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Opinião

O perigoso desprestígio da atividade política

por Paulo Yokota — publicado 07/04/2014 15h50
Os desmandos afastam os melhores quadros da política, gerando um perigoso processo de contínua deterioração das instituições

Ainda que a atividade política devesse ser considerada das mais nobres em qualquer sociedade, pois identificaria o que está entre os objetivos perseguidos por uma coletividade e permitiria a convivência de grupos que pensam de formas diferentes, ela está sendo desgastada. Tantos são os desmandos atuais dos políticos, em que seus interesses pessoais ganham mais relevância que os coletivos, como noticiados com frequência, que muitos acabam considerando a política como destinada aos inescrupulosos.

Os melhores quadros de uma sociedade acabam se distanciando do exercício da política, gerando um perigoso processo de contínua deterioração que em nada contribui para a melhoria do quadro global. Isto não acontece somente no Brasil, resultando na atual carência de estadistas, figuras em extinção em todo o mundo.

Alguns meios de comunicação chegam a indicar que determinadas análises foram feitas por acadêmicos com rigor científico, como sugerindo que não haveria contaminações de posicionamentos políticos, principalmente partidários e ideológicos. Isto denota um preconceito, como se considerações da conveniência da sociedade pudessem deteriorar as que envolveriam a ciência. Estas estariam isentas destes vieses quando deveriam ser atividades nobres por expressarem as aspirações mais relevantes de uma coletividade humana.

Nas eleições nos países onde o voto não é obrigatório notam-se que cada vez menos eleitores exercem os seus direitos. E nos que são obrigatórios os votos brancos e nulos acabam sendo expressivos, mostrando que as opções apresentadas nos processos eleitorais não são satisfatórias para muitos. Algo de muito errado parece que está ocorrendo, exigindo reflexões.

Em uma democracia a repetição das eleições deveria ser uma parte importante de um processo de aperfeiçoamento tanto da sociedade como das correntes que se dispõem a assumir os encargos de comandá-las. Os candidatos deveriam representar os partidos dos quais participam e perseguir os programas para atender os anseios da maioria da população. Compreenderiam os objetivos, os instrumentos que seriam utilizados para chegar a eles, como as estratégias pelas quais se atingiriam os alvos.

A divisão desejável entre os poderes Executivos, Legislativos e Judiciários, com independência para cada um deles, deveria assegurar o equilíbrio de uma sociedade democrática. Mesmo com a total liberdade dos meios de comunicação não parece se observar claramente as diferenças dos diversos programas dos aglomerados políticos, onde as campanhas eleitorais tornam-se um mero processo de sedução dos eleitores.

Os esclarecimentos prestados pelas campanhas deveriam conscientizar os eleitores sobre a existência de limitações físicas que não são possíveis de serem superadas somente pela vontade dos eleitores e dos representantes eleitos. Na realidade, existem opções alternativas dando prioridade para determinados objetivos em detrimento a outros, pois não podem ser todos atendidos, ainda que sejam da vontade popular.

Os candidatos, supostamente com formação mais acurada, deveriam estar capacitados a apresentarem visões mais claras para o futuro do que os simples eleitores. Seriam os estadistas que esboçariam para a população objetivos que poderiam ser alcançados com o uso dos recursos sempre limitados, percorrendo caminhos pelos quais se poderiam atingi-los com as eficiências factíveis.

Parece obvio deduzir-se que as atividades políticas exigem um longo processo de preparo de quadros qualificados, não podendo improvisar-se com oportunistas de momento. Os Estados contemporâneos exigem uma burocracia preparada, capaz de formular equacionamentos técnicos, que necessitam estar subordinados aos que se dedicam às atividades políticas e que estão consagrados pelos votos.

Para muitos países emergentes com curta história e cultura ainda não consolidada existe sempre a possibilidade de acelerar o aprendizado de parte do necessário com as experiências de outros que já passaram por suas dificuldades, que precisam ser estudadas com afinco. No entanto, parece que a outra parte só pode ser aprendida com o seu exercício efetivo, onde sempre haverá possibilidades de equívocos, por se tratarem de sociedades humanas.

Parece consolidar-se a crença que o desenvolvimento econômico sustentável, que proporciona à população estágios superiores de bem estar com uma natural aspiração de liberdade política, só pode ser alcançada pelo processo democrático e a utilização dos mecanismos de mercado. Parece que estamos avançando neste sentido, em que pesem as desilusões de muitos.

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