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O Oriente antecipou a ciência ocidental?

por Paulo Yokota — publicado 11/08/2014 09h48
Casos como o de Abu Rayhan al-Biruni, que antecipou conhecimentos atribuídos a Copérnico em cinco séculos, indicam que pensadores importantes podem ter sido esquecidos
D-Stanley / Flickr
Estátua de Abu Rayhan al-Biruni

Estátua de Abu Rayhan al-Biruni no parque Laleh, em Teerã, no Irã

Os estudos recentes divulgados pelas revistas científicas de alto prestígio, como a Science, mostram a extensão de algumas lacunas históricas existentes na cultura Ocidental, pelo desconhecimento das contribuições de outras regiões, como fica explicito no artigo elaborado por Richard Stone publicado em junho último. Uma ponta deste tipo de iceberg começa a ser vista, quando S. Frederick Starr, presidente da Central Asia-Caucasus Institute da Johns Hopkins School of Advanced International Studies de Washington, nos Estados Unidos, apresentou recentemente informações de alta relevância na conferência sobre o período medieval da Ásia Central. Nomes pouco conhecidos fora dos círculos restritos, como Abu Rayhan al-Biruni do atual Uzbequistão, mostram que mentes privilegiadas teriam contribuído para o Renascimento Oriental, que se observou a partir de 800 até 1.500 depois de Cristo, muito antes da Renascença na Europa. Como as antecipações dos conhecimentos atribuídos a Copérnico cinco séculos depois, pelo qual a Terra orbita em torno do Sol, ou intuindo a noção até da existência das Américas com base na lógica, mesmo que al-Biruni nunca tenha navegado por oceanos.

É compreensível que o Ocidente pouco conhecesse do que ocorreu na Ásia Central desde a Antiguidade, pois ficou inibido pela pretensão que tendia a desconsiderar outras culturas como a muçulmana ou as asiáticas. A Rota da Seda que ligou Xian, a antiga capital da China aos árabes, chegando até Istambul na atual Turquia, passando pela Ásia Central, permitiu florescer importantes grupos de fecundos pensadores ao longo desta rota, ao unir a Ásia à Europa. Muitos antigos povos em todo o mundo, entre eles asiáticos, se interessavam pela astronomia, o que permitiu avanços nos conhecimentos como da matemática, com a acumulação de dados e uso de uma lógica sofisticada e rigorosa.

Há que se lamentar sempre as destruições das bibliotecas como de Alexandria no Egito e Constantinopla na capital do Império Otomano cujos acervos deveriam conter conhecimentos importantes para a humanidade, acumulados ao longo da história, por povos de tradições diferentes dos ocidentais.

Joseph Needham, da Universidade de Cambridge, certamente foi o pioneiro a interessar-se pelo precioso cabedal de conhecimentos que foram reunidos ao longo da Rota da Seda, cujos documentos são mantidos na instituição que ele organizou na Inglaterra. O seu foco de atenção estava centrado nas contribuições chinesas em matéria de conhecimentos e avanços tecnológicos ao longo da história, quando existem muitos outros.

Como sempre, há estudiosos que são céticos sobre as contribuições medievais para as descobertas acadêmicas consideradas modernas. Outros concordam, no entanto, que havia mentes brilhantes que chegaram aos princípios da álgebra e trigonometria, a invenção do algoritmo e do astrolábio, e até dos fundamentos da medicina moderna, e entre eles al-Biruni era certamente um destaque.

S. Frederick Starr, um arqueólogo pela prática, pois efetuou dezenas de viagens à Ásia Central, está na vanguarda de um movimento acadêmico para documentar o Renascimento Oriental e os fatores que estimulavam os que participaram dele. Situados na encruzilhada das culturas vibrantes da China, Índia, Oriente Médio e Europa, por serem de tradição comercial sabiam calcular de forma surpreendente desde a tenra idade.

Al-Biruni era versado não só em ciências exatas e antropologia, como na farmacologia e filosofia. Embora somente 31 dos seus textos tenham sobrevivido ao tempo, seria o autor de nada menos de 150. Nascido em 973 DC no atual Uzbequistão, usou o sol do meio dia para calcular a latitude de sua terra natal quando tinha somente 16 anos. Adulto, viajou muito e desenvolveu uma técnica para medir a circunferência da Terra, usando um astrolábio, trigonometria esférica e a lei dos senos. Seu cálculo difere somente em meros 16,8 quilômetros dos atuais, utilizando-se meios mais sofisticados. Ele introduziu o conceito de gravidade específica e aplicou em dezenas de minerais e metais, fazendo medições precisas com três casas decimais, o que os europeus só obtiveram no século XVIII.

Ele se preocupou com a determinação meticulosa das coordenadas para definir a direção de Meca de todos os lugares para os quais viajou, visando as orações islâmicas, notadamente na Eurásia. Depois de marcar o conhecido num globo, descobriu que três quintos da superfície da Terra não tinham sido explorados. Ele concluiu que uma ou mais massas de terra deveriam estar entre a Europa e a Ásia, não havendo nada para impedir a existência de terras habitadas, suspeitando do que seriam as futuras Américas, assunto que desperta muitas disputas.