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Os trabalhadores vs. Sarkozy

por Gianni Carta publicado 18/10/2010 14h19, última modificação 13/10/2011 11h16
Grevistas paralisam o país em protesto contra a reforma da Previdência

Grevistas paralisam a França em protesto contra a reforma da Previdência

Balões e cartazes com slogans eram brandidos e vuvuzuelas ressoavam França afora. Na quinta-feira 14, o movimento social contra a reforma da Previdência ganhava força nos setores da educação nacional, ferroviário e de refinarias de petróleo. Professores de escolas primárias eram convocados a unir forças com escolas de nível secundário e universidades.

Dez das doze refinarias de petróleo do país permaneciam paralisadas. O governo francês viu-se obrigado a autorizar a distribuição de reservas e a importação de combustível para o transporte rodoviá-rio. A escassez de gasolina parecia o melhor método adotado pelos sindicatos para paralisar uma nação cujo governo se nega a discutir a reforma da Previdência.

As demonstrações do dia 14 remontam à greve geral de terça-feira 12, que reuniu 1,2 milhão ou 3,5 milhões, segundo as respectivas estimativas da polícia e dos sindicatos. Mas a despeito das fontes de níveis de participação, aquela foi a maior das cinco greves precedentes, com início no fim de maio. Em toda a França, transportes urbanos, portos e aeroportos foram afetados. Escolas e hospitais funcionaram parcialmente.

Novas greves estão marcadas para o sábado 16 e a terça 19. E segundo os setores mais radicais, a paralisação poderá ocorrer por tempo indeterminado. Esta é a última chance de oposição a uma reforma da Previdência que visa a duas mudanças: aumentar a idade mínima para a aposentadoria de 60 para 62 anos e elevar aquela da aposentadoria integral de 65 para 67 anos. O tempo de anuidades para se obter a aposentadoria integral passará de 40 para 41,5 anos. Em entrevista à rede de tevê TF1, Ségolène Royal, do Partido Socialista, disse: “Os mais afetados por essa reforma serão aqueles que recebem os salários mais modestos”.

Mas Nicolas Sarkozy não cederá. Segundo o presidente, a maioria tem maior expectativa média de vida e, portanto, todos devem trabalhar mais. E há a questão demográfica. Como poderá a decrescente população ativa financiar a aposentadoria do crescente número de idosos?

De qualquer forma, o Senado adotou o artigo 6 do projeto de lei sobre a reforma da Previdência, o do acréscimo da aposentadoria integral. O artigo 5, referente à aposentadoria legal aos 62 anos, já havia sido adotado na semana anterior. A reforma será votada no dia 20. E a greve do dia 19, convocada no dia 14, tem como objetivo pedir aos senadores para “não adotar essa reforma injusta”. O objetivo do governo ao propor o artigo 6 às vésperas da greve era, claro, enviar o seguinte recado: não adianta protestar.

Segundo pesquisas, 65% dos franceses julgam aceitável a reforma da Previdência. Ou seja, a maioria da população entende que em época de crise econômica sacrifícios são necessários. Cerca de 70%, porém, apoia os manifestantes. O motivo dessa aparente contradição? Para numerosos cidadãos, a greve transcende a reforma da Previdência.

No ensolarado dia 12, um mar de gente na praça da Bastilha, centro de Paris, protestava contra uma série de medidas tomadas pelo governo de François Fillon e Sarkozy. “Por que Sarko não fez um referendo sobre a reforma da Previdência?”, pergunta um integrante da CGT. “Seu descaso com os cidadãos, inclusive aqueles que o elegeram, é inadmissível.”

“Estou aqui para manifestar minha repulsa contra a criação de um Ministério da Identidade Nacional, contra um presidente que quer acabar com os serviços públicos”, acrescenta Marine, funcionária pública de 36 anos. Uma universitária pondera que o fato de as novas gerações serem cada vez mais longevas não justifica o aumento da idade para a aposentadoria legal. “Hoje o trabalhador produz quatro, cinco vezes mais do que há cinco décadas”, afirma. “É questão de simples aritmética: esse trabalhador poderá financiar um maior número de aposentadorias.”

Mais anos de trabalho significam, dizem os estudantes, menos empregos liberados para os atuais jovens. Isso num paí-s onde o nível de desemprego é mais elevado para aqueles com menos de 25 anos.

“Injustiça”, gritavam em coro diferentes grupos.

Desde sua chegada ao poder, em maio de 2007, Sarkozy tem sofrido uma gradua-l perda de popularidade. Ele prometia o aumento do poder de compra. Criaria empregos. Seu slogan predileto era “trabalhar mais para ganhar mais”. A atual taxa de desemprego é de 10%, a mais elevada em décadas. Claro, a crise econômica tem sua culpa. Mas em época de vacas magras, qualquer derrapada, por menor que seja, é negativa para o presidente.

Sarko sempre martelou que seu governo seria inatacável. Por isso, a população não se conforma, por exemplo, com o opaco caso a envolver o ministro do Trabalho, Éric Woerth. Durante a campanha presidencial, Woerth, tesoureiro do partido de Sarko, o UMP, teria aceitado 150 mil euros líquidos num envelope de Liliane Bettencourt, herdeira de 87 anos da L’Oréal.

Sarko também teria recebido envelopes de madame Bettencourt quando era prefeito de Neuilly. Mais: o Fisco não controla as contribuições da empresária desde 1995. Isso apesar de suspeitas de fraude fiscal por parte da mulher mais rica da França, em 2009. E – sempre quando Woerth era ministro do Orçamento (até março de 2010) –, Bettencourt foi reembolsada em 30 milhões de euros. O montante, parece, é relativo a excessivos impostos por ela pagos.

O “presidente dos ricos”, como chamam Sarko na rua, seria o vencedor do embate contra os ferroviários, motoristas de ônibus, estudantes etc.? Por ora, ele se vê como o homem que teve a coragem de passar uma reforma necessária.

Além disso, os sindicatos se manifestam contra uma reforma e não exigem, assim como o PS, que ela seja revogada. Em parte, essa cautela se deve a uma lei segundo a qual grevistas não recebem seus salários. Por exemplo, alguém com salário mensal de 1,3 mil euros perde 55 euros por dia de greve. A lei exige, ainda, um serviço mínimo nas escolas e transporte público. Assim, um serviço parcial é garantido – e perturbações são minimizadas.

Mas quem sabe os mais radicais, como ferroviários e sindicatos de estudantes, não vão radicalizar o movimento. Foi o que aconteceu em 1995 e 2006, quando dois primeiros-ministros conservadores cederam à pressão da rua e enterraram reformas semelhantes. Qualquer que seja o desfecho, Sarkozy terá de lidar com o sentimento crescente de “injustiça”. Especialmente em 2012, quando tentará se reeleger.

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