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Cartas de Portugal

Portugal desgovernando

por Eduarda Freitas — publicado 24/03/2011 16h45, última modificação 24/03/2011 16h47
Portugal está mal. Escrevo esta crónica sem estar inspirada. Mas estou muito chateada.

O primeiro-ministro de Portugal pediu a demissão. A oposição festeja. Eu não encontro motivos para alegrias. Nem com nem sem governo. Portugal está mal. Escrevo esta crónica sem estar inspirada. Mas estou muito chateada.

E afinal caiu.
Enquanto a mãe acabava de pôr a mesa, o pai chegava a casa do trabalho, a filha pintava as unhas de rosa sem ser choque.
A oposição recusou aprovar mais um pacote de medidas de austeridade e ele – o primeiro-ministro – já tinha dito, que assim não tinha condições para governar.
Oito e pouco da noite e a página oficial do Presidente da República anunciava que José Sócrates tinha pedido a demissão do cargo de primeiro-ministro.
O arroz está pronto. O sal, no ponto.
A unha é que pagou. Roída.
Não sei, sinceramente, o que é melhor ou pior, neste mundo de políticos.
O que sei, é que Portugal tem uma crise de valores.
Que no meu país, ainda se acredita que escrever Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor no livro de cheques, é sinal de felicidade.
Que o plasma é paisagem para contemplar.
Que o desenrasque é a palavra oficial do português.
Que ser chico esperto é o único caminho para subir na vida.
E que subir na vida significa ter um carro cheio de estilo e uma casa repleta de móveis com design, telemóveis com não sei quantas funções e computadores da última geração.
Desculpem. Esta crónica não tem a poesia que gosto de sentir nas palavras.
Não tem a beleza da escrita criativa. Tem a realidade com espinhas.
Portugal tem uma crise económica e política, é certo, mas a maior de todas as crises, é a de cada um de nós.
Uma crise de esperança. E essa esperança, essa vontade de ser melhor, não é só o governo que tem a responsabilidade de a fazer sentir.
Essa é uma responsabilidade individual. Essa é uma responsabilidade de cada um, de cada ser humano que vive e sente este país. E por isso é tão difícil de assumir. Pois é mais fácil passar para o colega do lado a responsabilidade da nossa vida, dos nossos dias e das nossas opções.
Esta é a responsabilidade de todos nós que continuamos a tentar dar a volta ao sistema para a tal subida que não leva a lada algum. Ou leva. Ou melhor, trouxe-nos aqui.
Esta é a responsabilidade do auto-conhecimento, do sabermos o que nos faz bem e de lutarmos por isso.
É a responsabilidade de todos os dias fazer um Portugal melhor, com melhor educação onde os professores queiram mesmo ser professores. Onde as escolas apostem na criatividade, na investigação, no gosto de fazer diferente.
É a responsabilidade de levarmos a cultura a todos, de proporcionarmos a cada ser deste país momentos de questionamento, de reflexão, de êxtase.
É a responsabilidade de olharmos para o que a terra e o mar nos podem dar. E neste país com um recorte tão privilegiado e um sol tão grande, é muito!
Dir-me-ão: utópica.
Sim. Com muito gosto.

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