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Entrevista Dany le Rouge

Pela ascensão política da Europa

por Gianni Carta publicado 29/06/2011 18h47, última modificação 06/06/2015 18h16
Deputado dos Verdes no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, 66 anos, diz ser a favor de uma economia de mercado, desde que ela seja regulada
Pela ascensão política da Europa

Deputado dos Verdes no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, 66 anos, diz ser a favor de uma economia de mercado, desde que ela seja regulada

De Bruxelas

O lendário Dany le Rouge, principal ator de maio de 1968, é menos radical do que outrora. Deputado dos Verdes no Parlamento Europeu, Daniel Cohn-Bendit, de 66 anos, é a favor de uma economia de mercado, mas ela deve ser regulada. Talentoso orador e provocateur por excelência, é uma voz que pode fazer a diferença em Estrasburgo.

(Confira a versão em )

Mais: Na União Europeia, a

CartaCapital: Como explicar essa crise da Grécia com tamanho impacto na União Européia?
Daniel Cohn-Bendit: Temos um neoliberalismo que acredita novamente no poder da mão invisível do mercado livre. O mercado deve ser regulado. A crise financeira demonstrou a necessidade de regulamentação dos bancos. Há uma série de reformas a serem realizadas para regular a economia de mercado. Acredito em um enquadramento ecológico da economia. O aquecimento global exige uma transformação da economia de mercado. A questão é a seguinte: ao integrar as exigências ecológicas, como dar à democracia a capacidade de regular o enlouquecido capitalismo financeiro econômico?

CC: A UE parece desnorteada diante dessas crises.
DC-B: Em face às crises financeira, econômica e ecológica a Europa é um anão político. Não somos ainda uma Europa federal. Diante da crise fomos confrontados com a necessidade de uma ascensão política da UE. E, no entanto, atravessamos um período com responsáveis muito fracos da UE, como Herman Van Rompuy, José Manuel Barroso e outros. Eles refletem a fraqueza de quem os nomeou. Creio, porém, que se trata de uma fase. O problema é mais complicado porque a UE é algo novo. Trata-se de uma construção de 50 anos, 50 anos não são nada! Claro que a Europa tem de crescer. Às vezes, ela dá um passo para frente, depois dá um passo para trás. Porém, quando você vê a realidade da Europa de hoje, e a compara com aquela de 1945, demos um passo extraordinário para a frente. Saímos de guerras, confrontos, etc.

CC: A presença de líderes fracos como Sarkozy e Berlusconi não é prejudicial para o funcionamento da UE?
DC-B:
Em geral, o nível dos políticos é muito baixo hoje em dia. E não apenas na Europa. Os políticos se sentem desamparados face aos desafios: crises financeira, econômica e ecológica. Estão com medo da opinião pública. Por isso, às vezes não dizem a verdade às pessoas, porque a complexidade das situações parece muito difícil de gerir. A crise ecológica, por exemplo, não é uma invenção. E não são apenas países europeus a não fazer o suficiente no campo ecológico. O governo brasileiro parece estar cego e surdo nesse quesito. Não sei se é uma boa solução tentar resolver o problema energético com uma Petrobrás nacionalizada.

CC: Voltemos à questão da fraqueza dos políticos na Europa. Durante um ano a Bélgica não foi capaz de formar um governo ...
DC-B:
Mas a Bélgica não naufragou. Talvez o país não precise de um governo. É uma questão fascinante. Estamos em Bruxelas nesse momento ... O senhor acha que a Bélgica não funciona?

CC: Mas o país não tem governo ...
DC-B:
Sim, há um problema. É um pouco irônico o que acabei de dizer. A verdade é que achamos incrível o fato de o país não ter um governo há um ano, e no final das contas ele não é menos bem governado que outros países.

CC: A fraqueza dos políticos europeus não seria também resultado do fim dos grandes partidos políticos? Não existe mais lealdade ao Partido Democrata Cristão, Socialista e Social Democrata, por exemplo.
DC-B:
O projeto social-democrata, para dar um exemplo, perdeu o rumo. Está perdido. A idéia de um equilíbrio social e do bem-estar social está em crise. Há agora novos partidos de orientação. Ecologistas, entre outros, oferecem uma nova direção na sociedade. Mas são ainda partidos minoritários. Podem ser mais ou menos fortes, como os Verdes na Alemanha. Os ecologistas propõem, e as sociedades esperam, uma mudança de paradigmas no mundo da política. As sociedades, contudo, têm suas dúvidas porque há uma contradição dentro dos indivíduos. Diante da degradação climática e problemas energéticos, as pessoas entendem a necessidade de reformas profundas. Mas se por um lado as pessoas querem reformas, por outro elas têm medo de reformas. Estamos em uma situação em que as reformas necessárias geram curiosidade e preocupação. Essa situação contraditória cria impasses.

CC: Nesse contexto, o senhor diz temer que o Europe Écologie, que teve 10 porcento dos votos em pleitos anteriores, possa chegar a 3 porcento na corrida presidencial de 2012 na França ...
DC-B:
Porque o escrutínio presidencial majoritário de dois turnos na França nos é desfavorável. Tenho o profundo sentimento que uma parte da sociedade quer acabar com Sarkozy. Esse é o voto útil. Nosso contexto é diferente daquele na última eleição presidencial, em 2010, no Brasil. A irrupção de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, e candidata do Partido Verde (PV), foi uma irrupção de parte da sociedade que queria algo de novo. Hoje, a sociedade francesa quer a derrota de Sarkozy. É por isso que o escrutínio majoritário em dois turnos nos é prejudicial. Mas a onda é favorável aos ecologistas. Os ecologistas são fortes onde há eleições por representação proporcional. Porque é com base no resultado que as alianças são forjadas.

CC: Sarkozy e Berlusconi dizem que é preciso controlar as fronteiras na Europa. Sob pressão da extrema-direita, eles falam de insegurança. Esse é o fim da liberdade de circulação dentro do espaço Schengen?
DC-B:
Houve um aumento de votos na extrema-direita na Europa, mas essas legendas não representam uma maioria. Berlusconi vai mal, mas não por causa da extrema-direita, e sim por causa do centro e da esquerda. O mesmo acontece com Sarkozy. Não estamos diante do fim da liberdade de circulação dentro do espaço Schengen. Existem instrumentos da União Europeia – como a autorização de residência temporária, criada durante a guerra na Bósnia –, que podem ser usados para os refugiados de regiões em crise, como a Líbia. Durante a guerra da Bósnia, a Alemanha recebeu quase 100 mil bósnios com estas autorizações de residência temporária, e tudo correu dentro dos trilhos. Não me parece um problema o fato de 50 mil refugiados estarem espalhados por toda a Europa, onde vivem 700 milhões de pessoas. Basta usar as ferramentas que existem, em vez de alimentar o medo e a xenofobia. É como se a máfia tivesse entrado na Europa. Mas a máfia já está na Europa, ela não desembarca em Lampedusa! O verdadeiro perigo é querer responder a uma xenofobia de extrema-direita indo em sua direção. Não é integrando sua ideologia, como fazem os governos italiano e francês, que resolveremos a questão dos refugiados. Repito: ao adotar a ideologia da extrema-direita em relação aos refugiados alimentamos a xenofobia. E se você der um dedo para a extrema-direita, ela pega sua mão. Se você lhe der a mão, ela quer o braço. E depois te engole.

CC: É preciso dizer isso de Sarkozy e Berlusconi.
DC-B:
É um combate. Berlusconi, por exemplo, lançou uma campanha em Milão para as eleições municipais no início de junho dizendo que se a esquerda ganhasse a cidade se tornaria muçulmana. Haveria mesquitas em todos bairros. Mas a cidade natal de Berlusconi estava farta do primeiro-ministro e votou na oposição. Ninguém deve ter medo de contradizer Sarkozy, Berlusconi e os outros.

CC: A ascensão da extrema-direita na Europa não é nova, mas agora está se esparramando para outros países, como os nórdicos.
DC-B:
O fenômeno começou com a Liga Lombarda, na Itália. O norte da Itália não quis pagar para o sul: o egoísmo dos ricos. Os chamados Finlandeses Verdadeiros e a extrema-direita, na Suécia ou na Holanda, fazem parte desse movimento. Eles dizem que para salvar o bem-estar da sociedade é preciso se desfazer dos imigrantes e do sul da Europa. Eu digo que devemos lutar contra o egoísmo dos ricos. Mesmo que apenas 20 porcento da população vote para a extrema-direita na Europa, devemos responder a esse aumento de votos em partidos populistas através do desenvolvimento de uma política de imigração razoável. Devemos ser pró-ativos, e não esperar que a mão invisível de Deus corrija o problema. Deus não existe, portanto, não há mão invisível de Deus que para resolver os problemas ...

CC: O senhor acredita que o recente resultado no referendo realizado na Itália, no qual 95% dos eleitores votaram contra o “renascimento” da energia nuclear proposto por Silvio Berlusconi, poderia ter um impacto sobre um possível debate na França?
DC-B: Depois do que aconteceu na Suíça, e especialmente na Alemanha e na Itália (países com prazos para desistir da energia nuclear), o abandono da energia nuclear tornou-se uma hipótese crível. Acho uma loucura o fato de os brasileiros investirem em energia nuclear. É um absurdo. O Brasil tem possibilidades incríveis em matéria de energias renováveis. Além disso, a matriz nuclear custa caro e não é democrática. Se aplicarmos uma economia de mercado normal, o seguro nuclear deveria ser pago pelas empresas de energia atômica. Este não é o caso. E um plano de seguro de energia nuclear depois da tragédia em Fukushima seria realmente inabordável para qualquer pessoa. Abandonar a energia nuclear significa modernizar a economia através da ecologia. Energia nuclear pertence a uma ideologia ultrapassada. Infelizmente, o Partido dos Trabalhadores (PT) acredita numa ideologia obsoleta do produtivismo socialista. E assim não dá início a uma modernização necessária.

CC: Não é só a esquerda que  defende a energia nuclear. Sarkozy fez a mesma coisa.
DC-B:
É o produtivismo tradicional da direita. Acho triste quando a esquerda começa a fazer as mesmas coisas estúpidas que a direita. Que a direita faça coisas estúpidas é normal. É preciso sublinhar, contudo, que foi um governo de direita na Alemanha que tomou a decisão de abandonar a energia nuclear.

CC: Mas Angela Merkel a tomou essa decisão sob pressão do povo.
DC-B:
A Alemanha, após Fukushima, percebeu que não temos controle sobre o nuclear. Há sempre um risco. Não sabemos onde a próxima tragédia nuclear ocorrerá. Além disso, quanto mais fabricarmos centrais mais iremos em direção a uma tragédia nuclear. Existe um risco final que não é controlável. Foi o que aprendemos em Fukushima. Fukushima representava a mais avançada tecnologia japonesa.

CC: Há quem diga que abandonar a energia nuclear pode provocar a paralisação de uma economia.
DC-B: Vamos ver se a Alemanha será um exemplo. A Alemanha é o país mais poderoso na Europa. Tem o menor índice de energia nuclear: 22%. Lá ainda existem centrais de carvão, péssimas para a degradação climática. Mas é claro que a Alemanha continuará a ser a principal potência econômica da UE.

CC: O senhor ficou surpreso com a abstenção da Alemanha no voto sobre a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas para intervir na Líbia ...
DC-B:
O Brasil também.

CC: Certo. Mas por que a UE não tem uma política externa comum?
DCB:
A pergunta é boa. Por quê? Porque hoje, em termos de política externa, há sempre um renascimento nacional. Você tem uma crise nacional. É óbvio que se a UE tivesse tomado uma decisão conjunta do Conselho de Segurança da ONU, ou seja se a França, Alemanha e Reino Unido tivessem votado com uma voz, a Europa pela intervenção a UE teria maior peso. De qualquer forma, acho que a Europa estava certa de assumir a responsabilidade na Líbia.

CC: Foi Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron que desencadearam o ataque contra a Líbia.
DC-B:
Às vezes, Sarkozy e Cameron podem fazer as coisas direito. Por que o Brasil, que quer desempenhar um papel internacional, optou pela abstenção? Isso significa que ele quer apoiar Muammar Kadafi? É incompreensível que um governo de esquerda como o do Brasil apoie Kadafi. Sim, a guerra pode resolver os problemas! Quando os líbios estão a lutar contra um ditador, eles precisam de ajuda!

CC: Ao mesmo tempo, os EUA, UE e Otan não ajudam as pessoas que lutam contra um ditador na Síria.
DCB:
É verdade. O problema com a Síria é que os russos e chineses vetariam qualquer resolução. Esse problema da legitimidade internacional depende da boa vontade dos países autoritários como a China – é complicado decidir em relação à Rússia. É dramático.

CC: No caso da Síria, por exemplo, a UE, com uma política externa comum, poderia fazer a diferença?
DC-B:
Poderia, de alguma forma ... Por exemplo, a UE demorou muito tempo para colocar os bens de Bashar al-Assad e sua família na lista de bens congelados. É apenas um primeiro passo. O que está acontecendo na Síria é dramático. E, mais uma vez, vemos a fraqueza de uma organização como a ONU e seu direito de veto. O drama é, de fato, o direito de veto. Quando se trata de Palestina, são os americanos e Israel a usar o direito de veto. Quando se trata de países como a Síria entram em ação chineses e russos. Precisamos de uma reforma da ONU. O Conselho de Segurança deve decidir por uma maioria de três quartos qualitativa, e nenhum direito de veto.

CC: O senhor é a favor da integração dos países emergentes como o Brasil no Conselho de Segurança?
DC-B:
Sou favorável a uma reforma do Conselho de Segurança. Por que não integrar o Brasil, e outros? E acho fundamental abolir o direito de veto no Conselho de Segurança. Porque o veto dos cinco – Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido – é o mundo de 1945. Não tem nada a ver com o mundo de hoje.

CC: Como vê a relação entre os países emergentes e a UE?
DC-B:
Existe um diálogo entre a UE e países emergentes como o Brasil. É um diálogo necessário. O perigo seria ir a um mundo

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