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Internacional

Análise

O que a Rússia e a China querem dos BRICS?

por José Antonio Lima publicado 14/10/2015 03h55, última modificação 14/10/2015 16h43
O bloco planeja um espaço comum de informação, mas precisa estar preparado para opiniões divergentes
Divulgação
BRICS

Painel durante o debate em Moscou: países querem criar espaço comum de informação

De Moscou*

Há uma contradição inerente aos BRICS, o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que pode dificultar o avanço do grupo. Os cinco têm o objetivo de democratizar as relações internacionais e criar um mundo multipolar, no qual os Estados não fiquem à mercê de receituários únicos, mas podem encontrar dificuldades para colocar seus projetos em prática por conta da natureza divergente no comportamento de seus governos.

Única proposta viável de contestação à hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados europeus sobre as instituições globais, como o Banco Mundial e o FMI, os BRICS buscam avançar pela área das comunicações para ter uma ação mais efetiva. A proposta está em estágio embrionário e foi discutida no debate “Vias de Criação de um Espaço Informacional Comum dos BRICS”, realizado na quinta-feira 8 em Moscou, com executivos de mídia, especialistas e acadêmicos dos cinco países.

Iniciativa da presidência russa dos BRICS, o fórum revelou a existência de um profundo incômodo com o domínio da imprensa norte-americana e europeia no debate público mundial.

Ficou claro que essa é uma prioridade para o governo de Vladimir Putin. “Podemos ser burocratas, mas compartilhamos a visão de que a mídia se tornou um quarto poder nos últimos anos ou décadas”, disse Sergei Ryabkov, vice-ministro do Exterior da Rússia na abertura do evento. "Nenhum governo, força política ou país pode atingir efetivamente seus objetivos sem uma interação apropriada com a mídia", afirmou.

A partir do diagnóstico exposto por Ryabkov, o Kremlin propôs a transformação do site oficial dos BRICS em um "secretariado virtual", que trará documentos oficiais e diversas informações do bloco, além da criação de uma rádio comum e de um convênio para compartilhamento de vídeos entre os serviços noticiosos estatais. Tudo com a intenção de estabelecer este espaço de informação comum, um "objetivo crucial" segundo Ryabkov.

O problema identificado pelos governos é verificado também para os jornalistas. “Em Pequim e Moscou e, tenho certeza, também no Brasil, os primeiros lugares em que os jornalistas vão buscar informações sobre os eventos são a CNN, a BBC e o New York Times”, diz Vladimir Petrovskiy, professor do Instituto de Ciência Política na Academia Russa de Ciência e ex-diretor do escritório chinês da agência estatal russa Rossiya Segodnya, que sediou o evento em Moscou.

A situação descrita por Petrovskiy é uma realidade nas redações. Isso faz com que, muitas vezes, as notícias apresentadas ao público tenham um forte viés, por vezes imperceptível, e nem sempre contemplem todos os pontos de vista relevantes sobre um determinado tema, sendo, portanto, incompletas.

No limite, essa circunstância pode atrasar o desenvolvimento econômico. No caso específico da África, continente cuja imagem formada pela mídia ocidental é baseada em exageros, equívocos e preconceitos, tal problema é marcante.

“O fato de uma maioria de notícias negativas serem publicadas esconde o que de bom está acontecendo no continente e isso acaba dificultando a chegada de investimentos”, disse em Moscou Chris Borain, CEO da African News Agency. Baseada na África do  Sul, a agência de notícias tem a intenção de divulgar notícias “sobre a África, escritas por africanos e para africanos”.

Ainda que os Estados dos BRICS e muitos jornalistas e acadêmicos concordem que a hegemonia da mídia norte-americana e europeia pode ser um problema, as soluções para essa questão estão longe de ser uma unanimidade. O inconveniente central das propostas russas é o fato de todas as iniciativas apresentadas esbarrarem em um forte papel dos Estados, o que pode minar a independência de qualquer iniciativa jornalística.

Durante o fórum, ficou evidente que, para os representantes russos e chineses, a maior parte ligados a veículos estatais ou fortemente influenciados pelos governos, a grande preocupação é com o que chamam de “guerra de informação” contra Moscou e Pequim.

Não há segredo na rivalidade entre o mundo ocidental e a Rússia e a China, muito menos no viés negativo da imprensa norte-americana e europeia em relação a esses países. Cabe questionar, entretanto, até que ponto a criação desse espaço comum pode desenvolver um debate público mais "equilibrado".

Como lembraram acadêmicos sul-africanos e indianos no fórum, os governos da Rússia e da China têm uma forte tendência a cooptar seus jornalistas. Fazem isso, também, com a sociedade civil. Não à toa, a Rússia buscou neste ano institucionalizar o fórum cívico dos BRICS, o que escancarou divergências entre os Estados e representantes de movimentos sociais.

Ações como essas transmitem a impressão de que, para Moscou e Pequim, o bloco é uma forma de, como regimes autoritários, se banharem na legitimidade de três democracias (imperfeitas, certamente, mas democracias) para agirem com mais tranquilidade na seara internacional.

A Rússia e a China precisam perceber, no entanto, que a natureza democrática de Brasil, Índia e África do Sul não trará apenas benefícios a sua busca por legitimidade. O diálogo com esses três países virá sempre acompanhado de posições divergentes e contestadoras, porque os três têm, em maior ou menor medida, imprensas ativas. Mais que isso, Rússia e China precisam perceber que a democratização das relações internacionais não significa apenas contestar os Estados Unidos, mas sim ampliar o número de vozes ouvidas, sejam elas estatais ou não. E não há como garantir que se vá gostar do que elas dirão.


*O jornalista viajou a convite do fórum "Vias de Criação de um Espaço Informacional Comum dos BRICS"