Você está aqui: Página Inicial / Internacional / O povo palestino está cético em relação à paz, diz embaixador

Internacional

Entrevista

O povo palestino está cético em relação à paz, diz embaixador

por Marsílea Gombata publicado 12/12/2013 13h47, última modificação 12/12/2013 14h15
Segundo Ibrahim Al-Zeben, Israel não tem dados sinais positivos de que busca o fim do conflito com os palestinos. Por Marsílea Gombata
Saulo Tomé/UnB Agência
Ibrahim al-Zeben

Ibrahim al-Zeben lamenta o que chama de ausência de "sinais positivos" por parte de Israel

De Brasília

Apesar de o governo palestino ter se comprometido e apostado na atual tentativa de processo de paz levada adiante pelo secretário americano de Estado, John Kerry, o povo palestino está cético em relação a uma solução para o impasse no Oriente Médio. “Israel não tem dado nenhum sinal positivo”, afirmou Ibrahim Al-Zeben, embaixador da Autoridade Nacional Palestina (ANP) no Brasil, ao revelar sua posição enquanto cidadão palestino. “Faz 20 anos que tentamos negociar, então tenho toda razão e direito de sentir essa desconfiança. Vejo diariamente a ação deles nos checkpoints, como estão asfixiando aspectos da nossa vida, na cultura, na economia, na indústria, no campo.”

No Brasil há cinco anos e meio, Zeben explica em entrevista a CartaCapital durante o Fórum Mundial de Direitos Humanos, em Brasília, como uma força de paz internacional em regiões estratégicas ajudaria tanto israelenses quanto palestinos – e como o Brasil pode ajudar no processo para trazer a paz de volta à região.

Além disso, reitera a soberania palestina em relação à inclusão ou não do Hamas nas negociações de paz assim como em um futuro governo. “A decisão sobre se o Hamas faz ou não parte das negociações é nossa. E vai mais depender do Hamas, se vai ou não aceitar as regras do jogo”, diz sobre a intenção de se realizar eleições para a escolha de um novo presidente e um novo Parlamento. “Quem vai decidir isso somos nós, e não o Ocidente ou os EUA.”

Confira os principais trechos da entrevista:

CartaCapital: O secretário americano de Estado, John Kerry, está tentando viabilizar um novo acordo de paz na região. O fato de ele focar em segurança (um dos aspectos que costumam emperrar o acordo) seria uma inovação de Kerry?

Ibrahim Al-Zeben: Não temos muitos detalhes sobre o acordo por decisão acordada entre as três partes, de não dar informações concretas à imprensa e ao público. Os sinais que estamos recebendo são positivos e de esforço extraordinário por parte dos EUA e de Kerry. No entanto, não vemos isso do lado israelense, que está cada vez mais apertado, com o direito internacional cada vez mais claro e favorável à posição internacional de dois Estados para dois povos. Israel, este ‘menino mimado’, está fora da lei pelo fato de insistir em incrementar a colonização e ocupação de Jerusalém. Quem está no poder, isto é Benjamin Netanyahu e Avigdor Lieberman [o chanceler israelense], simplesmente não querem cumprir com o direito internacional e estabelecer acordos de paz com os palestinos. Teremos de aguardar os próximos dois ou três meses que faltam para o prazo de nove meses dado por Kerry em julho expirar.

CC: Um dos pontos é garantir a segurança de Israel – fala-se inclusive de tropas no Vale do Jordão antes de continuar a negociação. O senhor acredita que esse seja um caminho viável para se chegar a um acordo?

IAZ: Território ocupado é território ocupado, e tem de ser desocupado. Mas precisa ser desocupado em um, três meses. O que estão falando de 15 anos não existe. Uma retirada gradual tem de ser feita, mas é inadmissível falar em 15 anos de presença militar. Acreditamos que se há boa vontade política podemos aceitar tropas de paz internacionais, obviamente comandadas por uma força de paz que possa cuidar das necessidades de ambas as partes como as Nações Unidas. Entendo que deve haver um processo para restaurar a confiança, pois somos inimigos. Mas estamos sendo privados dos nossos direitos há 65 anos. E existe desconfiança porque Israel sempre foge dos compromissos. Por isso, acredito que uma força internacional de paz é uma garantia tanto para Israel quanto para nós. Poderemos concordar, então, com escolhas que zelem pelo interesse na paz e pelo fim da agonia a ameaçar o mundo inteiro.

CC: Os palestinos parecem descontentes publicamente com o processo de paz, mas o que se passa nos bastidores?

IAZ: À parte da posição oficial, eu, como o povo, estou muito desconfiado porque Israel simplesmente não tem dado nenhum sinal positivo. Faz 20 anos que tentamos negociar, portanto tenho toda razão e direito de sentir essa desconfiança e ceticismo. Vejo diariamente a ação deles nos checkpoints. Estão asfixiando aspectos da nossa vida, na cultura, na economia, na indústria, no campo etc. Agora, como governo estamos honrando nossos compromissos. Decidimos negociar e dar esses nove meses de prazo para alcançar o acordo de paz. Esperamos alcançar nos próximos meses o marco de um acordo que ponha fim à ocupação e estipule o primeiro passo para a criação de um Estado palestino dentro do território.

CC: O que poderia deter Israel diante das denúncias de violações de direitos humanos por parte do Estado israelense contra o povo palestino? Israel deve ser criminalizado por sua postura em relação aos palestinos?

IAZ: Acredito que em tempo de paz, inclusive se alcançamos isso, todos os autores de crimes contra a humanidade, sejam palestinos ou israelenses, não podem estar soltos. O tempo não deve limpar as mãos ensanguentadas dos assassinos que mataram ou incentivaram os assassinatos. Para maior tranquilidade da humanidade, devem estar no lugar que lhes corresponde: atrás das grades. E para isso existem tribunais internacionais, sistemas que temos de proteger. Os criminosos soltos comprometem vidas humanas, a paz regional e a mundial. E não é estou a fazer uma ameaça. É apenas um desejo de colocar as coisas em seu lugar para proteger as futuras gerações.

CC: Em que medida o acordo alcançado com o Irã sobre seu programa nuclear, recentemente, pode prejudicar o processo de paz em curso?

IAZ: Acho que é um acordo positivo. Interfere, sim, mas não vejo porque intervir negativamente. É algo positivo pelo fato de fazer a negociação ganharem terreno. A mensagem que chegamos com esse conflito Irã-EUA é a seguinte: é possível chegar a um acordo através de negociações.

CC: O Hamas não é reconhecido como um movimento para negociar com o Ocidente. Como, então, sair do embate de um governo eleito não ser reconhecido pela comunidade internacional para negociar?

IAZ - A decisão sobre se o Hamas faz ou não parte das negociações é nossa, soberana. E vai mais depender do Hamas, se vai ou não aceitar as regras do jogo. A regra do jogo estabelece que temos de organizar eleições para eleger um novo governo, um presidente, um novo Parlamento, para assim entrarmos no jogo político. E quem vai decidir isso somos nós, e não o Ocidente ou os EUA. O Hamas é parte do povo palestino, mas não pode impor sua agenda a nós. Quem decide é o povo palestino. E o que pode solucionar esse impasse são eleições.

CC: O fato de Israel ter voltado a permitir a entrada de materiais de construção em Gaza é visto como uma vontade extra de negociar com os palestinos?

IAZ: Trata-se de uma obrigação. Fazia mais de cinco anos que Gaza precisa ser reconstruída. Estamos em pleno inverno, e é um absurdo todo esse desrespeito. Não é possível continuar castigando 1,5 milhão de habitantes. É um crime contra os direitos humanos, um castigo coletivo.

CC: O que a comunidade internacional pode fazer, na prática, para contribuir com um processo de paz efetivo e ajudar os palestinos? Como o Brasil, por exemplo, pode ajudar?

IAZ: O Brasil vem ajudando, apoiando, incentivando ambas as partes para negociar. Pode seguir fazendo isso, como poderia participar no futuro com suas tropas para a força de paz ou mesmo com suas megaempresas para ajudar na construção da infraestrutura. O Brasil tem uma presença bem-vinda no terreno palestino.

registrado em: ,