Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Por que as pessoas escolhem o terrorismo?

Internacional

Por que as pessoas escolhem o terrorismo?

por The Observer — publicado 07/06/2013 09h44
Precisamos perguntar o que leva alguém a racionalizar um assassinato e considerar-se acima da lei
Carl Court / AFP
Terror

Kevin McDonald, ex-arcebispo de Southwark, e o imã Ali Omar, das Forças Armadas britânicas, colocam coroa de flores em memorial em homenagem ao soldado Lee Rigby, morto em Londres

Por Peter Beaumont

O primeiro atentado suicida que cobri ocorreu 11 anos atrás, na Rua Jaffa, em Jerusalém. Minha lembrança mais forte até hoje não é a visão do sangue ou o cheiro da explosão, mas uma coisa incongruente: os sapatos de uma vitrine espalhados pelo chão.

Quem detonou a bomba foi uma mulher chamada Wafa Idris, de 28 anos, uma voluntária que trabalhava em ambulâncias em Ramallah, que, por causa de seu gênero (naquele tempo as mulheres-bombas eram raras), inspirou grande interesse da mídia.

Desejando conhecer sua motivação, entrevistei sua família, seus amigos e colegas de trabalho. Outros fizeram a mesma coisa. E o que no início parecia uma narrativa muito simples – ela havia se inspirado na política e nas injustiças que havia visto – tornou-se mais conflituosa e complexa quanto mais eu perguntava, e incluiu questões pessoais e sugestões de depressão.

Alguns anos depois, encontrava-me em uma cidade no oeste do Iraque, em mais um atentado suicida. Era o casamento de um policial xiita. O assassino era um jovem sunita. Eu estava mais perto desta vez e cheguei poucos minutos depois.

Era um lugar perigoso e, passando pelos membros do homem-bomba empilhados como troncos na sarjeta, os feridos ainda sangrando no quintal da família, não tive muito tempo para fazer perguntas.

O ato parecia obviamente sectário, até que um curioso encontrou a carteira de identidade do homem e reconheceu o rosto – um jovem que já tinha morado na mesma rua da família atacada. Ele se lembrou de outra coisa: o interesse romântico do homem-bomba pela noiva.

Quando coisas horríveis acontecem, é natural buscarmos explicações e causas – para o assassinato de crianças, ataques terroristas, soldados que cometem atrocidades.

Na maioria das vezes, porém, as explicações que damos dizem mais sobre os preconceitos a influenciar a nossa visão de mundo do que sobre as complexas motivações humanas.

Na semana passada, depois do assassinato do soldado Drummer Lee Rigby em Londres no dia 22, esses preconceitos opostos ficaram visíveis por parte de pessoas, à esquerda ou à direita, para as quais o crime se tornou a última prova que confirma suas teorias.

Para alguns à esquerda, forneceu uma evidência – por causa da declaração gravada depois do ato de um dos supostos assassinos – da "reação" às aventuras militares ocidentais em países muçulmanos. Para alguns à direita, simplesmente foi mais uma prova da "violência" inerente do islamismo.

Mas essas avaliações apressadas – de ambos os lados – exigem que quem as adota tome decisões arbitrárias sobre causa, efeito e motivação. Pontos de virada, momentos de radicalização são removidos da confusão e expostos como fatos significativos.

Nos 20 anos desde que cobri meu primeiro ataque terrorista, o massacre de Greysteel na Irlanda do Norte, perpetrado por membros da Associação de Defesa do Ulster (UDA), aprendi a ser cada vez mais cauteloso sobre as primeiras versões dos fatos e a pressa para explicar.

O problema inerente é salientado pelas conclusões de uma das tentativas mais minuciosas de mapear a mentalidade terrorista: "The Sociology and Psychology of Terrorism: Who Becomes a Terrorist and Why?" [Sociologia e psicologia do terrorismo: quem se torna terrorista e por quê?], um relatório de diversas agências dos Estados Unidos produzido para a Biblioteca do Congresso em 1999.

Ao ler esse estudo, percebe-se que cada um dos diferentes modelos para explicar o terrorismo – de políticos a sociológicos, fisiológicos e psicológicos – tende a excluir as outras explicações.

Talvez parte do problema seja que, ao tentar generalizar sobre o terrorismo como uma maneira de encontrar uma grande teoria unificada para explicar todas as suas versões, perdemos o sentido de especificidade – como alguns grupos são mais parecidos com um culto, outros com exércitos ou movimentos políticos. Como, mesmo em grandes movimentos, todos os atos não são equivalentes.

Mas se há um ponto de comparação entre os jihadistas de hoje e versões anteriores do terror, como os grupos de extrema-esquerda europeus dos anos 1970, é o descrito por Stefan Aust, autor do livro de 2008 O Complexo Baader-Meinhof, em uma entrevista quatro anos atrás.

"Cada tipo de terrorismo está embutido em algum movimento maior, radical, político e hoje religioso", explicou Aust na época. Se o contexto mudou da inspiração política para principalmente religiosa, porém, outros aspectos muitas vezes continuam os mesmos.

Na narrativa de Aust, os membros do grupo Baader-Meinhof, que no início desfrutaram de uma simpatia substancial pela extrema-esquerda da Alemanha, têm pontos de comparação com o modo como jovens islâmicos que recorrem à violência são radicalizados hoje, principalmente em como eles se atêm a uma visão de mundo distorcida que não apenas fornece uma justificativa para seus atos em seu próprio drama.

"Se você comparar a realidade da Alemanha no final dos anos 1960 com o Estado [nazista] – o que não era, de modo algum... –, de repente você se permite fazer quase qualquer coisa para combatê-lo. Eles tentaram reencenar a resistência que seus pais não ofereceram, e afinal houve um processo de protesto, violência, levando ao terror."

Aust quer dizer que não apenas devemos ser cautelosos sobre aceitar pelo valor de face o raciocínio confesso daqueles a recorrer à violência, mas devemos entender que o modo como os terroristas imaginam seus próprios atos pode ser tão convincente às vezes quanto a própria "causa" real.

E a realidade é que muitas vezes partimos do ponto errado. A ideologia "explanatória" oferecida pelos perpetradores não é suficiente. Ela não nos diz o que realmente precisamos saber: como e por que um indivíduo, mesmo sendo membro de um grupo, se dá permissão para matar.

Meu palpite é o este: o que conecta um certo tipo de assassino – seja o atirador solitário responsável por uma chacina, ou certos terroristas e combatentes que filmam a si mesmos cometendo atrocidades – é que o modo como eles imaginam a si próprios em sua história se impõe à realidade e obscurece as considerações morais.

Isso é importante porque, se tratarmos atrocidades como a de Woolwich em termos simplistas e mecânicos de causa e efeito, despimos os fatos de uma agência e significado humanos mais profundos e ignoramos o fato de que alguém decidiu matar, racionalizou esse ato criminoso e se considerou isento de nossas leis habituais.

Talvez o mais revelador de tudo é que nunca parecemos fazer a pergunta incômoda: por que a avassaladora maioria daqueles atraídos por uma ideologia, por mais revoltados ou alienados que possam se sentir, não decidem cometer tais atos de violência?

Finalmente, talvez, existe uma razão humana premente pela qual devemos tomar cuidado ao explicar ataques terroristas depressa demais, em termos fáceis.

Ela me ocorreu no ano passado, enquanto eu estava em um bar em Oslo com o pai de uma jovem, uma das 77 pessoas mortas pelo supremacista branco islamofóbico Anders Breivik na ilha de Utoya. Percebendo nossos crachás para entrar no tribunal, pessoas em uma mesa vizinha manifestaram em voz alta a opinião de que havia certa justiça na sanha assassina de Breivik.

Às vezes, no confuso período após o horror, a melhor coisa a fazer é pensar antes de falar e agir, dominar plenamente os fatos – e essa prescrição se aplica igualmente a políticos e outras autoridades, assim como a comentaristas.

* Por motivos legais, este artigo não estará aberto a comentários.

Leia mais em guardian.co.uk