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Pablo Iglesias: "Sim, ele pode!"

por The Observer — publicado 17/07/2014 04h03
Como o indignado espanhol Pablo Iglesias pretende usar a onda de protestos para construir "um país decente"
European United Left / Nordic Green Left
Pablo Iglesias

Pablo Iglesias em 9 de julho, em Bruxelas, durante audiência com o presidente designado da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, que tomará posse em novembro

Por Ashifa Kassam

Em toda a Espanha, cada um tem uma opinião sobre Pablo Iglesias. A mera menção ao líder do partido de esquerda insurgente Podemos, que tem apenas 35 anos e usa rabo-de-cavalo, provoca uma avalanche de adjetivos que vão de honesto a perigoso.

Uma mulher em Barcelona afirmou que "ele parece uma pessoa muito decente", ao explicar por que havia dado seu primeiro voto em uma década para o Podemos. Em San Sebastián, um monarquista manifestou preocupações depois de passar horas esperando em uma manhã ensolarada em Madri para ter um vislumbre de Felipe 6º em seu primeiro dia como novo rei da Espanha: "Iglesias quer transformar a Espanha na próxima Venezuela".

Em apenas um mês, Iglesias passou de um conhecido analista político a membro do Parlamento Europeu e uma das personalidades mais polarizadoras da Espanha. De fala suave, tranquilo, Iglesias evita chamar atenção. "Sou uma pessoa normal", disse. Atuante na política de esquerda desde os 14 anos, ele se descreve como "um sujeito que trabalhou na universidade durante muitos anos como pesquisador e depois como professor".

Usando uma camisa com as cores vermelha, amarela e púrpura da República Espanhola, Iglesias soltou o rabo-de-cavalo quando a entrevista começou, e seu longo cabelo castanho caiu sobre seus ombros por um momento antes que o amarrasse novamente à maneira habitual.

O sono, ele disse com uma voz marcada pelo cansaço, tem sido difícil recentemente, perdendo-se em meio a um redemoinho de entrevistas, reuniões do partido, viagens de e para Bruxelas em seu novo papel e aparições na mídia. "Muito intenso" é como Iglesias descreveu o último mês. "A verdade é que desde a eleição estamos sobrecarregados pela reação, a atenção da mídia, a esperança das pessoas. Mas estamos muito esperançosos porque pensamos que estamos contribuindo para algo histórico – a mudança política em nosso país."

Um mês atrás o Podemos saiu aparentemente do nada para capturar 1,2 milhão de votos e cinco assentos nas eleições europeias. Registrado em março deste ano com a intenção de transformar a raiva dos indignados da Espanha em uma mudança política real, o Podemos tornou-se a terceira força política em muitas regiões da Espanha, incluindo Madri.

A lista de promessas eleitorais do partido antiausteridade inclui salários mínimos altos, eliminar os paraísos fiscais e os controles de fronteira da UE, nacionalizar os serviços públicos e bancos que foram resgatados com fundos públicos, estabelecer um salário mínimo garantido e diminuir a idade de aposentadoria para 60 anos.

Enquanto as eleições viram diversos países se voltarem para partidos eurocéticos, muitos eleitores espanhóis foram acentuadamente para a esquerda, colhendo votos dos dois partidos dominantes do país no rastro de uma crise econômica e anos de escândalos de corrupção. O governante Partido Popular e os socialistas receberam menos da metade dos votos, muito longe do apoio de 81% que tiveram em 2009.

Um dia depois da eleição, o líder socialista Alfredo Pérez Rubalcaba disse que renunciaria. Uma semana depois o rei Juan Carlos anunciou que abdicaria em favor de seu filho, Felipe. Ambas as mudanças, segundo analistas, tiveram origem na clara demanda por reformas expressa pelos eleitores nas eleições europeias.

Para Iglesias, é o início do fim do regime que governa a Espanha desde 1978. "De certa maneira, são suas instituições que estão em crise: uma monarquia cada vez mais identificada com a impunidade e a corrupção e a casta política estabelecida do regime." O objetivo do Podemos foi transformar a maioria social em maioria política, disse Iglesias, levando cidadãos comuns a fazer política. "Se as pessoas não fizerem política, outros farão por elas. E quando outros fazem por você eles podem roubar seus direitos, sua democracia e sua carteira."

As soluções para o país, Iglesias insistiu repetidamente, não vêm da aderência à ideologia de esquerda ou de direita, mas sobretudo de um movimento contra a elite privilegiada, cujas prioridades estão fora de sintonia com o que é melhor para a maioria dos espanhóis.

O sucesso do partido veio antes do que se esperava, e a liderança do Podemos teve dificuldade para formalizar o movimento e provar que é mais que um mero fenômeno alimentado por votos de protesto. Sem listas de membros, liderança para informar sobre decisões cotidianas e um sistema para controlar seus deputados, o Podemos hoje busca encontrar um equilíbrio entre ser um movimento de base, informado por uma rede frouxa de centenas de grupos que trabalham em todo o país, e um partido político funcional.

O choque entre as duas prioridades ficou claro no mês passado, depois que Iglesias anunciou que estava indicando uma lista de 25 pessoas para organizar uma assembleia geral no outono e deu aos outros seis dias para apresentar listas concorrentes. Alguns membros da base criticaram o que consideraram uma afronta à estrutura aberta do Podemos.

Ainda não está claro como o partido vai funcionar. Muitas respostas, disse Iglesias, virão em outubro em uma assembleia geral cuja ênfase será desenhar ferramentas que permitam que o partido respeite seu estilo participativo e compromisso com a democracia direta. Os críticos sugerem que a ênfase na participação poderia ser o calcanhar-de-aquiles do partido, porque leva a ideias que, embora populares, podem não ser funcionais. Outros questionam a capacidade da frágil economia espanhola de suportar mudanças profundas enquanto emerge de uma longa recessão.

Iglesias se afastou dessas preocupações. "Vocês não podem ter medo da democracia. Esse argumento de que a participação pode ser contraditória com a eficiência é contrário à própria ideia de democracia." Ele o comparou à crítica do sufrágio universal que afirma que seria o caos se todos pudessem votar. "Vimos que isso não é verdade."

Em um país onde uma em cada quatro pessoas está desempregada e mais de 150 mil famílias foram despejadas de suas casas nos últimos cinco anos, Iglesias afirma que o pragmatismo é relativo. "Não é realista que temos 6 milhões de desempregados e que você pode ser pobre mesmo quando tem emprego", disse ele. "Nossas medidas não são muito radicais. São medidas muito prudentes, nas linhas de um projeto para salvar o país de uma crise."

Pesquisas sugerem que o partido está ganhando terreno, mostrando que poderia conquistar entre 31 e 58 assentos no Parlamento espanhol e capturar até 15% dos votos, quase o dobro da porcentagem que teve nas eleições europeias.

Mas o Podemos sobe nas pesquisas, assim como o escrutínio de Iglesias. Ele foi comparado a Adolf Hitler e a Fidel Castro e chamado de louco e extremista. Outros visaram suas palavras – ele foi acusado de justificar o terrorismo nas mãos do ETA após dizer que a violência do grupo "tinha explicações políticas", cujas origens deveriam ser compreendidas para se encontrar soluções democráticas.

Alguns ataques foram surpreendentes, ele disse, apontando para os que visaram o fato de ele comprar suas roupas em um supermercado de baixo custo. "Nunca pensei que fosse um tema de interesse ou que provocasse tanta polêmica", disse ele, sorrindo.

Os ataques não surpreendem nem incomodam Iglesias. Para ele, é uma demonstração de que o Podemos está deixando nervosos os que estão no poder. "É por isso que eles insultam, difamam, gritam. É um sinal de que estão preocupados."

Agora há pressão visível sobre um dos mais polêmicos políticos da Espanha para transformar essa preocupação em mudança política real. Iglesias não quis descartar que possa chefiar o país um dia, mas disse que seu foco hoje é para a contribuição política.

"Queremos um país mais decente. Um país com serviços públicos, onde ninguém seja tirado de sua casa, um país com hospitais públicos, pensões públicas, um país em que se você trabalhar pode encher a geladeira e comprar material escolar para seus filhos", disse. E encolheu os ombros ao acrescentar: "Apenas coisas simples".

A origem do Podemos

Os protestos dos Indignados começaram em 15 de maio de 2011, quando a Espanha sofria a dor da austeridade e do desemprego em massa. Alienados pela política da corrente dominante, manifestantes se reuniram em praças de toda a Espanha para pedir mudança radical.

Em Madri, a Porta do Sol tornou-se o polo simbólico do movimento, enquanto os ativistas acampavam, realizavam debates e encenavam o que se tornou uma espécie de festival de política alternativa. O acampamento da Porta do Sol foi mais tarde desfeito pela polícia, de forma polêmica.

Enquanto o movimento original desprezava as convenções políticas, a formação do Podemos em março de 2014 sinalizou um desejo entre os indignados de esquerda de construir sobre os protestos de grande repercussão.

O novo partido, comprometido com maior propriedade pública, uma agenda verde e reformas democráticas radicais, recebeu 50 mil assinaturas de apoio em seu primeiro dia de existência. Nas eleições europeias de maio, conseguiu quase 8% dos votos e elegeu cinco deputados, incluindo seu líder, Pablo Iglesias. Os deputados se recusaram a aceitar os salários plenos, em solidariedade com os trabalhadores espanhóis mal remunerados.

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