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Internacional

Discurso sobre o estado da União

Obama e as grandes questões americanas

por Eduardo Graça — publicado 30/01/2014 19h17, última modificação 30/01/2014 19h35
Em discurso voltado à política doméstica, presidente americano dá pistas sobre quais armas serão usadas pelos democratas nas legislativas de novembro
Larry Downing/Pool/AFP

De Nova York

Para uma audiência televisiva de cerca de 33,3 milhões de espectadores – número praticamente idêntico ao do ano anterior – Barack Obama anunciou, no tradicional discurso sobre o estado da União, no Capitólio, na terça-feira 28, sua intenção de fazer de 2014 um "ano de ação concreta", ainda que, para tanto, precise usar mais amiúde as "ordens executivas", equivalentes às medidas provisórias no Brasil, passando por cima do legislativo. Ao mesmo tempo, em sintonia com o calendário eleitoral, o presidente dos EUA afagou a base democrata ao defender um incremento significativo do salário mínimo para os trabalhadores de baixa renda. "A América merece um aumento", disse.

Feito sob medida para negar a percepção de que seu segundo mandato arrisca ser um dos mais inconsequentes da história recente, o discurso teve retórica ambiciosa, com algumas pistas sobre quais armas serão usadas pelos democratas na batalha de novembro, quando todas as cadeiras da Casa dos Representantes estarão em jogo, além da maioria do Senado e dos executivos e legislativos estaduais.

Se evidencia a incapacidade de movimentação política da Casa Branca, a crítica do presidente à falta de ação do Congresso busca enfatizar o argumento governista de que o legado da Era Obama é prejudicado enormemente por uma maioria de direita radical incapaz de assumir compromissos no Capitólio, mantendo o presidente como refém.

O reconhecimento público da impotência política também foi contrabalançado por possíveis iniciativas no comércio externo, com o ensaio de acordo transcontinental entre os países do Pacífico, e pela reforma do sistema de imigração do país, que poderia beneficiar os brasileiros em situação ilegal nos EUA. Quem esperava um peso maior para a política externa ou os programas de combate à pobreza e à crescente desigualdade social americana, ficou, de acordo com o editor-chefe do Financial Times, Lionel Barner, desapontado. "Quando Obama anuncia o aumento imediato do salário mínimo para os servidores federais e prega uma base de US$ 10.10/hora, ele faz um aceno decidido para a base do Partido Democrata, mas a verdade é que este ato nada muda no setor privado. É preciso, no entanto, ouvir o discurso e se levar em conta o contexto mais amplo. A economia norte-americana está no meio de um processo de recuperação, pode ultrapassar os 3,5% de crescimento do PIB este ano. Ou seja, a Casa Branca sabe que a desigualdade social não será o tema central do ano", apontou o jornalista.

Dois dias depois do discurso, Washington celebrou o crescimento do PIB de 3,2% no último quadrimestre de 2013, com aumento do consumo e do investimento da iniciativa privada. Ainda há temores no setor imobiliário, mas para a maior parte dos economistas americanos "2014 será um ano com feliz feliz para os EUA", como afirmou a analista-sênior de EUA do Merrill Lynch, Michelle Meyer.

À esquerda, a pressão segue pelo aumento do salário mínimo para US$ 15/hora e pela criação de um colchão maior de benefícios para os desempregados. Não por acaso, um dos momentos mais fortes do discurso de Obama foi a ênfase dada à necessidade de os EUA estabelecerem de forma decidida o pagamento equânime a trabalhadores de ambos os gêneros. "Em 2014, as mulheres foram cerca de metade da força de trabalho dos EUA, mas ainda ganharam 77 centavos por cada dólar recebido pelos homens. Isso está errado e é motivo de vergonha. É hora de acabar com políticas no ambiente de trabalho que pertencem a um episódio de 'Mad Men'. Este ano, vamos nos unir – Congresso, Casa Branca, empresários de Wall Street e do setor produtivo para dar a cada mulher a oportunidade que ela merece", afirmou o presidente.

Obama sabe que a conquista da maioria do Senado pelos republicanos em novembro, como indica a maioria das pesquisas, significaria, na prática, o fim de seu governo. E a repetição da coalizão vitoriosa nas eleições do ano passado – hispânicos, negros, gays, jovens e mulheres – é fundamental para garantir a maioria na câmara alto do Congresso, devido ao número significativo de senadores democratas em disputas difíceis em estados de maioria conservadora.

No entanto, no atual clima de confronto em Washington, da ambiciosa agenda de ‘união’ proposta por Obama para 2014 – a reinstalação dos benefícios sociais para os desempregados, o fim da obstrução à reforma da saúde pública, um pacote de geração de empregos via melhoria da infra-estrutura arcado pelos cofres públicos e o aumento do salário-mínimo – o único tópico de fato possível de se tornar realidade, de acordo com analistas, parece ser a reforma do sistema de imigração, com a incorporação de cerca de 12 milhões de cidadãos não-documentados, a maioria de origem latino-americana, à economia formal.

Ainda assim, os republicanos anunciaram esta semana que preparam uma armadilha para os democratas: pela primeira vez suas lideranças consideraram rever as regras do enferrujado sistema de trabalho estrangeiro de Tio Sam, mas desde que a cidadania plena não entre na mesa de negociações. Criaria-se, na prática, a figura do cidadão oficial de segunda classe, que seguiria pagando impostos, com benefícios reduzidos. A jogada é culpar os democratas em novembro se a proposta republicana não for aprovada ou, em caso de um "grande acordo" que não inclua o direito à cidadania, apostar na diminuição da empolgação dos hispânicos com os governistas.

A política externa, tradicionalmente levada ao centro das ações da Casa Branca em segundos mandatos, ficou em segundo plano. "A cautela de Obama nesta área foi meu maior espanto. Ele não será um Nixon em 1973 ou um Reagan negociando com Gorbachev em 85. Ele deixou claro que sairá do Afeganistão no fim do ano, ou seja, seguirá a linha de encerramento das guerras de Bush II, e só. A exceção é a tentativa de acordo nuclear com o Irã. Mas a questão, uma vez mais, é: será que ele vai conseguir uma posição consensual com este Congresso, no momento em que ameaça um veto ao desejo dos legisladores de impor mais sanções econômicas a Teerã?", questionou Barber.