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Uma nova separação?

Palestinos: cada vez mais divididos

por Marsílea Gombata publicado 13/11/2013 05h53
Segundo a parlamentar Nadia Abu Zaher, depois da cisão com o Hamas, o Fatah se prepara para vivenciar um novo racha – desta vez interno
Marsílea Gombata

De Huwara, Nablus, Cisjordânia

Enfraquecidos desde a separação entre o Fatah e o Hamas após uma guerra civil ocorrida em 2007 entre os dois partidos, os palestinos se preparam para assistir a uma nova divisão. Desta vez, a cisma ocorrerá dentro do próprio Fatah, que controla a Cisjordânia, alerta a parlamentar Nadia Abu Zaher.

Enquanto o ex-chefe de segurança do Fatah, Mohammed Dahlan, conta com apoio do Catar para ser o próximo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), o atual presidente Abu Mazen [Mahmoud Abbas] planeja indicar Marwan Al-Barghouti, dirigente palestino preso em Israel, como seu vice-presidente. “O que é uma outra divisão, pois nem todos o apoiam”, afirmou Abu Zaher em entrevista a CartaCapital em sua casa em Huwara, nas proximidades de Nablus.

Abu Zaher é uma das poucas palestinas a ocupar um assento no Parlamento de Ramallah, na Cisjordânia. Seu desafio diário, no entanto, é conseguir legislar dentro de um órgão paralisado há seis anos. “Desde a divisão entre o Fatah e o Hamas, o Parlamento está parado. O Hamas tem hoje seu próprio Parlamento em Gaza, e as pessoas que foram eleitas em 2006 lá trabalham. Aqui, com o Fatah, continuamos tendo sessões, mas extraoficiais, em Ramallah”, explica. Esses debates se dão no âmbito de grupos de trabalho parlamentares não oficiais, que deliberam decisões, mas sem poder efetivo de legislação. “E é nesse contexto que Abu Mazen começou a decretar certas regras como se fossem leis. Muitos não concordam, mas tampouco podem dizer qualquer coisa contra sua postura.”

As divergências que já existiam entre Hamas e Fatah foram piorando dentro do governo de coalizão e chegaram a um nível inviável quando, em 2006, o Hamas venceu as eleições legislativas. A violência foi significativa e, em 2007, em um único dia cerca de 40 pessoas morreram. Segundo Abu Zaher, Mazen declarou estado de emergência na Cisjordânia e deu ordens para algumas autoridades e para forças de segurança se negarem a aceitar ordens do outro lado, ou seja, de Gaza. O cenário ficou ainda pior com uma greve geral de trabalhadores que durou quase um ano. “Desde então, pessoas como eu não puderam retomar totalmente ao seu trabalho”, lembra.

Para Abu Zaher, atores internacionais como Estados Unidos e Israel trabalharam para que tal divisão acontecesse. “Quando ocorreu a crise, eles simplesmente pararam de fornecer a ajuda que costumavam dar, inclusive em termos financeiros. O Fatah estava tão assustado que buscou controlar o que ainda lhe restava. E, desde então, o Parlamento palestino não conseguiu realizar sequer uma sessão oficial.”

A nova divisão, alerta, implica em um obstáculo não apenas à união palestina, como também se mostra um entrave a um processo de paz entre palestinos e israelenses – praticamente inexistente hoje. “Poderia haver alguma mudança se houvesse negociações e ambos os lados tomassem a decisão de se unir novamente, mas não creio que isso acontecerá. As divisões seguirão, cada vez mais profundas", diz. "Vejo uma luta ainda mais acirrada em Gaza. E creio, inclusive, que Israel esteja trabalhando por essa nova divisão, desta vez dentro do Fatah, na Cisjordânia”, observa.

Segundo a parlamentar de 37 anos, Abu Ammar [Yasser Arafat] era o único líder capaz de unir não apenas o Fatah, como também o Fatah e o Hamas, que desde 2007 controla a Faixa de Gaza, na fronteira com o Egito. Depois da sua morte, “certamente causada por envenenamento”, segundo Abu Zaher, os palestinos se viram divididos e ainda mais distantes da sua causa. “Não existe processo de paz. Israel usa o fanatismo do Hamas para acirrar as tensões. É mais inteligente para Israel tirar o Hamas do cenário, e Tel Aviv pode fazer isso. Mas a verdade é que não quer, pois enquanto o Hamas estiver no jogo, os palestinos ficarão ainda mais separados e enfraquecidos. Sem união, obviamente, temos menos força para lutar.”

*A repórter foi enviada por CartaCapital para Israel para participar do curso Os Meios de Comunicação em Zonas de Conflito, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores israelense