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O problema da migração no Japão

por Paulo Yokota — publicado 12/06/2014 04h09
Diante da redução de sua população, o país tem de repensar as medidas puramente paliativas e deixar de ignorar sua própria história

Um artigo elaborado por Debito Arudou, doutorado pela Meiji Gakuin University do Japão em Estudos Internacionais, toca em aspectos delicados sobre a política japonesa para resolver os agudos e profundos problemas criados com a redução da população, que ao mesmo tempo envelhece rapidamente. A questão colocada estimula considerar os problemas de migração em outras partes do mundo.

Arudou é um acadêmico naturalizado japonês com ampla produção científica em diversas entidades norte-americanas e colaborações regulares ao The Japan Times.

Para o articulista, medidas como a permissão de importações de recursos humanos das Filipinas e da Indonésia (principalmente de enfermeiras que dominem o idioma japonês, para cuidar de idosos) são paliativas. Ele cita também o estímulo às mulheres japonesas, que ganham condições para aumentar a natalidade e melhores oportunidades para voltar a trabalhar em tempo integral depois de cuidar inicialmente dos seus filhos. E ainda as licenças temporárias para descendentes de japoneses trabalharem no Japão, os dekasseguis, um grupo que inclui muitos brasileiros.

Ele considera que ações como essas decorrem de uma visão limitada, não resolvem problemas estruturais e poderiam ser consideradas de conveniência unilateral.

Se muitos estrangeiros veem no Japão oportunidades de melhorar suas condições de vida, a população local tende a considerar os imigrantes cidadãos de segunda classe, um fenômeno que se repete em muitos países europeus. Mesmo que sejam admitidas para trabalhos temporários, essas pessoas tendem a se incorporar à população local de forma permanente, até em situação irregular, contribuindo para suavizar os problemas populacionais que alguns países enfrentam.

As diferentes culturas trazidas por esses imigrantes, defende Arudou, precisariam ser abraçadas por uma política de estímulo à imigração de contingentes populacionais que não se restrinja a uma política que define como Galápagos (por se delimitar a um arquipélago).

O articulista tem plena consciência de todas as dificuldades aqui implícitas, uma vez que possui em seu currículo diversos trabalhos discutindo esses e assuntos correlatos, em que predomina o difícil problema da etnia. Assim sendo, entende que as autoridades japonesas tendem a manter o status quo, pois necessitam de trabalhadores estrangeiros para trabalhos difíceis, sujos e perigosos, como a limpeza das contaminações de Fukushima ou o preparo das Olimpíadas de 2020, mas os mantém discriminados.

Não há, segundo ele, uma verdadeira preocupação com os considerados não japoneses, que incluem os que estão há muito tempo no Japão, desde antes da Segunda Guerra Mundial, como os de origem chinesa ou coreana, provenientes das antigas colônias japonesas, e que continuam sofrendo discriminação. Lamentavelmente, os problemas étnicos ainda provocam até conflitos armados.

O governo de Shinzo Abe, segundo este autor, está admitindo mais “estagiários” provenientes do exterior, ou seja, temporários que não gozam de todos os direitos trabalhistas e de cidadãos. O imin, imigrantes em japonês, é um tabu que não tem sido considerado de forma ampla, como também acontece em alguns países europeus. Até nos Estados Unidos, apesar das declarações oficiais em contrário, procura-se admitir somente os recursos humanos vistos como os mais qualificados.

O incrível é que a maioria da população procura desconhecer que na virada do século 19 para o 20, quando o país sofria um terrível ajustamento com o excesso de sua população, foram enviados, notadamente para a América Latina, imigrantes como os que vieram para o Brasil.

Por aparentemente ignorar sua história, impõe muitas limitações às populações oriundas de outros países, gerando situações de irregularidades que dificultam as tendências naturais para o equilíbrio. Ao mesmo tempo, muitos países desenvolvidos lutam pela liberdade para os fluxos de capital e de mercadorias, cobrando royalties sobre o uso de tecnologias.

Esses tratamentos diferenciados, com a manutenção de alguns privilégios, não parecem contribuir para a convivência pacífica num mundo cada vez mais globalizado.

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