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Primavera bravia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 10/03/2011 17h00, última modificação 14/03/2011 18h00
O impasse na Líbia desperta o intervencionismo dos EUA, que pode ser desastroso. Por Antonio Luiz M.C. Costa
Primavera Bravia

O impasse na Líbia desperta o intervencionismo dos EUA, que pode ser desastroso. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Marco Longari/AFP

O impasse na Líbia desperta o intervencionismo dos EUA, que pode ser desastroso

Enquanto kaddafi resistia em Trípoli na busca de um acordo com os rebeldes de Bengazi – tão improvável quanto o pacto antissoviético com o Ocidente com o qual Hitler sonhava em seus últimos dias – acusava mais ou menos por igual o imperialismo ocidental e o fundamentalismo islâmico pela inesperada rebelião. Mas nesta crise do Oriente Médio tanto a Al-Qaeda quanto a CIA parecem mais perdidos do que cachorro em dia de mudança.

Uns e outros lutam por obter algum crédito pelos acontecimentos que foram igualmente incapazes de prever, assim como por influenciar a nova ordem. No médio prazo, pode até ser que venham a ter algum sucesso, mas, no calor dos acontecimentos, tanto os apelos de Hillary Clinton pela renúncia de líderes árabes quanto os comunicados de líderes fundamentalistas sunitas e xiitas que exortam o povo a derrubá-los fazem pensar em antigos sacerdotes tentando convencer os fiéis de que a primavera retorna graças às suas orações.

Não é que líderes apoiados pelo Ocidente ou pelo clero fundamentalista não tentem se fazer ouvir, mas os movimentos populares, até agora, seguem pautas próprias. Na Tunísia, o Ocidente torceu pela estabilização, mas as manifestações populares continuaram e derrubaram o primeiro-­ministro interino, juntamente com outros ministros herdados de Ben Ali. O Egito pode caminhar na mesma direção, por mais que tanto os EUA e União Europeia quanto a Fraternidade Muçulmana queiram respaldar o governo militar interino. Na Líbia, os rebeldes falam como seculares, mas ao mesmo tempo rejeitam a intervenção do Ocidente em sua guerra civil. No Iêmen (como em outros países), não se veem retratos de Bin Laden ou do aiatolá Ali Khamenei nas manifestações. Muito menos de Barack Obama ou de Mark Zuckerberg, apesar de tanto alarde sobre a “revolução do Facebook”: quando muito, se veem aqui e ali uma boina ou um pôster de Che Guevara, revelando saudades de 1968.

Ao menos três autores diferentes compararam a onda revolucionária árabe de 2011 com a europeia de 1848, a chamada “Primavera dos Povos”: o jornalista conservador Andrew Sullivan na revista estadunidense The Atlantic, sua colega Anne Applebaum na Slate e o historiador Robert Zaretsky no Le Monde Diplomatique.

Naquela época, os cafés que assinavam jornais e serviam de ponto de encontro para discutir ideias políticas eram o que havia de mais parecido com uma rede social, mas existia o mesmo entusiasmo por autodeterminação, a mesma falta de lideranças e de objetivos claros e a mesma ansiedade das mais diferentes tendências políticas e ideológicas por interpretar, cooptar e dirigir o movimento. O mais bem-sucedido no médio prazo foi o exilado francês Luís­ Napoleão, futuro imperador Napoleão III, mas bem maior foi o impacto histórico no longo prazo de dois jovens intelectuais que, bem no início dos acontecimentos, publicaram um manifesto por meio de uma associação cultural operária.
Não há como afirmar se há algum Napoleão entre os exilados que hoje retornam para os países revolucionados, nem como especular se há algum Karl Marx ou Friedrich Engels entre os jovens árabes que publicam blogs e panfletos de Marrakech a Bagdá, mas podem-se procurar outros paralelos. As revoltas de 1848 sacudiram Itália, França, Alemanha, Áustria, Hungria, Dinamarca, Suíça, Posnânia, Valáquia, Irlanda, Bélgica e, perifericamente, até o Brasil (Revolução Praieira de Pernambuco), mas tiveram pouco efeito aparente. Os regimes que quiseram derrubar foram restaurados – exceto na França, onde a troca da monarquia Orléans pela Bonaparte não foi um grande avanço.

Mas as ambições populares despertadas pelas revoltas não puderam mais ser ignoradas. Áustria e Prússia tiveram de abolir a servidão nos anos seguintes e logo foram imitadas pela Rússia, embora esta não tivesse sido diretamente afetada por 1848. O rei da Dinamarca foi forçado a submeter-se a uma Constituição e dividir o poder com o Parlamento, e o rei da Holanda, preventivamente, o imitou. As aspirações nacionalistas reveladas pela Primavera dos Povos levaram, no médio prazo, à autonomia da Hungria e à unificação da Alemanha e Itália e, no longo, redesenharam o mapa do continente. Os impulsos nacionalistas, democráticos e socialistas despertados naquela ocasião pautaram a história da Europa e do mundo por gerações.

Da mesma forma, o que se passa no Oriente Médio não deve ser minimizado, mesmo que os militares da África do Norte consigam conduzir transições controladas ou os reis da Península Arábica se safem convertendo-se em monarcas constitucionais. O mero fato de esses povos abandonarem a passividade e demonstrarem força e vontade políticas é um evento histórico de primeira grandeza, mesmo que os resultados imediatos pareçam limitados.
Se alguma instituição de fato antecipou os acontecimentos e merece parte do crédito pela revolta é a rede Al-Jazira, do Catar, com suas coberturas agressivas e independentes de problemas internos e externos dos países árabes (exceto do próprio Catar), inclusive o recente vazamento das negociações de Israel com a Autoridade Palestina. Ela foi a primeira expressão global autônoma da opinião da sociedade civil árabe, desde o momento em que surgiu para o mundo com suas coberturas alternativas das invasões estadunidenses do Afeganistão e do Iraque. Tão incisivas que nos EUA houve quem quisesse tirá-la do ar como “combatente inimigo” se não “ajustasse seu comportamento para deixar de agir como braço de propaganda do inimigo. É preciso lembrá-los do que diz o presidente Bush: ou estão conosco ou com os terroristas”, conforme escreveu Frank Gaffney, presidente do instituto neoconservador Center for Security Policy no site da Fox News, em setembro de 2003.

Os Estados Unidos não chegaram a esse ponto, mas criaram em 2004 uma rede rival em árabe, a Al-Hurra, na qual investiram 700 milhões de dólares. Com estúdios nos EUA e uma agenda neoliberal e filoamericana, mostrou-se um completo fiasco em termos de conquistar corações e mentes árabes, embora tenha um orçamento de 90 milhões de dólares anuais (o da Al-Jazira é de 140 milhões). Segundo pesquisa Zogby de maio de 2009, na Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita, Egito e União dos Emirados Árabes, todos tidos como aliados dos estadunidenses, a audiência média da Al-Hurra não passava do traço (0,5%). A Al-Jazira conseguia 55% do público, suas concorrentes sauditas Al-Arabiya e MBC, mais conservadoras, respectivamente 10% e 7%, e a xiita radical Al-Manar (do Hezbollah), 2%. O próprio Barack Obama, ao dar sua primeira entrevista a um canal árabe, optou pela Al-Arabiya, dada a falta de audiência e credibilidade da companhia da casa.

Assim como a imprensa e os escritores europeus do século XIX – figuras como Charles Dickens, Victor Hugo, Johann Wolfgang von Goethe e Alessandro Manzoni – deram forma às identidades nacionais e às aspirações das nações europeias, tais redes e os intelectuais a quem ela dá voz estão construindo a nova identidade árabe. A natureza internacional da rede molda seu discurso como islâmico: as pesquisas indicam que, quanto mais os telespectadores assistem Al-Jazira ou Al-Arabiya, mais identificam sua identidade política como “muçulmana” mais que egípcia, marroquina, libanesa etc., enquanto os que priorizam suas identidades nacionais tendem a pertencer à elite tradicional e preferir canais locais. Foi a Al-Jazira que, por exemplo, deu um programa de grande popularidade a Yusuf al-Qaradawi, referência espiritual da Fraternidade Muçulmana egípcia, fazendo do teólogo sunita exilado por Nasser o mais importante formador de opinião do mundo árabe.

É uma faca de dois gumes. Da mesma forma que jornais e escritores do século XIX colaboraram para construir a identidade alemã ou italiana por cima dos pequenos reinos e principados, mas marginalizaram dialetos e minorias nacionais juntamente com as pretensões de supremacia do papado e das igrejas, agora se constrói uma identidade pan-árabe e muçulmana (não tão excludente e fundamentalista como a Al-Qaeda ou o Talebã, bem entendido) por cima das fronteiras políticas, com o risco de marginalizar nacionalistas laicos e minorias religiosas. Mas essa identidade e discurso tendem a dominar a cena árabe e é com elas que o Ocidente terá de aprender a lidar no futuro próximo.

Os Estados Unidos não dão, porém, nenhum sinal de perceber que seu pensamento deixou de ser único e que sua hegemonia se corrói a olhos vistos. É um exemplo o veto à condenação dos assentamentos judeus na Cisjordânia, que isolou os EUA do mundo árabe, dos demais 14 integrantes do Conselho de Segurança e da própria oposição liberal israelense. Ou a atitude estadunidense no Paquistão, onde um agente da CIA assassinou três cidadãos em Lahore, e Washington, alegando sua imunidade diplomática como funcionário do consulado, exigiu sua libertação e ameaçou cortar a ajuda ao país. Ou o general Petraeus, que ante as críticas do presidente afegão, Hamid Karzai, a um ataque da Otan que matou 65 civis (incluindo 40 crianças) saiu-se com esta: “Os afegãos queimam suas próprias crianças para exagerar as alegações de vítimas civis”. Chocou os líderes locais. Como disse o jornalista e escritor Tom Engelhardt, é a “evidência de que aqueles dentro da bolha não têm ideia da imagem que projetam em um mundo que se modifica”.

Os desdobramentos no longo prazo são imprevisíveis, mas os riscos iminentes já são ameaçadores o suficiente. O impacto imediato da onda revolucionária árabe sobre o mundo – e não só o petróleo – dependerá em grande parte de como ela afetará a Arábia Saudita e parece cada vez mais improvável que ela permaneça como uma ilha de tranquilidade cercada de agitação por praticamente todos os lados: Jordânia, Iraque, Kuwait, Bahrein, Omã e Iêmen.
A própria monarquia saudita deve concordar, vista sua pressa de aprovar um pacote de 37 bilhões de dólares em incentivos econômicos, programas sociais e aumentos salariais, mas essa pode ser a resposta errada – se a oposição está determinada a obter reformas políticas e poder real, tentar silenciá-la com meras propinas pode acelerar o processo. As concessões fazem aos levantes o que a distância faz ao amor e o vento ao fogo: apagam os pequenos, inflamam os grandes. A Argélia teve ao menos um sucesso temporário ao acalmar as manifestações dando mais espaço a partidos de oposição e suspendendo as leis de exceção, mas, como se viu no Bahrein e no Egito, quando a oposição é grande e decidida, recuos e ofertas do governo são vistos como sinais de fraqueza e estimulam protestos mais ousados.

O maior risco – que não tem paralelo na situação europeia de 1848 – é o de uma intervenção direta dos Estados Unidos. É uma loucura, mas crises de abstinência provocam loucuras e o país não se mostra disposto a se livrar de sua dependência do petróleo, nem sequer a admitir ser ela um problema. E é perfeitamente possível, dados o histórico do Iraque e a movimentação de navios e marines em torno da Líbia, que indica, no mínimo, que o dedo no gatilho está coçando. Seguramente seria desastrosa, graças à absoluta incapacidade dos EUA de entender o ponto de vista dos países muçulmanos e atuar de maneira politicamente consequente no longo prazo, seja no Afeganistão, seja no Iraque, no Paquistão, na Líbia ou na Arábia Saudita.
Deixado à sua dinâmica política interna, o mundo árabe – e provavelmente também seus vizinhos muçulmanos do Oriente, Irã, Afeganistão e Paquistão – deve encontrar um ponto de equilíbrio no médio prazo que, ainda que não seja de todo agradável aos EUA e a Israel, talvez nem aos liberais laicos, pode permitir uma coexistência pacífica e civilizada – algo como uma turquização da região, com um afastamento dos compromissos militares e políticos com Washington, mas razoável normalidade nas relações econômicas. Já o resultado de uma invasão em países críticos como a Líbia e a Arábia Saudita será provavelmente uma afeganização ou somalização do conjunto do Oriente Médio, paralisando o fornecimento de petróleo e unindo contra o Ocidente as coalizões mais improváveis – tais como, digamos, partidários de Kaddafi, fundamentalistas à Bin Laden e rebeldes líbios.