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Tom Standage

O ocaso da imprensa

por Gianni Carta publicado 08/11/2011 13h39, última modificação 08/11/2011 13h39
O editor digital da The Economist vaticina o fim das publicações vendidas por assinatura ou em bancas
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O editor digital da The Economist vaticina o fim das publicações vendidas por assinatura ou em bancas. Foto: Olga Vlahou

Tom Standage, editor digital da The Economist, acredita que publicações compradas em bancas vão desaparecer. “Mas ainda vai levar muito tempo, e sobreviverão publicações como revistas de arquitetura”, diz no bar do Hotel Unique, em São Paulo. Standage foi um dos palestrantes da conferência Brazil in 2022: Ordem e Progresso, realizada pela revista britânica na capital paulista nos dias 3 e 4 de novembro. Com tiragem de 1,5 milhão e 70 correspondentes, a revista britânica, com a qual CartaCapital tem um acordo editorial, é a publicação global por excelência. Entre os palestrantes, vários nativos de calibre questionável, Standage era a exceção como se verá abaixo.

 

CartaCapital: De acordo com pesquisa realizada nos EUA pelo Pew Research Center em 2010, 46% dos norte-americanos buscam notícias na internet. Cerca de 40% das pessoas ainda compram jornais. Por que os jornais americanos são os que mais sofrem?

Tom Standage: Porque são os que mais dependem de anúncios. Em 2008, quando estavam no pico, recebiam 87% da sua receita de anúncios e 13%, de sua tiragem. Isso significa que eram os mais vulneráveis do mundo a qualquer contratempo econômico.

 

CC: Cerca de 80% das pessoas nos EUA preferem fontes tradicionais online, como os websites do New York Times e da CNN. Marcas ainda são importantes?

TS: Sim, mas as marcas dos veículos de comunicação têm de ser fortes. No mundo- da internet há muito barulho. Há internautas dispostos a peneirar sites, blogues etc., para escolher suas fontes. Contudo, marcas também levam as pessoas àquilo que elas enxergam como fontes seguras. Por exemplo, a Economist sempre considerou que seu trabalho é examinar os acontecimentos e filtrá-los para os leitores. Oferecemos, via revista impressa e online, e de maneira de fácil consumo, aquilo que você deveria estar refletindo. Para muitos, somos a fonte principal.

 

CC: Mas, nessa cacofonia, vocês são uma voz liberal, no sentido econômico, e há muitas outras vozes. A Economist não poderia se perder na blogosfera?

TS: Claro, nem todos os leitores da Economist concordam com nossas posições. Mas você não precisa concordar. O importante é que sejamos transparentes. Temos de ser consistentes com nossas ideias nos textos da revista e do website. Sejam os leitores contrários ou favoráveis às nossas posições, somos formadores de opinião. Essa é a nossa proposta. Outro dia, alguém de uma ONG nos disse que a nossa cobertura da África é muito boa.

 

CC: É mais importante oferecer conteúdo ou estar ciente dos gostos da audiência?

TS: Se você produz um conteúdo interessante, as pessoas, claro, compram a revista ou voltam para o site. Mas você precisa das duas coisas. É preciso otimizar o motor de pesquisa para que os internautas tenham fácil acesso aos seus artigos. E você estará perdido se não usar a mídia social com habilidade.

 

CC: Prefere usar Twitter ou Facebook para promover a Economist?

TS: Os dois. Um colega de Oxford disse bem: “O Facebook é onde está a audiência, mas o Twitter é onde está a notícia”. O Facebook é para todos. Minha mãe está no Facebook, mas nunca usará o Twitter. É muito complicado. Mas adoro o Twitter, porque sou um viciado em notícias.

 

CC: Falamos sobre a migração dos norte-americanos da mídia impressa para sites de informações. Não abordamos, contudo, os motivos, nos EUA, que levaram tanta gente a abandonar jornais. E em certos países emergentes isso ainda não aconteceu.

TS: De forma geral, a notícia virou uma commodity, um produto básico, oferecido em bloco e de graça. Nos EUA, jornais regionais tinham um monopólio sobre agências de notícias. E assim reproduziam notícias da Reuters e da Associated Press para seus leitores. Com a chegada da internet, as pessoas perderam o interesse nos periódicos regionais. Passaram a ler as notícias do dia a dia na internet. Por que, decidiram, deixar de ler o New York Times online? Isso não era possível uns 15 anos atrás. Esse fenômeno é negativo e ao mesmo tempo positivo. Alguns jornais regionais faziam um bom trabalho de apuração que ia além das informações das agências de notícias. Por outro lado, outros, como já disse, publicavam somente as notícias das agências. Nesse último caso, tenho de ser honesto: não foi terrível o naufrágio desses jornais. Da mesma forma, os anunciantes, antes a anunciar em jornais e rádios, descobriram a internet como alternativa.

 

CC: Acha que nos países emergentes haverá essa migração de leitores e anunciantes para sites?

TS: Enquanto as tiragens de periódicos decrescem em países europeus e nos EUA, jornais em mercados como os da Índia e China continuam a ter tiragens elevadas, devido a uma série de motivos. Crescimento econômico, número crescente de pessoas alfabetizadas – e poucas pessoas com acesso à banda larga. O Brasil é um caso interessante, porque está exatamente no meio dessas duas categorias, ou seja, entre os países desenvolvidos e os emergentes. Na última década, houve um acréscimo na tiragem de diários e revistas no Brasil, mas, entre 2008 e 2009, essa ascensão chegou a um patamar elevado e começou a decrescer. Ao mesmo tempo, aqui há um razoável acesso à banda larga, algo como 23%. É difícil avaliar se esse quadro reflete uma economia que já não cresce como antes ou se a banda larga no Brasil deixou os jornais para trás. Poderia ser uma mescla das duas coisas.

 

CC: Para diários como o The Guardian, o investimento online é uma questão de vida ou morte. O diário tem uma tiragem de menos de 300 mil exemplares, mas seu site é acessado por mais de 30 milhões de pessoas ao mês. Como pode o Guardian monetizar seus leitores online?    

TS: Não existe um modelo, mas vários. E lembre-se que o Guardian é subsidiado por publicações lucrativas do mesmo grupo. Mesmo assim, esse diário é um caso interessante porque oferece todo seu conteúdo gratuitamente. O fato de ele ser publicado em inglês é atraente para uma audiência global. Isso não poderia acontecer, por exemplo, com um diário alemão. Acredito que o Guardian poderia pôr um fim na sua versão impressa. Nesse caso, teria de triplicar sua receita no exterior para a versão online. Ao mesmo tempo, eles terão de fazer cortes. Por exemplo, o Guardian tem 800 correspondentes. Dentro de cinco a dez anos, esse número deveria ser reduzido pela metade. Mas se existe uma publicação online que poderá viver de anúncios é o Guardian.

 

CC: Há esperança para o diário de papel?

TS: Creio que ele vai morrer, mas vai levar muito mais tempo do que pensamos. Muita gente ainda quer ler revistas e jornais que assinam ou compram nas bancas. E há nichos. Revistas de arquitetura, por exemplo, que custam 20 dólares a edição, são mais interessantes de manusear do que vê-las na tela de um computador. Além disso, você pode colocá-las na mesa de uma sala. São objetos de arte.

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