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The Observer

O presidente chinês é uma charada para o mundo

por The Observer — publicado 02/12/2013 16h19, última modificação 03/12/2013 08h38
Desde que chegou ao poder, em março, Xi Jinping apresentou reformas enormes, mas reprimiu a liberdade de expressão
JEWEL SAMAD / AFP
Xi Jinping

O presidente chinês Xi Jinping durante encontro bilateral com o presidente americano Barack Obama

Por Jonathan Kaiman

No início de novembro, o homem mais poderoso da China, Xi Jinping, entrou em uma rústica casa de fazenda durante um giro de inspeções na distante província de Hunan. O único equipamento elétrico dos moradores era uma lâmpada fluorescente, que estava acesa no teto. Shi Pazhuan, a matriarca da família, ficou confusa. "Como devo chamá-lo?", perguntou – em chinês, uma maneira cordial de perguntar quem era ele.

Xi não deu importância à descortesia não intencional. Perguntou a idade da mulher, soube que ela tinha 64 e segurou sua mão. "Você é uma irmã mais velha para mim", disse. A mídia estatal rapidamente relatou o encontro – parecia captar perfeitamente o estilo de liderança simples do presidente de 60 anos, sua personalidade afetuosa e seu carinho pelos pobres da zona rural.

Três semanas depois, a China de repente e unilateralmente declarou o controle administrativo de uma ampla área de espaço aéreo no disputado mar do sul da China, detonando uma crise internacional. Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos desafiaram a superpotência em ascensão ao enviar espontaneamente aeronaves para sua recém-formada "zona de identificação de defesa aérea"; a China enviou jatos de combate em retaliação. As tensões continuam ferventes. Analistas dizem que quase certamente o próprio Xi, também chefe dos militares do país, estava por trás da medida.

Xi é definido por essas contradições – um reformista da linha-dura, um nacionalista cosmopolita, um igualitário dedicado com tolerância zero para a dissidência.

Desde que Xi foi ungido secretário-geral do Partido Comunista, em novembro, prometeu liberalizar os mercados enquanto manteria o controle estatal; ele anunciou a benevolência chinesa no exterior enquanto enfurecia os vizinhos regionais; prometeu justiça e transparência enquanto reprimia grupos da sociedade civil. A mídia controlada pelo Estado chama Xi Jinping de homem do povo; os analistas o consideram calculista e impiedoso, o mais poderoso líder chinês desde Deng Xiaoping.

Antes que Xi assumisse o cargo principal da China, foi visto como um camaleão político, definido com frequência mais pelas projeções dos outros do que por verdades observáveis. Os otimistas o chamaram de um possível "reformista no armário"; um telegrama do Departamento de Estado divulgado pelo WikiLeaks o considerou "mais vermelho que o vermelho".

Um ano depois, a verdade provavelmente está em algum ponto intermediário. Apesar dos pedidos de transparência e regime de direito de Xi, ele lançou uma repressão draconiana contra dissidentes e a liberdade de expressão. Endureceu os controles da mídia e da internet no país e reprimiu impiedosamente o Novo Movimento de Cidadãos, grupo de ativistas que faz campanha por transparência no governo. Ele está supervisionando a vigilância maciça e a relocação forçada de programas nas regiões etnicamente divididas de Xinjiang e Tibete, onde as tensões não dão sinais de se dissipar.

Desde novembro passado, Xi também personificou o esforço da liderança chinesa para melhorar sua imagem no exterior. Ele professou uma admiração pelo basquete da NBA e os filmes de Hollywood; sorri em público, fazendo um contraste marcante com seu antecessor robótico, Hu Jintao. Não é mais estranho à vida no exterior; segundo os telegramas diplomáticos divulgados pelo WikiLeaks, tem uma irmã mais velha que vive no Canadá. Sua filha, Xi Mingze, matriculou-se em Harvard em 2010 sob pseudônimo. Visitou os Estados Unidos pela primeira vez como um oficial de baixa patente em 1985 e ficou hospedado com uma família em Iowa. Líderes ocidentais o chamaram de "aberto" e "afável".

A mulher de Xi, a cantora do Exército Popular de Libertação Peng Liyuan, foi descrita como uma "Carla Bruni-Sarkozy"; durante décadas, foi mais famosa que ele. Em março, fotos postadas online que a mostravam usando roupas da grife Exception, baseada em Guangzhou, provocou uma corrida à loja online da marca, o que fez seu site travar.

A ascensão de Xi ao poder foi detalhada em um vídeo chamado "Como Fazer um Líder" publicado em microblogs chineses em meados de outubro. Sua falta de ironia, juntamente com sua origem misteriosa – ele foi feito por uma companhia produtora independente chamada On the Road to Revival –, levou os analistas a supor que autoridades o produziram para cortejar a juventude bem conectada do país. Xi "viveu 16 grandes transferências de emprego", disse o vídeo, que mostra um Xi animado saltando sobre plataformas flutuantes, como em um videogame antigo. Ele começou sua carreira em um "cargo de nível básico" antes de assumir o controle de um condado, depois de uma cidade, depois de uma série de províncias litorâneas. Essa é a verdadeira meritocracia, o vídeo parecia gritar, "um dos segredos do milagre chinês".

Mas analistas dizem que alguns dos êxitos de Xi decorrem de sua propalada linhagem. Xi é um "príncipe" da elite do Partido Comunista, nascido em 15 de junho de 1953, filho de um importante guerrilheiro durante a famosa Longa Marcha para a Frente do partido. Seu pai, Xi Zhongxun, foi ungido vice-primeiro-ministro em 1959, garantindo para a família uma casa em Zhongnanhai, um complexo da liderança central em Pequim. Mas Xi Zhongxun caiu em desgraça perante Mao Tsetung em 1962, e alguns anos depois sua família foi destinada a trabalhos manuais na aldeia de Liangjiahe, uma espécie de favela no norte da província de Shaanxi.

Xi passou vários anos em Liangjiahe sob as mesmas condições que seus vizinhos – vivia em uma casa-caverna, subsistia com pirão de arroz, carregava baldes de água de um poço próximo. "Não havia nada atraente nele", disse um amigo da juventude de Xi ao LA Times. "Parecia que ele sempre teve o sentido de que tinha uma missão."

Mais tarde Xi conseguiu um lugar na prestigiosa Universidade Tsinghua em Pequim, entrou para o Partido Comunista em janeiro de 1974 e nas décadas seguintes passou por vários cargos em períodos de dois ou três anos. Começou sua carreira como assessor do poderoso líder militar Geng Biao, ex-subordinado a seu pai – "um cargo que aprofundou seu afeição pelos militares", relatou a agência oficial de notícias Xinhua. Mais tarde, ligou-se a agricultores como secretário do partido em Hebei, uma província plana e empoeirada que cerca Pequim.

Em 1985, foi transferido para Fujian, onde galgou as fileiras por mais de uma década até se tornar seu governador. Então veio uma transferência para a província de Zhejiang, uma meca para industriais e empresários; em 2007, recebeu as rédeas em Xangai depois de um escândalo de corrupção. Em um ano foi promovido ao órgão mais elevado de tomada de decisões, o comitê do Birô Político.

O pai de Xi foi conhecido pela moderação e a franqueza. Em 1978, após a morte de Mao, Deng Xiaoping o nomeou governador da província de Guangdong, no sul da China, onde ajudou a implementar a primeira zona econômica especial do país. Xi pai muitas vezes foi contra a ortodoxia do partido: era um firme defensor do ex-secretário do partido Hu Yaobang, um reformista expurgado cuja morte provocou os protestos na praça Tiananmen. Usava um relógio caro que lhe foi dado nos anos 1950 pelo dalai lama, o líder espiritual do Tibete hoje renegado por Pequim.

Xi parece ter herdado o apetite de seu pai por reformas, senão seu liberalismo. Em novembro, líderes graduados se reuniram em Pequim para o terceiro plenário, um conclave que os líderes usaram historicamente para lançar reformas. Os resultados preencheram as expectativas. Segundo um relatório do plenário publicado na mídia estatal, até 2020 a China abandonará sua política de filho único, abolirá o polêmico sistema penal de "reeducação pelo trabalho" e revisará um sistema antiquado de registro de domicílio que nega benefícios sociais a migrantes do campo para as cidades em seus lares adotivos. O governo prometeu dar ao mercado um "papel decisivo" na economia do país, que, espera-se, facilitará para os pobres abrirem caminho para chegar à classe média.

Talvez a campanha mais destacada de Xi tenha sido sua iniciativa pró-frugalidade e anticorrupção, destinada a visar os "tigres" no topo do partido e as "moscas" comuns. Embora a campanha não tenha chegado perto de deter a corrupção na China, apreendeu 11 líderes ministeriais e de nível provincial e mudou o modo de agir das autoridades.

Mas os críticos dizem que Xi usou a campanha para sabotar seus rivais, enquanto sua mensagem de frugalidade simplesmente levou a corrupção para o subterrâneo. Um dos maiores desafios de Xi foi despachar Bo Xilai, um ex-adversário que caiu em desgraça no ano passado, depois de revelações de que sua mulher tinha assassinado um empresário britânico. Em setembro, um tribunal da província de Shandong condenou Bo à prisão perpétua por corrupção e abuso de poder. Críticos dizem que Xi vem reduzindo a base de poder de Bo desde então.

Segundo Bo Zhiyue, um especialista em política chinesa na Universidade Nacional de Singapura, Xi é adepto de "usar muitos chapéus"; enquanto ele tem um dom para a retórica maoísta, sua predileção por combinar forte controle político com economia liberal o torna mais parecido com Deng Xiaoping. "Os líderes políticos chineses geralmente nos dão muitas surpresas", disse ele. "Ainda estou tentando compreender quem realmente é Xi Jinping."

O ARQUIVO XI

Nascido Xi Jinping em 15 de junho de 1953, filho do herói revolucionário Xi Zhongxun, que foi vice-primeiro-ministro de 1959 a 1962. Primeiro casamento com Ke Lingling, filha de um ex-embaixador na Grã-Bretanha. Casado desde 1987 com a popular cantora chinesa Peng Liyuan. Uma filha, Xi Mingze, estudou em Harvard.

Melhor momento. Neste outono, Xi efetivamente despachou seu adversário Bo Xilai com consequências mínimas, permitindo que ele consolidasse o poder político e implementasse reformas.

Pior momento. Depois da morte do pai de Xi, este caiu em desgraça com Mao Tsetung, a família foi destinada a trabalhos manuais no interior pobre do país.

Ele diz. "A felicidade não cai do céu e os sonhos não se realizam sozinhos. Devemos ressaltar a ideia de que o trabalho duro é a mais honrosa e bela virtude."

Eles dizem. "Seu projeto político é construir um governo altamente eficiente e limpo. Mas a questão é se esse objetivo pode se realizar sem democracia, regime constitucional, diversos partidos ou liberdade de imprensa." Gao Yu, escritor.

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