Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O que fazer com este intruso?

Internacional

Crônica

O que fazer com este intruso?

por Matheus Pichonelli publicado 24/09/2011 12h40, última modificação 25/09/2011 12h15
Comédia argentina mostra que o velho mundo e suas velhas convicções estão longe de saber lidar com o fenômeno chinês

O mundo mudou, mas as paredes e cristaleiras são as mesmas, o fogão e frigideira são das antigas, o despertador é analógico e os azulejos, do tempo em que coisa velha era chamada démodé. O entulho que se acumula nos fundos da casa, em Buenos Aires, e o velho Fiat usado como mesa de apoio para a cerveja levam a pensar que estamos em algum canto do final dos anos 1970. Só dois detalhes fazem rever a conclusão: uma TV de plasma, brilhante, na parede da sala, e um chinês desconhecido dentro do quarto.

A alegoria está montada. “Um Conto Chinês”, filme de Sebastian Borensztein que levou uma multidão aos cinemas na Argentina, é uma espécie de jogo de espelho em que ninguém sabe exatamente quem é caricatura de quem. Os estereótipos, que transbordam, são antes parte do jogo de encenação do que desatenção ao roteiro: o filme não se propõe a entender causas e consequências do estreitamento da relação entre Oriente e Ocidente, mas sim brincar com o diálogo truncado e o conjunto de impressões e imagens (distorcidas, ora preconceituosas) que surgem deste encontro.

Com Roberto, personagem de Ricardo Darín, Borensztein conseguiu construir o protótipo do espírito sistemático de uma economia antiga, calcada na abnegação, na acumulação primitiva e na prática racional capitalista. Max Weber não faria melhor ao descrever um calvinista em pleno século XXI com sua velha roupa colorida, seu velho modo de fazer cálculo (à mão, prego com prego) e sua vocação para o trabalho secular.

Uma casa velha de paredes gastas e uma velha loja de ferramentas (ou ferreteria) são os cenários que comportam este velho mundo, que não tem ideia do que fazer com um novo ator do cenário global.

Enquanto fórmulas ultrapassadas de um mundo antigo levam a erros cíclicos sobre desafios inéditos no novo tabuleiro geopolítico, Borensztein vai na raiz ao mostrar que, como Roberto – que vivia muito bem, obrigado, com seus velhos hábitos e desprendimento – o mundo não está preparado para receber um novo ator. Não foi à toa que ele tenha usado, para esse papel, o ator que é hoje a cara do cinema argentino, que é a cara do cinema latino.

Na vida real, ninguém parece ignorar que, em algum canto da Terra do Meio, a economia do país mais populoso do mundo cresce na velocidade de um trem-bala, irrigando o planeta com bens de consumo duráveis, comprando títulos da dívida da maior economia do Planeta e promovendo desequilíbrios na balança comercial em todas as fronteiras. Mas, como mostra “Um Conto Chinês”, poucos entendem o fenômeno chinês e seus atores: nessa baderna, ninguém fala a mesma língua ou fala nada com nada.

Jun, o personagem de Huang Sheng Huang que entra de paraquedas na vida do velho turrão e provoca estragos, é a representação do receio coletivo sobre esse novo mundo. Numa das cenas, o convidado/intruso chinês é levado por Roberto para jantar com uns vizinhos, uns poucos amigos de seu ciclo de relações. Sabendo que o rapaz não fala espanhol, os argentinos passam a desfilar as suas impressões sobre o sujeito: “eles são muito sábios”, “o cabelo dele é lisinho, é milenar”, “não se importe se ele gosta ou não da nossa comida: lá eles estão acostumados a comer escorpiões”. Falam isso enquanto chupam ossos de tutano, esfacelam o rosto com a espiga de milho cozido, e se admiram que o ser primitivo não saiba como se come uma linguiça feita a partir de sangue do porco (“é puro ferro”, explica Roberto para ele, inutilmente). É quando a anfitriã se pergunta se, em algum momento, o convidado pensaria que está diante de seres primitivos.

Em outra emblemática cena, Roberto leva o hóspede pelo braço para um bairro oriental de Buenos Aires para fazer com que o sujeito interaja com seus pares e explique, afinal, o que diabos o levaram para a América. Um dos comerciantes chineses reclama que não entende nada do que diz o conterrâneo. Roberto se enfurece: como isso é possível? E o comerciante responde: eu falo mandarim, e ele, cantonês. A reação do argentino, expressa num impropério em espanhol, cria praticamente um incidente diplomático entre as duas nações.

No longa, o absurdo parece mais latente que qualquer personagem. E é como absurdas que as situações mais constrangedoras são construídas, fazendo a plateia rolar de rir em inúmeras passagens sem perder de vista um detalhe: nada ali é inverossímil. Todos são levados a pensar que o chinês e seus tropeços na língua são apenas pitorescos, inofensivos até. Mas é assim que, aos poucos, ele avança degraus em relações construídas por meio de valores universais (confiança, noção de espaço, gratidão e trabalho) onde antes só havia ignorância um do outro.

No filme, o entendimento é rabiscado toda manhã, numa troca aparentemente justa ao preparar o pão e o café para o dono da casa. Devagar, Roberto e sua Argentina, a parte Ocidental do bolo que no alto de certa arrogância parecem se divertir com histórias bizarras de países distantes (que chegam por meio de jornais velhos), começam a se dar conta dos absurdos também de sua própria fundação. A referência à Guerra das Malvinas não parece escapar dessa lógica da tragédia histórica. Com o chinês em sua casa, Roberto passa a perceber o quanto, aos olhos de um estrangeiro, ele, seu país e seus hábitos são também estranhos e caricatos.

Como o Planeta, ninguém no filme sabe a que veio esse “ator milenar”. Mas é ele quem dá jeito em velhos entulhos, velhas paredes e ensina, a seu jeito, como resolver problemas domésticos (representados no filme pela falta de talento de Roberto em sair de seu próprio mundo e se relacionar). A diferença é que, fora da tela, esse ator em algum momento pedirá a contrapartida. E, diferentemente de Jun, veio mesmo para ficar – gostemos ou não o mandarim.

registrado em: