Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O sepultamento da memória

Internacional

Muammar Kaddafi

O sepultamento da memória

por Gabriel Bonis publicado 25/10/2011 20h46, última modificação 25/10/2011 20h46
Conselho Nacional de Transição enterra ditador líbio e o filho em local secreto, em meio à tradição islâmica e o medo político de sua morte

Após quase cinco dias de “exposição turística” em um frigorífico de Misrata, os corpos do ditador Muammar Kaddafi e de seu filho Mutassim jazem em uma localização não identificada em um deserto na Líbia, segundo o Conselho de Transição Nacional (CNT). A agência de notícias da AFP, aponta que testemunhas presenciaram um comboio de quatro ou cinco veículos militares levando os cadáveres na noite de segunda-feira 24.

A cerimônia, que seguiu os preceitos islâmicos, incluindo o banho dos corpos e preces, sepultou a exibição dos maiores “troféus” de oito meses de guerra civil. Não enterrou, porém, a suspeita da execução de Kaddafi e seu filho, capturados vivos e com provas em vídeo. Ao contrário, despertou uma pressão desfaçata da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo esclarecimento do caso, atendida prontamente pelo CNT.  "Queríamos que ele fosse julgado e sentisse a maior humilhação possível", disse o líder do Conselho, Mustafa Abdel Jalil.

A decisão sobre os corpos, apressada pelo processo de decomposição, reflete uma luta de poder entre as brigadas militares de Misrata, que capturaram Kaddafi, e a busca do CNT pela liderança no país. Um posicionamento que deve reverberar nos próximos meses.

O destino secreto dos cadáveres contrariou a intenção da família em enterrar ambos nas proximidades de Sirte. No entanto, o mistério quanto ao paradeiro final dos Kaddafi tem uma justificativa no Islã, diz o líder religioso islãmico no Brasil, o xeque Armando Hussein Saleh.

O xeque explica, em conversa com o site de CartaCapital, que a decisão de não revelar o local do túmulo é uma proteção à fé dos muçulmanos. “Alguns de seus seguidores [Kaddafi] podem transformá-lo em santo, idolatrá-lo. Isso é proibido pelo Islã, admira-se apenas o Criador.”

Por esse motivo, Kaddafi não teria sido enterrado em um cemitério muçulmano, dilema semelhante ao descarte no oceano do corpo do terrorista Osama bin Laden por militares dos EUA. Uma oposição à cultura judaico-cristã Ocidental, que enxerga nos túmulos uma forma de louvar a memória de seus mortos.

No entanto, questões políticas, como a tranformação da cova em referência às ideologias do ditador por seus apoiadores, mantendo-as vivas e até alimentando grupos extremistas, certamente foram consideradas.

Um aspecto que suporta a última teoria é o pedido de Kaddafi em seu testamento, segundo o site da BBC News, para ser enterrado com as roupas de sua morte, sem ser banhado. No entanto, o processo, conforme explica o xeque Saleh, é reservado somente aos mártires. “Esse não é o caso, pois as imagens mostram que Kaddafi foi capturado com vida e morto longe de um campo de batalha”, diz. “Ele não pode exigir isso, era um ditador e há regras para ser um mártir.”

O líder religioso explica que no islamismo o mártir é caracterizado por alguém que morra lutando para defender sua pátria, família, religião e honra. Não há inclusive a necessidade de ter um passado íntegro, pois “isso será julgado pelo criador e a dívida do perverso será quitada”.

Segundo o xeque Saleh, os preceito islâmicos garantem que ao ser desenterrado,  mesmo após anos no túmulo, o mártir preservará a mesma forma do dia de seu enterro. “Ele tem características próprias, o seu sangue é fresco, exala perfume e ele não apodrece ou se decompõe.”

No caso de Kaddafi, o religioso diz não ser uma violação ao Islã o corpo ter sido enterrado dias após a sua morte. Além disso, embora seja preferível um funeral durante o dia, a cerimônia pode ocorrer em outros horários caso necessário. “O prazo de 24 horas descende da Arábia Saudita, a meca do islamismo. Lá, o clima quente favorecia a liberação de odores do corpo, por isso, a pressa.”

No entanto, a autópsia realizada no ditador líbio no domingo 23 é considerada uma ofensa grave aos preceitos da religião, aponta o xeque. Saleh cita inclusive o profeta Maomé: “Quebrar o osso de um morto é a mesma coisa que quebrar o osso de um vivo”, diz. “Ele sente as dores e escuta quem está à sua volta, só não pode se manifestar.”

"Quando se tira a alma do ser humano, ele desliga", diz, explicando que o indivíduo ainda existe e sente tudo como se fosse vivo. "Isso inclui as dores de passar por uma autópsia", destaca.

Prorrogação da Otan

Com a enterro de Kaddafi anunciado, os rebeldes pediram a prorrogação da missão da Otan na Líbia por mais um mês, embora países como a França considerem a operação terminada e esperam deixar o país em breve.

A Otan havia anunciado na sexta-feira 21 que tinha a intenção de pôr fim à sua operação militar no país em 31 de outubro.

registrado em: