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Presidentes dos EUA e de Cuba se reúnem pela primeira vez em meio século

por AFP — publicado 12/04/2015 07h00, última modificação 12/04/2015 07h41
Barack Obama e Raul Castro encontraram-se na Cúpula das Américas, no Panamá
MANDEL NGAN / AFP
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Raul Castro e Barack Obama cumprimentam-se após o primeiro encontro entre presidentes dos EUA e Cuba em 50 anos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se reuniu neste sábado com seu colega cubano, Raúl Castro, no primeiro encontro entre dirigentes destes países em mais de meio século, que consolida sua decisão de avançar na reconciliação de dois antigos inimigos.

A portas fechadas e por mais de uma hora, os presidentes se reuniram à margem da Cúpula das Américas, que se encerra este sábado no Panamá, que também assistiu à primeira conversa entre Obama e o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

"Obviamente, esta é uma reunião histórica (...). Depois de 50 anos de políticas que fracassaram, era hora de tentar algo novo", disse Obama, antes de entrar na sala onde conversou com Raúl Castro.

O líder cubano, por sua vez, destacou: "devemos ter muita paciência".

"Tem sido uma história complicada a dos nossos países, mas estamos dispostos a avançar como ele está dizendo" e a "discutir tudo", inclusive "os assuntos de direitos humanos", acrescentou.

Lado a lado, sentados em volta de uma mesinha em uma sala anexa ao centro de convenções que sediou o evento, os dois falaram para as câmeras.

Flashes captaram o momento em que ficaram de pé, deixando a imagem para a posteridade. Foi o selo da decisão de ambos, anunciada em 17 de dezembro passado de caminhar rumo à reconciliação.

A ilha comunista ocupa pela primeira vez uma cadeira nestes fóruns hemisféricos, que começaram em 1994 sob os auspícios de Washington.

Em discurso na plenária da cúpula, Obama assegurou que as "mudanças de política com relação a Cuba" marcam um antes e um depois nas relações do hemisfério.

Em um tom marcantemente conciliador e até emocionado, Raúl Castro tomou a palavra para falar de um "diálogo respeitoso", embora com "profundas diferenças" entre os dois países, acrescentou.

Embora Obama e Raúl Castro tenham se cumprimentado nos funerais de Nelson Mandela, em 2013, esta foi a primeira vez em mais de cinco décadas que um presidente americano e um cubano dialogaram.

"O diálogo significa o fim das últimas batalhas da Guerra Fria neste hemisfério (embora) não pense que vão virar melhores amigos a curto prazo. Têm diferenças importantes", declarou à AFP Geoff Thale, especialista em Cuba da ONG Washington Office on Latin America (WOLA).

Nas sessões, Raúl Castro também disse saudar como um "passo positivo" que o fato de que Obama esteja a ponto de decidir sobre a presença de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo do Departamento de Estado, completada por Síria, Irã e Sudão.

"Aprecio como um passo positivo que decidirá rapidamente sobre a presença de Cuba na lista de terrorismo, na qual nunca deveria ter estado", afirmou.

A retirada desta lista abriria o caminho para a retomada de laços diplomáticos, mas Cuba reivindica o fim do embargo imposto em 1962, como necessários para normalizar as relações. "Este e outros elementos devem ser resolvidos no processo de normalização das relações", destacou.

Desde dezembro, os dois países tiveram três rodadas de conversações, mas a VII Cúpula das Américas acelerou as aproximações vertiginosamente.

Na quinta-feira, o secretário de Estado americano, John Kerry, conversou durante quase três horas no Panamá com o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, sobre a abertura das embaixadas em Washington e em Havana.

"É esperançosa uma Cúpula libertada das correntes da Guerra Fria. O diálogo deve servir para incentivar a cooperação multilateral" em diversos campos nos quais Cuba antes estava excluída, disse à AFP o acadêmico cubano Arturo López Levy, da Universidade de Denver (Estados Unidos).

Aproximação também com Maduro

Antes de deixar o Panamá, Obama manteve um "curto diálogo" com Maduro, disse Katherine Vargas, porta-voz da Casa Branca. Ali, Obama reiterou que "o interesse dos Estados Unidos não é ameaçar a Venezuela, mas apoiar a democracia, a estabilidade e a prosperidade na Venezuela e na região", acrescentou.

Temia-se que o aumento das tensões entre Washington e Caracas afetasse o clima na cúpula, depois que Obama declarou, há um mês, a Venezuela - principal aliado de Cuba - como uma "ameaça" para a segurança dos Estados Unidos, ao sancionar sete funcionários daquele país.

Ao fazer seu discurso, ao qual fizeram eco seus colegas de esquerda, Maduro disse ter levado a Obama mais de 11 milhões de assinaturas coletadas contra a medida. Mas o presidente americano já não estava, pois tinha saído para participar de reuniões bilaterais, entre as quais o encontro histórico com Castro.

"Eu estendo minha mão para resolver os assuntos" entre os Estados Unidos e a Venezuela, disse Maduro, que também pediu a anulação do decreto, que qualificou de "desproporcional".

Raúl Castro também baixou o tom diante de Obama sobre o tema.

"A Venezuela não é uma ameaça. É positivo que o presidente americano tenha reconhecido", disse.

Foi sua primeira reação ao esclarecimento que o presidente americano fez esta semana de que seu decreto sobre a Venezuela tinha sido meramente formal.