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Internacional

Análise

Por que o acordo com o Irã é bom

por José Antonio Lima publicado 25/11/2013 10h36, última modificação 25/11/2013 10h52
Teerã emergiu como potência regional e, se um novo status quo não for definido na mesa de negociações, será obtido pela guerra
Fabrice Coffrini / AFP
Javad Zarif e Kerry

O ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif (à esq.), cumprimenta o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, durante as negociações em Genebra

Um dia depois do anúncio de que as potências mundiais chegaram a um acordo preliminar com Teerã a respeito do programa nuclear iraniano, a diplomacia dos Estados Unidos tem gastado boa parte de seu tempo para defender o resultado das negociações. De Israel, dos países do Golfo e de dentro do Congresso norte-americano surgiram diversas críticas pesadas, entre as quais a de que o acordo é um "erro histórico" e transpareceu a "fraqueza" de Washington diante dos aiatolás. Barack Obama, seu secretário de Estado, John Kerry, e outros integrantes do governo insistem que o acordo é interessante não só para os EUA mas também para seus aliados no Oriente Médio, e, desta vez, estão certos.

Todas as críticas feitas ao acordo eram previstas. Em Israel, a impressão é a de que os interesses do país foram deixados de lado nas negociações de Genebra. O compromisso firmado na Suíça é retratado como uma vitória do Irã e uma derrota dos israelenses, em particular do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o líder mais vocal na condenação ao Irã. Reforça esse sentimento de traição o fato, revelado pelo site Al-Monitor, de que Washington e Teerã vinham negociando um acerto secretamente, antes mesmo de Rossam Rouhani ser eleito presidente do Irã, o que ampliou as possibilidades de acordo. Israel, ao que parece, não tinha conhecimento dessas conversas.

A indignação israelense deve ser ponderada, entretanto, pois a retórica bélica de Netanyahu tem objetivos claros: internamente, ela é usada para reforçar o poder do premiê na política local; externamente, é uma forma de pressão para forçar os Estados Unidos a cessarem o projeto atômico iraniano. Não há dúvidas de que Netanyahu prefere viver ao lado dos EUA o pesadelo de um confronto com o Irã a fazê-lo sozinho.

Nos países árabes, o sentimento de traição também está presente. O governo da Arábia Saudita permanece em silêncio até agora. Bahrein e Emirados Árabes Unidos elogiaram moderadamente o acordo. Nos bastidores, entretanto, é certo o temor. Os países do Golfo, em especial a Arábia Saudita, temem o expansionismo iraniano, de forma mais intensa até do que Israel. A presença de minorias xiitas nesses países, e o temor de que elas sejam manipuladas pelo Irã e provoquem instabilidade, assusta as famílias reais locais. A sensação de terem sido deixados para trás pelos Estados Unidos na disputa contra o Irã é grande nos países do Golfo: ela se tornou clara desde setembro, quando Washington desistiu da intervenção na Síria, campo de batalha principal para a disputa por influência entre a Arábia Saudita, sunita, e o Irã, xiita, que vem se intensificando nos últimos anos.

As acusações de fraqueza contra Obama feitas pelos congressistas norte-americanos, republicanos e democratas, também eram esperadas. O ceticismo tem diversas explicações, mas duas se destacam. Não há dúvidas de que o acordo com o Irã é uma aposta arriscada. Para um deputado ou um senador que em breve vai disputar uma eleição é muito mais interessante deixar o fardo com a Casa Branca do que colocar seu peso político sobre uma negociação cujo desfecho é incerto. Em segundo lugar, o Congresso é muito mais suscetível ao lobby de Israel e da Arábia Saudita do que o Executivo. Obama e seus auxiliares precisam pesar não apenas o que é mais interessante para seus aliados, mas também para os EUA. O acordo preliminar feito em Genebra indica a direção correta.

Na relação entre os Estados Unidos e o Irã, a alternativa para a diplomacia é a confrontação. Sem diálogo, Washington precisaria impor mais sanções e bloqueios ao Irã e, em último caso, atacar o país dos aiatolás até destruir todas suas instalações nucleares, um desfecho que talvez não seja possível sem uma ocupação. Um ataque não seria simples, mas exigiria um esforço colossal por parte dos Estados Unidos e de seus aliados e intensificaria ainda mais o conflito entre Arábia Saudita e países do Golfo (com o inusitado apoio de Israel) contra o Irã, o grupo libanês Hezbollah e o regime de Bashar al-Assad na Síria. Não há dúvidas de que esse cálculo foi feito pela Casa Branca quando Obama decidiu recuar na Síria.

Ao se engajar num diálogo com o Irã, a administração Obama dá uma chance para a diplomacia. É uma oportunidade que, se não for aproveitada agora, provavelmente não vai surgir em muitos anos. Rouhani é um líder conservador, mas parece disposto a chegar a um acordo razoável com Washington e seus aliados. Por enquanto, o presidente iraniano conta com o apoio do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, mas a linha-dura do regime está à espreita, aguardando um fracasso do diálogo para retomar o poder, o que inviabilizaria a continuidade das negociações.

Nos próximos seis meses, período em que as potências e o Irã devem tornar o acordo nuclear preliminar em definitivo, todas as forças contrárias ao diálogo vão agir contra ele. Ocorre que a mesa de negociações é o melhor lugar para o mundo compreender um fato irremediável, que não se manifesta apenas com o programa nuclear iraniano. Com o fim da União Soviética na década de 1990 e a derrubada de Saddam Hussein (no Iraque) e do Taleban (no Afeganistão) na década de 2000, o Irã se tornou uma potência regional e não vai aceitar ser menos do que isso. Ou os Estados Unidos e seus aliados buscam um entendimento aceitável com Teerã agora ou precisarão deflagrar uma guerra regional para obter um novo status quo. Para a economia mundial e para os milhares de soldados e civis que inevitavelmente perderiam suas vidas nesse conflito, é melhor que isso ocorra pela via pacífica.

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