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Entrevista

Obscurantismo europeu

por Gianni Carta publicado 09/08/2011 11h14, última modificação 10/08/2011 17h02
Os políticos são os responsáveis pela islamofobia que inunda o continente, é a tese do professor de História Nicolas Lebourg, da Universidade de Perpignan, especialista em extremismo
Obscurantismo europeu

Os políticos são os responsáveis pela islamofobia que inunda o continente, é a tese do professor de história da Universidade de Perpgnan, especialista em extremismo. Foto: Karim Sahib/AFP

Especialista em agremiações de extrema-direita- na Europa, Nicolas Lebourg diz que a islamofobia está em ascensão por causa da radicalização do discurso de políticos europeus. Legendas extremistas ganharam popularidade porque dizem defender valores democráticos, como os direitos dos homossexuais e da mulher. Para o professor de História da Universidade de Perpignan e autor de Le Monde Vu de la Plus Extrême Droite (PU Perpignan, 260 págs., 19 euros), “as legendas moderadas têm de explicar ao povo que direitos humanos não podem ser defendidos enquanto se estigmatiza a -população de imigrantes”.

CartaCapital: Como explicar o ato do terrorista Anders Behring Breivik na Noruega?

Nicolas Lebourg: A tragédia lá decorre de uma radicalização da Europa. Esse processo tem raízes num movimento nacionalista, conceito oriundo do nacionalismo alemão baseado na identidade, no sangue. Nacionalistas e extremistas fazem um discurso a questionar o multiculturalismo, a imigração, a islamização. Essa narrativa é uma reação à crise dupla que vivemos. A primeira foi aquela geopolítica de 11 de setembro de 2001. A segunda é a econômica, iniciada em 2008. A partir do 11 de Setembro, ideais neoconservadores americanos migraram para a Europa. São baseados no seguinte quadro bastante simplista: o mundo livre seria o Ocidente, e do outro lado existe o Islã. Essa narrativa substitui aquela da Guerra Fria, quando o Ocidente lutava contra a Europa do Leste. Agora, o Islã representaria o novo totalitarismo. Faço uma comparação para ilustrar essa mutação de discurso. No início dos anos 1980, Ronald Reagan afirmou que todos os terroristas no mundo, incluindo os irlandeses, bascos etc., dependiam de Moscou. Nos anos 2000, o presidente George W. Bush fez praticamente o mesmo discurso contra a Al-Qaeda. Quanto à crise econômica, ela aconteceu na Europa em grande parte porque seus dirigentes, ou quase todos, são de direita. E se alinharam ao modelo da política econômica dos neoconservadores americanos. Ou seja, esses líderes europeus são liberais no sentido econômico e populistas no tablado político.

CC: Mas o atual motor da ascensão de ideias extremistas em geral não é a crise econômica?

NL: Depende. Uma legenda de extrema-direita como a Frente Nacional, na França, tem eleitores com perfis diferentes. Claro, haverá o desempregado, ou pessoas a atravessar uma crise financeira, que votarão na FN. Mas há também eleitores a votar na agremiação por conta da atomização da sociedade francesa. Esses eleitores são ainda mais reacionários. São contrários à imigração não por temer a concorrência no mercado de trabalho, e sim porque rejeitam a presença cultural e física dos imigrantes.

CC: Por isso, populistas como Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi se apropriam de elementos do discurso da -extrema-direita...

NL: De fato. Ao mesmo tempo o fazem para desviar o foco da crise provocada por sua política econômica liberal à americana. A tática a render maiores frutos foi a de colocar na agenda nacional problemas de integração de estrangeiros e de imigração. Mas, atenção: esse discurso contra estrangeiros foi feito, na França, somente por organizações radicais, e por radicais refiro-me aos extremistas de direita fora do Parlamento. Pouco a pouco, a narrativa desses radicais entrou na narrativa de agremiações como a FN. E a direita clássica também adotou o discurso. Vimos isso claramente quando houve o debate sobre a identidade nacional, lançada pelo presidente Sarkozy. Esse discurso islamofóbico, incorporado no espaço público, tem consequências profundas.

CC: O senhor escreveu que essas organizações radicais não existiram até os anos 1970.

NL: Havia pequenos grupos sem um discurso definido, como aquele contra a imigração. Quando falavam de estrangeiros, radicais e também a -extrema-direita adotavam uma fala racista, contra a mestiçagem. A temática da imigração disseminada pela Frente Nacional por toda a Europa chegou à França via François Duprat, o número 2 da FN. Para ele, a questão da imigração deveria ser abordada do ângulo da concorrência social. Mesmo porque o discurso racial numa França pós-Segunda Guerra Mundial chocava numerosos conterrâneos. Importante era dar prioridade ao desempregado francês, não ao trabalhador estrangeiro. Esse novo discurso, feito a partir dos anos 1970, seduziu e seduz significativa fatia do povo. Influenciou a Grã-Bretanha, a Suíça e toda a Europa. E quando há crises econômicas, essa narrativa ganha maior ímpeto.

CC: Os radicais mais perigosos seriam aqueles a atuar somente na internet, como foi o caso do terrorista norueguês?

NL: Os mais perigosos são os menos vigiados. Integrantes de partidos de -extrema-direita e mesmo de grupos clandestinos são numerosos, e assim você pode infiltrar suas organizações. Na França, os serviços de segurança infiltram grupos radicais desde 1947. A partir do momento em que o radical usa meios tecnológicos, ou age isoladamente, será muito mais difícil monitorá-lo.

CC: A islamofobia nasceu na guerra na ex-Iugoslávia?

NL: Sem dúvida. No caso da França, o Estado-Maior francês, numerosos intelectuais não radicais passaram a crer na existência de uma célula islamita atuando para desestabilizar e islamizar a Europa. Após o 11 de Setembro, veremos a introdução da temática neoconservadora baseada no famoso discurso de George W. Bush contra o islamofascismo. O tema foi retomado até por numerosos intelectuais da esquerda europeia.

CC: O senhor se refere, entre outros intelectuais supostamente de esquerda, ao midiático Bernard-Henry Lévy, não?

NL: (Risos) Sim, entre outros. Sem dúvida BHL teve a honra de disseminar esse discurso. E houve um contágio.

CC: Como vê o fato de BHL mesclar islamismo e fascismo?

NL: Pessoas sérias não misturam islamitas com islamofascistas. Mesmo porque é uma comparação historicamente inexata. A confusão mora no seguinte fato: em países europeus, toda a vida política é permeada de símbolos ligados à Segunda Guerra Mundial. Há retornos à resistência, ao general De Gaulle. Isso permite a alguns loucos se tornar os descendentes dos resistentes agora a combater os islamitas. Essa gente não tem nada a ver com a resistência contra o fascismo, ou o Islã. E muito menos contra o islamofascismo, que não existe. No entanto, esses símbolos, usados de maneira errônea, são extremamente eficazes. O motivo é simples: a analogia é simplista e de fácil compreensão.

CC: Acha que, ao banir a burka e o niqab, Sarkozy, e agora Berlusconi, não estigmatiza a mulher muçulmana?

NL: Houve, na Assembleia Nacional, uma comissão para lidar com a questão da burka. Foi dirigida por um deputado comunista e outro de direita. O comunista fez um discurso violento, xenófobo, e muito parecido com aquele da FN. O deputado de direita, do UMP de Sarkozy, pronunciou-se a favor de alianças com a FN. E entre os experts a integrar a comissão na Assembleia havia o grupo de extrema-direita e islamofóbico Riposte Laique. Em suma, o perfil dos integrantes da comissão revela a falta de capacidade dos dirigentes de discutir a integração do Islã fora da temática da extrema-direita.

CC: Quando o antissionismo e o antiamericanismo deixaram de fazer parte do discurso da FN?

NL: A partir do 11 de Setembro, a -extrema-direita europeia passou a estigmatizar o Islã e, por tabela, a apoiar Israel e a política internacional de -Washington. Essa mutação rendeu frutos no sentido eleitoral.

CC: Acha que Marine Le Pen é, como dizem, mais perigosa que o pai?

NL: Ela compreendeu que jamais conseguiria uma aliança com a direita na França com a ambiguidade antissemita. Estigmatizar os muçulmanos é aceitável à direita e à esquerda. O antissemitismo é uma barreira intransponível. Le Pen tem feito tudo para não ser vista como antissemita. Planejou até ir para Israel, mas não pôde porque Jerusalém não aprovou a viagem. A estratégia dela é clara. Se a direita vencer a presidencial em 2012, ela continuará seu discurso social protecionista para poder criticar a direita. Caso a esquerda vença, ela usará sua estratégia favorita para fragilizar o UMP: dirá que eliminou os linhas-duras da FN e o antissemitismo. Assim como a direita, a FN divide as mesmas posições em relação à segurança pública. A direita está preocupada com a estratégia de Marine Le Pen. E, de fato, ela tem fortes chances, como anunciam as enquetes de intenção de voto, de chegar, como seu pai em 2002, ao segundo turno da presidencial.

CC: Como explicar a ascensão da extrema--direita nos países nórdicos?

NL: A renovação da extrema-direita rendeu todos esses frutos. Havia, na Noruega, um regime colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial, comparável ao do regime do marechal Pétain, na França. O Partido do Progresso, de extrema-direita, diz agora defender a democracia, os direitos dos homossexuais e da mulher. Atualmente, o problema enfrentado pela direita e pela esquerda na Europa é reconquistar os valores democráticos. Essas legendas moderadas têm de explicar ao povo o seguinte: direitos humanos não podem ser defendidos enquanto se estigmatiza a população de imigrantes.

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