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"O telhado de vidro mais alto e duro" dos EUA

por The Observer — publicado 26/06/2014 03h56
Qualquer mulher que dispute a presidência dos Estados Unidos enfrentará sérios obstáculos, diz Hillary Clinton sobre uma possível candidatura
Angela Weiss/Getty Images/AFP
Hillary Clinton

Hillary Clinton durante evento na Califórnia, em 19 de junho. Ela é uma das favoritas para suceder Obama

Por Ed Pilkington

As mulheres americanas enfrentam uma dura batalha enquanto tentam quebrar "o telhado de vidro mais alto e duro" – a eleição de uma mulher para presidente dos Estados Unidos – por causa dos antigos critérios duplos na política, disse Hillary Clinton ao Observer.

A ex-secretária de Estado, senadora e primeira-dama, que em 2008 se tornou a única mulher nos EUA a vencer uma primária presidencial, diz que tem um "grande compromisso pessoal" de ver uma mulher na chefia da Casa Branca. "Espero que consigamos isso, porque já passou da hora, mas vai ser difícil."

A candidata bem-sucedida, diz Clinton, terá de vencer vários obstáculos antes que o cargo mais poderoso do mundo esteja em mãos femininas – como superar os critérios duplos em torno da percepção sobre o preparo das mulheres para ocupar o cargo mais elevado. "Ainda há esse questionamento inerente sobre a capacidade executiva das mulheres, seja na diretoria de empresas ou na esfera política. Então você tem de continuar demonstrando sem parar que as mulheres têm o mesmo direito de disputar esses cargos, e que os eleitores sejam solicitados a avaliá-las, como fazem os homens. Vai ser preciso mais um empurrão, mas acho que um dia chegaremos lá."

Clinton deixou o cargo de chefe da diplomacia americana no ano passado e embarcou em uma jornada para divulgar seu livro Hard Choices [Escolhas difíceis], uma memória de seus quatro anos no Departamento de Estado. Ela ainda não revelou se lançará uma segunda candidatura presidencial em 2016, na qual é considerada uma forte candidata a receber a nomeação democrata que lhe escapou seis anos atrás e a selar seu retorno à Casa Branca, desta vez como presidente.

Hard Choices começa com a dura derrota de Clinton para Barack Obama na disputa em 2008 para candidato presidencial do partido Democrata. Em seu discurso de desistência, em 7 de junho em Washington, ela disse a seus seguidores decepcionados: "Embora não tenhamos conseguido quebrar o mais alto e duro telhado de vidro desta vez, graças a vocês ele teve cerca de 18 milhões de rachaduras".

Clinton disse ao Observer: "Eu fui a primeira mulher a vencer uma primária, e ganhei várias delas, mas nenhuma mulher havia feito isso antes". Ela se referia à primária de New Hampshire em que venceu Obama, em janeiro de 2008. Depois, Clinton conquistou 21 estados na corrida democrata, ficando muito perto de Obama na votação popular.

Apesar desses sucessos históricos, Clinton lembra que disputar a presidência é "muito combativo, até brutal". Ela diz que enfrentou muito sexismo durante a campanha, tanto de seus inimigos políticos quanto da mídia, que dedicava tempo e espaço consideráveis a sua aparência, suas expressões faciais, "gostabilidade", o relacionamento com Bill Clinton e até seu decote. "Muitas mulheres em todo o mundo que estão na política e tentaram se tornar primeira-ministra ou presidente tiveram de enfrentar isso", diz ela.

Apesar de as dificuldades para as mulheres na política nos EUA serem antigas, não há sinais de mudança. Uma pesquisa realizada pela campanha Emily's List, que pretende ter mais mulheres democratas pró-opção do aborto eleitas para cargos públicos, descobriu que 75% dos eleitores consideram uma mulher presidente uma coisa boa, que enviaria um sinal positivo para as crianças do país.

Na entrevista, Clinton também fala sobre a imobilidade política em Washington, causada pelo impasse entre os dois principais partidos. Ela se refere à frase de Winston Churchill de que "você não pode sempre contar com que os americanos façam a coisa certa depois de tentarem tudo o mais", e diz: "É assim que eu acho que estamos nos comportando agora – estamos correndo em muitas direções diferentes. Rapaz, nós arrastamos os pés, e estamos sobrecarregados por interesses especiais e forças externas que tentam ditar o que faremos ou não em nosso sistema político".

Clinton indicou que provavelmente anunciará sua decisão sobre disputar a eleição no próximo ano. Se o fizer, será sua quarta campanha presidencial – a segunda como candidata, além das de 1992 e 1996 em que acompanhou seu marido, Bill, em sua aposta bem-sucedida para a Casa Branca.

O último casal que lutou em quatro campanhas presidenciais importantes foi Franklin e Eleanor Roosevelt, em 1932, 36, 40 e 44. Perguntada por que se colocaria em algo tão penoso quanto se equiparar ao recorde dos Roosevelt, Clinton responde: "Ora, eles são um exemplo muito bom".

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