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Primavera ultraortodoxa?

por Marsílea Gombata publicado 30/10/2013 06h40, última modificação 31/10/2013 17h02
Judias desafiam a tradição religiosa para se lançar na política. Por Marsílea Gombata, de Kfar Saba, Israel
Arquivo pessoal
Ruth Israel

Ruth em um de seus atos políticos. Ela enfrenta resistência da família e da sociedade

De Kfar Saba, Israel

Quando decidiu se lançar à política, a judia ultraortodoxa Ruth Colian teve de encontrar mais do que coragem para reunir forças contra as vozes contrárias dentro de sua própria religião. Foi preciso encarar também a oposição da família e dos amigos mais próximos. “‘Cuidado ao sair na rua' era o que eu mais ouvia”, conta. “Eles, na verdade, não gostaram muito e ficaram bastante preocupados.”

Aos 32 anos, Ruth é pioneira de um movimento que gosta de chamar de Haredi Spring – ou Primavera Ultraortodoxa – no qual as mulheres religiosas desafiam a tradição em nome de maior participação nas decisões políticas e na vida social. Nas últimas eleições municipais, na semana passada, ela esteve bem perto de realizar o sonho de se tornar a primeira ultraortodoxa a concorrer à Câmara Municipal da cidade de Petah Tikva, a pouco mais de 11 km de Tel Aviv. “As mulheres também são responsáveis por seu futuro e devem tomar as rédeas do rumo de suas vidas”, explicou. “Nós podemos e devemos estar na política.”

Ruth, que divide seu tempo entre o marido, os quatro filhos, seu trabalho e os estudos - cursa o segundo ano de direito no Ultra Orthodox (Haredi) Campus – é filha de iemenitas que deixaram o estilo de vida do judaísmo ultraortodoxo quando ela era criança. A tradição, no entanto, foi retomada mais tarde por ela mesma, quando tinha 19 anos.

A tentativa de se candidatar a partir de uma legenda ultraortodoxa – como Shas, Degel Ha Torah e Yadut Ha Torah – não foi, no entanto, a primeira manifestação de seu viés politizado. No início do ano, Ruth caminhou de Peth Tikva até o Knesset (Parlamento israelense) para protestar contra a decisão do governo de suspender uma lei que a teria beneficiado e permitido que comprasse seu apartamento. Além disso, desafiou publicamente autoridades religiosas em um episódio de suspeita de maus tratos de animais nos certificados kosher (de alimentos preparados segundo as leis judaicas).

Não foi a falta de empenho, no entanto, que a impediu de concorrer. Obstáculos diversos, como a falta de apoio dentro da comunidade religiosa e a verba escassa, deixaram-na a poucos passos de ser candidata de um partido haredi. “Não me permitiram concorrer pelo fato de eu ser mulher”, contou entre lágrimas. “Apesar de algumas mulheres se mostrarem contentes com a minha iniciativa de buscar igualdade de gênero e tomar posse dos meus direitos, a maior parte das pessoas me disseram para abandonar a ideia.”

De acordo com os dogmas ultraortodoxos, as mulheres são impedidas de participar da vida política e da vida social de forma tão ativa e protagonista como os homens. Como lembrou o rabino Idan Itzjak, também prefeito da cidade ultraortodoxa de El’ad, a 25 km de Tel Aviv, “às mulheres cabe a função na sociedade religiosa de cuidar dos filhos e da família”.

Na vida prática, Ruth disse ter sido hostilizada por seu ativismo. A pressão a levou a mudar seus filhos de uma escola tradicional para uma menos religiosa. “Sei que o que estou fazendo hoje é para o futuro dos meus filhos amanhã”, disse. “Não quero mudar o sistema, estou apenas buscando meus direitos. Espero que minha luta como uma haredi feminista seja um grande despertar para as mulheres se darem conta de que podem fazer mais.”

Corte. Sua batalha para entrar na vida política ainda não está perdida. Apesar de não ter conseguido alcançar todas as assinaturas necessárias e apoio para se candidatar a vereadora, Ruth agora tenta o Judiciário para pedir o fim da exclusão de candidatas mulheres nos partidos ultraortodoxos.

No dia 6, ela e seu advogado, Jonathan Ginat, têm uma audiência na Suprema Corte de Justiça, na qual se julgará a petição apresentada por Ruth. Ela pede que o Estado não provenha fundo para os partidos políticos que vetam candidatas mulheres, baseado no argumento principal de discriminação de gênero apoiada pelo Estado israelense.

“O principal objetivo de Ruth é um importante passo na direção da igualdade de gênero entre homens e mulheres. Por isso aceitei defendê-la nessa empreitada nada fácil”, explicou Ginat, que trabalha no escritório Galanti, Sudri & Datz, com sede em Haifa, no norte de Israel. “A sociedade haredi não vê a mulher como igual e não creio que esteja pronta para ter uma mulher em uma posição tão importante. Pedir por igualdade entre os ultraortodoxos é uma revolução bem grande.”

A sessão na Suprema Corte será aberta ao público. O caso será analisado por três juízes, sendo a presidente da mesa uma mulher. “Se tivermos êxito, a decisão da Corte forçará os partidos haredi a reconsiderar sua posição. Será o início de uma mudança, ainda que lenta.”

 

A repórter foi enviada por CartaCapital para Israel para participar do curso Os Meios de Comunicação em Zonas de Conflito, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores israelense

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