Casa Branca, bem como vários editores as maiores organizações de mídia dos Estados Unidos. Pessoas que estão mais do que felizes em aceitar a palavra dos “neocons” do IISS como garantia –assim como fizeram quando a invasão do Iraque estava sendo preparada.

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