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Peronistas, kirchneristas e outras espécies argentinas

por Fermín Damirdjian * — publicado 12/11/2015 01h21, última modificação 12/11/2015 14h30
Às vésperas do 2º turno, a disputa Scioli X Macri parece mais um capítulo da novela entre peronistas e opositores. Mas o cenário não é tão simples
AFP PHOTO / JUAN MABROMATA
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Camiseta de Eva Perón à venda em Buenos Aires no dia das eleições do primeiro turno

Na vida política da Argentina, tudo parece girar em torno de um fenômeno chamado peronismo, a dividir o país entre a parcela da população defensora da herança de um antigo estadista dos anos 50, e seus opositores. Assim, uma governante como Cristina Kirchner, peronista, passou a maior parte de seu mandato investindo contra ferozes detratores. 

Seu indicado para o segundo turno das eleições do próximo 22 de novembro, Daniel Scioli, tem como adversário eleitoral Mauricio Macri, candidato oriundo de um setor empresarial avesso a qualquer ideal peronista.

Mas o que é o peronismo, e porque ele é tão presente? Uma cena da reta final da atual campanha presidencial, pode ser útil para compreender o fenômeno.

Na manhã do último dia 8 de outubro, Macri compareceu a uma celebração à qual não fora convidado. Aquela quinta feira começava fria e nublada no centro de Buenos Aires. Muitos compareceram à inauguração de um vetusto monumento a Juan Domingo Perón no centro da cidade. Dentre os presentes, sindicalistas e algumas figuras do partido Justicialista, de orientação peronista. Daniel Scioli à frente, é claro. 

No entanto, resoluto e sem pedir licença, o candidato da oposição, distante do peronismo e vendido como uma encarnação da tentativa de abandonar um passado arcaico em prol de uma Argentina dinâmica e moderna, Mauricio Macri levou seu sorriso e seus olhos claros ao pequeno palanque, onde divulgou aos quatro ventos da República sua suposta admiração por Juan Domingo Perón.

Ao longo deste dia, sua conta no Twitter divulgou frases elogiosas ao antigo estadista, atrapalhando o entendimento do peronismo como uma mera política populista.

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O candidato de oposição, Daniel Macri, promete ´modernidade´ (foto: AFP)

Olhar para os desfavorecidos

Perón assumiu a Presidência da República pela primeira vez em 1946. Antes, estivera à frente do Ministério do Trabalho e Serviço Social, do Ministério da Defesa e na vice-presidência, simultaneamente. Homem de formação militar, colocara em prática políticas públicas de seguridade social e trabalhista que deixaram fortes marcas na parcela mais pobre da população, esquecida pelos governos anteriores.

Os vastos fluxos migratórios rumo à Argentina desde fins do século XIX eram compostos em grande parte por sindicalistas, anarquistas, socialistas e outras castas ideológicas perseguidas em seus países de origem, particularmente Espanha e Itália. Como resultado, organizações civis cada vez mais fortes, em busca de protagonismo em um país que enriquecia mediante uma vertiginosa exportação de commodities.

Perón, antes mesmo de assumir a presidência, era visto pelas oligarquias e forças militares conservadoras como um político de tendências socialistas. Ao mesmo tempo, seu trânsito com o proletariado era também um recurso útil capitalizado pela classe industrial. 

Nesse cenário, Perón avançou à presidência consolidando um Estado forte que ofereceu à classe média ampliada muito mais do que alguns benefícios e programas sociais. A qualidade dos serviços públicos, de hospitais e escolas a colônias de férias, somados ao voto feminino e aos investimentos maciços em pesquisa e formação técnica são alguns dos fatores que ampliaram seu apoio para muito além das classes trabalhadoras.

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Cristina Kirshner, herdeira do peronismo, e seu candidato, Daniel Scioli (foto: AFP / Juan Vargas)

Em 1955 Perón foi finalmente deposto pelas forças políticas locais apoiadas pela agressiva expansão norte-americana do pós-guerra. Dali em diante, durante seus 18 anos de exílio na Espanha, a Argentina viu crescer seus movimentos estudantil e sindical. Surgiram ainda organizações guerrilheiras armadas operando em um país cuja classe média se via agora desprotegida pelos sucessivos ditadores militares. 

O partido peronista caíra na ilegalidade, mas todos reivindicavam a volta do velho líder. Suas leis e instituições permaneciam e o peronismo era uma teia invisível de valores a sustentar as reivindicações de amplos setores da população.

Por mais contradições que apresentasse, Perón deixou uma marca que só aumentou na medida em que nenhum governo das décadas seguintes conseguiu um desempenho sequer razoável no que diz respeito a conquistar um espaço legítimo no país. 

Os anos Kirchner chegaram muito perto disso, não sem graves percalços político-econômicos, mas com históricas ações em defesa dos Direitos Humanos. Apoiaram-se no peronismo para ensejar a criação de um kirchnerismo. 

Para ganhar uma eleição, Macri precisa passar longe dos Kirchner e do que eles representam; no entanto, não abre mão de expressar seu peronismo. Nem que seja ao menos por um dia.

 

 * O psicólogo e educador argentino Fermín Damirdjian vive no Brasil desde os anos 1980.

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Eleitora de Scioli com tatuagem de Néstor Kirchner: o kirchnerismo se fortalece na Argentina (foto: AFP)