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Ucrânia

Queda do MH17 amplia tensão entre EUA e Rússia

por AFP — publicado 21/07/2014 09h25, última modificação 21/07/2014 09h59
Segundo o secretário de Estado americano, John Kerry, o sistema de mísseis que derrubou o avião da Malaysia Airlines estava nas mãos dos separatistas pró-russos
Bulent Kilic/AFP
Vôo-MH17

Socorristas juntam corpos das vítimas da queda do avião da Malaysia Airlines

*Por Stephane Orjollet e Dmitry Zaks

Os rebeldes pró-russos recolheram os corpos dos ocupantes do avião malaio que caiu no leste da Ucrânia e os colocaram em trens frigoríficos para levá-los para a cidade de Donetsk, à espera da chegada dos peritos internacionais para avaliar a tragédia. Os Estados Unidos, por sua vez, insistiram em sua acusação de que Moscou forneceu o míssil que derrubou a aeronave, matando 298 pessoas que estava a bordo.

Em declarações em que incrimina mais claramente a Rússia, o secretário de Estado americano, John Kerry, assegurou que o sistema de mísseis que derrubou o avião da Malaysia Airlines foi "transferido da Rússia para as mãos dos separatistas" pró-russos. Kiev elevou a tensão ao publicar a gravação de uma conversa interceptada entre dois rebeldes que pretendiam ocultar as caixas pretas do avião dos observadores internacionais.

Imagens da BBC, por sua vez, mostram oficiais aparentemente carregando uma suposta caixa preta, o que não pôde ser verificado com fontes independentes. Os peritos internacionais chegarão nesta segunda-feira à zona de impacto, segundo anunciou o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte.

O voo MH17 foi derrubado supostamente por um míssil terra-ar, matando seus 298 ocupantes, em sua maioria holandeses, e aumentando drasticamente o peso do conflito regional que começou três meses atrás. Os insurgentes asseguraram ter recolhido objetos que parecem ser as caixas-pretas, mas prometeram entregá-las aos "investigadores internacionais quando chegarem".

Um líder rebelde, Alexandre Borodai, explicou no domingo, em Donetsk, que a transferência dos cadáveres para trens frigoríficos foi necessária para protegê-los. "Ontem começamos a transferir os corpos porque não podíamos esperar mais pelo calor e também porque na região há muitos cães e animais selvagens", explicou o líder da autoproclamada república de Donetsk, em coletiva de imprensa.

O porta-voz da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, Michael Bociurkiw, descreveu o cheiro na estação de Torez, cidade próxima ao local da queda do avião, onde estão os corpos, como "praticamente insuportável". Os corpos, alguns queimados e desmembrados, ficaram apodrecendo junto aos restos do avião. Os objetos pessoais também estavam espalhados ao longo de vários quilômetros, onde era possível ver malas, passaportes, livros e brinquedos.

Imagens monstruosas

O conflito entre as tropas ucranianas e os rebeldes separatistas, nos quais pelo menos 13 pessoas ficaram feridas nas últimas 24 horas, continuava a 100 km de Grabove. As autoridades ucranianas disseram que não podiam garantir a segurança dos investigadores no local da catástrofe, controlada por insurgentes desde o mês de abril.

Kerry, cujo país denunciou em várias oportunidades a falta de segurança no local, culpou diretamente a Rússia de ter fornecido a arma que derrubou o avião. "Sabemos com certeza que os ucranianos não tinham um sistema como esse nas imediações nesse momento. Portanto, isto aponta, obviamente, para os separatistas", afirmou.

O chefe da diplomacia americana também qualificou como "monstruosas" as imagens do local onde o avião caiu e afirmou que os rebeldes estavam atrapalhando a investigação e o resgate dos corpos das 298 vítimas. "Há informações de soldados separatistas bêbados empilhando corpos em caminhões, tirando tanto corpos quanto provas do local", disse.

O presidente francês, François Hollande, a chefe do governo alemão, Angela Merkel, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ameaçaram impor novas sanções à Rússia se seu presidente, Vladimir Putin, não conseguir que os separatistas pró-russos permitam o acesso "total e livre" à zona onde caiu o voo MH17, que fazia a rota entre Amsterdã e Kuala Lumpur. "A Rússia deve entender que a solução da crise ucraniana é mais urgente do que nunca, depois da tragédia que indignou o mundo inteiro", informou, em um comunicado, o gabinete do presidente francês, após a conversação dos dirigentes.

O jornal Washington Post noticiou que os serviços de inteligência da Ucrânia tinham imagens e provas de que três mísseis Buk M-1 tinham sido transportados do território controlado pelos rebeldes para a Rússia na sexta-feira pela manhã, 12 horas após a catástrofe.

A embaixada dos Estados Unidos confirmou a autenticidade das gravações divulgadas por Kiev na quinta-feira de telefonemas interceptados entre um líder rebelde e um encarregado do serviço de informação russo, nas quais falavam sobre ter derrubado um avião de passageiros. Mas o que sugerem as autoridades russas é que o novo governo de Kiev lançou o ataque para colocar a culpa nos rebeldes e, assim, convencer seus aliados ocidentais que os ajudem militarmente a combatê-los.

Rutte, cujo país perdeu 192 cidadãos no acidente, também falou com Putin e exigiu que se responsabilize por uma investigação confiável, durante conversa telefônica - a terceira que tem com presidente russo - que descreveu como "muito tensa". Segundo ele, no entanto, Putin prometeu sua cooperar para recuperar os corpos das vítimas e as caixas pretas.

Em outra conversa de Putin, dessa fez com o primeiro-ministro australiano, Tony Abbot, o presidente russo disse que todas "as coisas estão em ordem". Abbott não deu mais detalhes sobre o que discutiu com Putin, mas disse que a responsabilidade agora é de Moscou, que deve cumprir sua palavra.

Por fim, parentes das vítimas da catástrofe, procedentes de uma dezena de países, pediam que os restos mortais lhes fossem entregues. "Neste momento, só espero que o mundo possa ajudar as famílias a recuperar os restos" mortais, disse à AFP, em Kuala Lumpur, Zulkifli Abdul Rahman, cunhado de uma das aeromoças.

*Publicado originalmente na AFP.