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Internacional

The Observer

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Primavera Árabe

24.10.2011 18:59

Jovens precisam ter esperanças

Por Henry Porter

A lista dos indesejáveis do povo. Foto: Mohammad Huwais/AFP

Osama bin Laden e Muammar Kaddafi mortos; Hosni Mubarak e família atrás das grades, com milhões de dólares em bens congelados; o presidente Ben Ali da Tunísia condenado a 35 anos in absentia; o criminoso de guerra bósnio Ratko Mladic aguardando julgamento em Haia. Podemos usar um momento para reconhecer que às vezes as coisas vão incrivelmente bem — a tirada de cena desses cinco personagens é uma bênção.

Quaisquer dúvidas que tenhamos sobre a morte de Kaddafi e a ausência do devido processo (se você não consegue decidir onde enterrar um homem, uma boa regra é não matá-lo), sua morte é uma lição abrangente para pessoas como o presidente Bashar al-Assad da Síria, que está torturando jovens manifestantes até a morte, e aos presidente Saleh do Iêmen e ao rei Hamad de Bahrein, ambos mergulhados no sangue de seus conterrâneos.

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Al-Assad tortura jovens até a morte. Foto: AFP

Saber que apenas 12 meses atrás Ben Ali, Mubarak e Kaddafi pareciam intocáveis deve fazer o apatetado açougueiro de Damasco e sua perfumada madame agarrar-se um ao outro nas horas mortas da madrugada.

A intervenção da Otan foi correta, e eu diria isso agora, mesmo que não tenha ido tão bem para os rebeldes nos últimos três meses. Na época em que a decisão foi tomada, eu estava na Tunísia, no momento de perplexidade após a partida de Ben Ali, examinando a cronologia do massacre de Srebrenica em julho de 1995, quando o general Mladic separou os homens das mulheres e crianças e começou a assassinar 8 mil pessoas. Benghazi, a cidade do leste onde Kaddafi fez seu treinamento militar, era tão vulnerável quanto o enclave bósnio. Seus mercenários teriam gerado um banho de sangue se não fossem expulsos das periferias quando os primeiros ataques aéreos começaram.

Eu não estava otimista — a Líbia parecia vasta demais, Kaddafi esperto demais e as forças rebeldes desesperadamente amadoras. E havia dúvidas de se o poder aéreo sozinho poderia alcançar os resultados que obteve. Mas depois de 26 mil missões aéreas e 9.600 missões de ataque, e muito sangue derramado, o regime não existe mais e David Cameron e Nicolas Sarkozy podem tranquilamente se despedir. Ambos são políticos hábeis, mas não demasiado ingênuos para acreditar que foram influenciados pela memória do que aconteceu na Bósnia.

Sempre há uma exigência moral básica para intervir, mas qualquer decisão de agir deve avaliar os riscos e a probabilidade de alcançar o sucesso. As considerações aparentemente pragmáticas também contêm um elemento moral, porque o intervencionista obviamente tem a obrigação de não inflamar a opinião local ou criar uma situação pior que aquelas que pretende aliviar. Essas condições foram cumpridas na Líbia, mas houve o incentivo adicional do petróleo “doce e leve” do país e as reservas de 46,4 bilhões de barris que não têm nada a ver com moral ou Srebrenica.

A segunda fase da Primavera Árabe começa no domingo com eleições na Tunísia para a Assembleia Constituinte, em que o partido islâmico Al-Nahda, liderado por Rachid Ghannouchi, provavelmente se sairá bem. Esse é o primeiro grande teste para o Ocidente, porque precisamos permitir que as pessoas que arriscaram tudo nas ruas desenvolvam seus próprios processos políticos e democráticos.

Tampouco devemos nos assustar com o que acontecer nas eleições egípcias em 28 de novembro, quando a ala política bem organizada da Fraternidade Muçulmana, o partido Liberdade e Justiça, deverá derrotar partidos seculares nascentes. Certamente este não será o maior resultado. Muito diferente do fracasso dos islâmicos em reconciliar seu apoio declarado aos direitos e liberdades civis com as convicções mais profundas do autoritarismo religioso, a geração de homens devotos que provavelmente assumirá o poder está mal equipada para abordar, ou compreender adequadamente, os problemas da juventude que tomou as ruas de Túnis e Cairo.

A coisa que muito poucos realmente absorveram sobre as revoluções é que elas foram geracionais — os jovens erguendo-se contra a tirania e a corrupção, mas também contra a incompetência da geração de seus países. As primeiras demonstrações da Primavera Árabe ocorreram na cidade tunisiana de Sidi Bouzid, onde um rapaz se incendiou porque autoridades confiscaram as frutas e legumes que ele vendia sem autorização. Como muitos de seus contemporâneos, Mohamed Bouazizi, 26 anos, não conseguia encontrar trabalho.

O desemprego jovem e a terrível falta de esperança são a fonte dos problemas sociais e políticos mais sérios em todo o mundo árabe. O índice de desemprego entre os tunisianos de menos de 25 anos é de cerca de 26%. A metade dos 60 mil formandos que entram no mercado de trabalho todos os anos não encontrará trabalho. São jovens solteiros altamente organizados e de boa educação que não tinham nada a perder durante a rebelião e ganharam muito pouco em termos materiais desde então.

Para entender o que aconteceu na praça Tahrir, é preciso saber que 54 milhões de egípcios, de uma população de 82 milhões, têm menos de 30 anos e essa faixa etária forma 90% dos desempregados do país. Os índices mais altos de desemprego estão entre os que têm boa educação.

Jovens querem trabalhar. Foto/AFP

A idade média no Reino Unido é de 40 anos. Em todo o mundo árabe ela é de cerca de 25. No Egito, 24,3, na Líbia 24,5, na Tunísia 30 e na Síria 21,9. Adicione os índices regulares de desemprego no Oriente Médio de 25% entre os jovens — mesmo nos ricos países do Golfo –, e você saberá que estamos apenas no início desta história em particular.

A sofisticação da nova geração de árabes não deve ser subestimada. Eles necessitam de muito mais que sermões sobre orações e vida limpa feitos por sujeitos de meia-idade para fazer resolver vidas no século 21. Eles vão precisar de liberdade, empatia e liderança tecnocrática, assim como política, para criar os empregos que garantam estabilidade e paz. Quando você fala com esses jovens adultos educados, como fiz no início deste ano em Túnis e no Cairo, é incrível como eles avaliam bem que a mudança democrática depende da geração de empregos. Sim, eles declaram sua fé, mas é um dado — não algo que eles queiram discutir.

Se o Ocidente quiser mudanças permanentes na África do Norte, temos de reconhecer o potencial dessa nova geração e encontrar maneiras de fornecer estímulo e investimento, enquanto lutamos para criar empregos para nossos jovens. Essa é a única intervenção que está aberta para nós hoje e de certa maneira é muito mais premente.

Na Líbia, as armas precisam ser recolhidas, um exército e força policial nacionais devem ser montados e tribunais adequados fundados. O primeiro teste da nova sociedade civil deve ser um relato escrupulosamente honesto de como o ex-ditador encontrou seu fim. A nova República não será servida por uma farsa e por porta-vozes do Conselho Nacional de Transição mentirosos. Como diz o grafite que apareceu em Trípoli neste fim de semana: “Limpem e mantenham limpo”.

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