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The Observer

O que é privacidade? Pergunte a Hollywood

por The Observer — publicado 22/01/2014 05h44, última modificação 22/01/2014 06h15
O silêncio da imprensa francesa sobre o affair de seu presidente seria impensável nos EUA – e cada vez mais em qualquer outro lugar
Stephen Dunn / Getty Images / AFP
Bill Clinton

Bill Clinton em La Quinta, na Califórnia, em 16 de janeiro. Depois da era Clinton não há argumento de privacidade nos EUA

Por Peter Preston

Eis um cenário fictício, totalmente ridículo. O presidente dos Estados Unidos abandonou sua mulher e sua família. Ligou-se a uma locutora loura da Fox e a instalou na Casa Branca, com uma verba para financiar suas atividades. Mas agora os olhos dele estão vagando novamente e o New York Post o apanhou deslizando para ver Kim Kardiqualquercoisa em seu apartamento em Washington. Enquanto isso, é o dia do importante discurso sobre o Estado da União e o presidente agendou uma entrevista coletiva. Centenas de correspondentes chegam. Centenas de perguntas são despejadas. Mas o chefe pede privacidade, como se fosse a quinta emenda. Bem, eu disse que era uma trama ridícula. Talvez há cerca de 50 anos, quando John F. Kennedy perseguia Marilyn, Judith e toda mulher disponível à vista, houvesse um certo silêncio em respeito pelo cargo.

Mas hoje? Depois da era Clinton? Depois de dezenas de escândalos político-sexuais? Não há argumento de privacidade aqui, seja na prática ou – mais importante – na lei americana. Se você é uma figura pública, um astro do golfe ou quanto mais um presidente, efetivamente dispensa a maioria dos seus direitos de privacidade.

Simplesmente, o que aconteceu na França na semana passada não poderia acontecer em Washington DC. Seria inevitavelmente um choque global. E, com ou sem convenção europeia sobre direitos humanos, isso certamente também valeria para um primeiro-ministro britânico: pendurado pelos tablóides, arrastado pela internet, esquartejado pela extremidade chique do mercado de mídia.

Ele seria alvo de zombaria, ou provavelmente pior. E estaria terminado. Ah, mas a França é diferente, como nos dizem. A França ergue um muro de discrição em torno de seu chefe de Estado. A França tem um corpo de repórteres políticos que sabem quando devem mostrar respeito. A França não deixará correspondentes estrangeiros ruidosos perto de um microfone. A França despreza os jornais anglo-saxões com suas obsessões lúbricas. A França lidera nas reformas econômicas e mantém o sexo na página 3.

A França é diferente. Nesse ponto, talvez esteja na hora de respirar fundo. Pois o simples fato, o mais simples fato de nosso mundo digital, é que não resta privacidade real para os atores em um palco global. Os Estados Unidos – dos Globos de Ouro às estrepolias na Casa Branca – impõem um contexto cultural que não pode ser abalado.

Então a revista Closer não poderia ter vigiado e denunciado François Hollande 30 anos atrás? Por isso Mitterrand, Chirac e Sarkozy tiveram um percurso fácil, pelo menos enquanto governaram no Eliseu? E daí? A pergunta que você gostaria que Hollande tivesse respondido é simplesmente coberta pelo artigo 10º da convenção de direitos humanos, sobre o direito do público de saber. Senhor, o senhor está profundamente impopular nas pesquisas, com apenas 22% de aprovação, e veio aqui dizer hoje que relançará toda a sua política econômica? Que diabos está fazendo, flutuando pela cidade em uma motocicleta, traindo a amante que tinha e saindo com uma atriz sorridente?

As pessoas que o elegeram, as pessoas a quem o senhor prometeu "conduta exemplar" depois da era Sarkozy, não têm direito a algo melhor que isso? A dificuldade em todo o debate sobre mídia e privacidade (como escreveu o admirável professor Ros Coward no Guardian um dia desses) é que ele precisa de uma nova visão, mais matizada. Não funciona digitalmente quando o centro da cultura das celebridades – Hollywood – trabalha segundo regras totalmente diferentes. Seus sobressaltos jurídicos e políticos na Grã-Bretanha são conduzidos principalmente por um regime antigo, pós-mídia social, desesperado para manter seus modos tradicionais. O debate como é hoje parece depender de se você odeia ou adora Rupert Murdoch. Mas na realidade a privacidade e o sigilo coabitam o mesmo canto escuro.

Não é de surpreender que os presidentes franceses tendam a sair manchados quando se aposentam. O sigilo mancha. E nenhum país, muito menos a França, é uma ilha. Aposto que Cheltenham sabia do último romance de Hollande muito antes de a notícia ter saído na Closer.

Vejam essa delegação de alto nível da Associação Mundial de Jornais, que esteve em Londres na semana passada para protestar contra a redução das liberdades para os jornalistas na Grã-Bretanha (especialmente para editores e repórteres do Guardian que investigam a vigilância da inteligência, mas sem esquecer os outros 61 que foram presos muito despreocupadamente desde 2011). Para onde essas delegações viajaram antes? Ora, Etiópia, África do Sul, Líbia, Iêmen, Tunísia, México, Honduras, Equador, Colômbia, Guatemala, Ucrânia, Azerbaijão e Birmânia. É interessante, muito seriamente, ver em que companhia andamos.

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