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Gaza: o mundo quebrou suas promessas

por Chris Gunness — publicado 05/03/2015 04h06
Seis meses após doadores internacionais prometerem bilhões depois da última guerra, o dinheiro não se materializou, vidas permanecem destruídas e o sofrimento continua.
Belal Hasna
Gaza

Jibril (na foto) perdeu dois dos três netos para a hipotermia durante uma tempestade no mês passado. A família vive agora em um pequeno abrigo de madeira coberto com uma lona de plástico em Beit Hanoun, um cobertor serve como porta

A pequena Salma morreu de hipotermia com apenas 40 dias de idade. Seu corpo foi encharcado pela água da chuva gelada. O bebê foi congelado, “como um sorvete”. Gaza foi atingida pela forte tempestade Huda em janeiro e Salma foi sua mais jovem vítima.

Eu encontro a mãe de Salma, Mirvat, e 14 membros de família no mesmo lugar, na verdade no mesmo quarto, onde Salma dormia durante sua última noite em casa. Toda a família ainda vive em Beit Hanoun, no norte de Gaza, em um pequeno abrigo de madeira de três cômodos, coberto com um plástico. Ao vê-lo da estrada penso que poderia ser um abrigo para animais. A porta é um cobertor que bate com o vento cortante. Está chovendo. A água invade o local. Mirvat puxa o tapete encharcado que serve como piso e remove a areia molhada que se acumula. A memória da Salma, que morreu no dia 9 de janeiro, ainda é uma ferida aberta.

"Na noite em que ela morreu a tempestade era forte. Ficamos todos encharcados, mas alguns de nós conseguiram dormir. A chuva encharcou os cobertores de Salma. Encontrei ela tremendo. Seu corpo minúsculo estava congelado, como um sorvete. Nós a levamos para o hospital, mas o médico disse que era tarde demais. Salma estava morta. Minha linda menina pesava 3,1 kg ao nascer. Ela era saudável e estaria viva hoje se não tivéssemos sido forçados a deixar nossa casa em meio aos bombardeios durante a guerra e obrigados a viver em condições desumanas."

Durante o conflito em Gaza no verão passado, Mirvat, o marido e os quatro filhos moravam em um complexo de cinco prédios com outros 40 membros da família, a apenas um quilômetro da barreira entre Gaza e Israel. Seu sogro, Jibril, sabia que a vida na linha de frente do conflito era insustentável.

"Havia um cheiro de morte no ar. As crianças estavam traumatizadas e não conseguiam dormir. Depois de uma semana de conflito fugimos aterrorizados, enquanto as bombas caíam ao nosso redor. Fomos para a casa do meu irmão, mas lá era muito perigoso, então buscamos refúgio em um hospital. Uma hora depois de nossa chegada o hospital foi atingido. Corremos para buscar abrigo em uma escola da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina, a UNRWA. Havia milhares de nós vivendo em uma escola construída para mil alunos. Então, depois da guerra nos mudamos para cá", disse Jibril.

A tragédia que atingiu a família não se limita à morte de Salma. Sua irmã Maes, de três anos, está hospitalizada com graves problemas respiratórios devido à exposição ao frio. "Tenho medo que Maes morra, como Salma", diz Mirvat.

Do lado de fora, encontro a cunhada de Mirvat, Nisreen, que tem 28 anos. Seu filho morreu com apenas 50 dias de idade na escola da UNRWA onde a família buscou refúgio. "A morte de Moemen foi inesperada. Não havia nada que alguém pudesse fazer para salvá-lo. Eu senti que ele estava com frio. Arrumei seu cobertor e o coloquei para dormir. Ele estava dormindo no meu colo. Quando eu acordei às quatro da manhã, ele estava azul. Moemen estava morto. Esperei cinco anos por um menino e agora ele se foi."

Jibril é um avô extraordinário, mesmo para os padrões de Gaza. Duas das quatro crianças mortas por hipotermia em Gaza nas últimas semanas eram seus netos. Ele diz que a guerra roubou o seu passado e seu futuro. "Minha casa está em ruínas, destruída. Eu trabalhei duro por mais de 40 anos como agricultor, sempre cuidei da minha família. Em questão de horas perdemos tudo. Eu tinha um pedaço de terra onde plantamos limoeiros há 17 anos, os tanques demoliram tudo”.

Jibril é um pequeno empresário reduzido à miséria. "Meu filho tem um burro e ganha de cinco a 10 shekels por dia [5 a 10 reais] transportando pedras para ajudar a todos nós. Vivemos principalmente da hubeyza [um tipo de grama consumido como espinafre] que podemos encontrar nas ruas."

Quem podemos culpar pela morte prematura de seus netos? "A comunidade internacional é responsável pela morte dessas crianças", diz ele. "Eles prometeram bilhões. Mas onde está o dinheiro? Precisamos de uma casa, não de promessas. A UNRWA não tem mais dinheiro. O que eles podem fazer sem o apoio financeiro? "

Jibril está certo. A UNRWA, Agência para a qual eu trabalho, foi obrigada a suspender, há apenas três semanas, o que para esta família poderia ter sido um programa salva-vidas. Após a conferência do Cairo, realizada em outubro passado, onde os doadores prometeram 5,4 bilhões de dólares para reconstruir Gaza, criamos um projeto de 720 milhões de dólares. Com as promessas generosas feitas no Cairo estávamos certos de que os fundos chegariam. Foi o que pensamos. Este dinheiro seria utilizado como subsídio de renda para as pessoas cujas casas se tornaram inabitáveis. Com essa ajuda, as pessoas poderiam reparar e reconstruir suas casas. Mas os bilhões prometidos nunca se materializaram e o programa foi deixado com um déficit de quase 600 milhões de dólares.

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O tio de Salma prepara a sopa de grama que é servida na maioria das refeições da família

Um dia após o anúncio da suspensão da ajuda econômica a raiva era palpável. Em Gaza, o Gabinete do Coordenador Especial das Nações Unidas para o processo de paz no Oriente Médio foi atacado. A ameaça de violência permanece. É possível senti-la no ar, como no verão passado.

As necessidades são imensas e o sentimento de desespero é palpável e profundo. Estima-se que cerca de 100.000 residências foram danificadas ou completamente destruídas, afetando a centenas de milhares de pessoas. Muitos dos que ainda possuem casas habitáveis ​​sofrem com a falta de água e energia elétrica.

A reconstrução de Gaza é apenas uma parte da história. Se Salma e Moemen tivessem sobrevivido, que futuro teriam? A próxima geração de Gaza está traumatizada, chocada, brutalizada. As áreas de lazer onde brincam estão infestadas com cerca de 8.000 explosivos não detonados.

A ONU estima que cerca de 540 crianças foram mortas no conflito, muitas em suas próprias casas. A UNRWA não conseguiu  oferecer um refúgio seguro. Nossas escolas foram atingidas diretamente em sete ocasiões. As crianças morreram nas salas de aulas e nos pátios sob a bandeira azul da ONU. Praticamente todas as crianças de Gaza tiveram um membro da família ou um amigo, mortos, mutilados ou feridos durante o conflito, muitas vezes diante de seus olhos. Mil das 3.000 crianças feridas durante o conflito correm o risco de apresentarem alguma deficiência física durante suas vidas. Se Salma e Moemen tivessem atingido a idade adulta, eles entrariam em um mercado de trabalho com uma taxa de desemprego que atingiu 47% no terceiro trimestre do ano passado, um nível sem precedentes. Apagões duram em média 18 horas por dia. Cerca de 90% de toda a água de Gaza não é potável.

Gaza não é um desastre natural. É o resultado de decisões políticas deliberadas, feitas pelo homem. É chegada a hora de fazer escolhas diferentes. Qual é o sentido de reconstruir um lugar ao mesmo tempo em que se condena o seu povo à indignidade da dependência de ajuda?

A situação oscila à beira de outra grande crise, com implicações preocupantes para palestinos e israelenses. O financiamento para as operações humanitárias é urgentemente necessário, mas essa ajuda apenas mitigará os piores impactos da crise.

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O barraco em Beit Hanoun, onde Salma viveu com 14 pessoas de sua família

As pessoas de Gaza precisam de mudanças urgentes: eles precisam que todas as partes envolvidas no conflito respeitem as obrigações determinadas pelo direito internacional; a interrupção, por parte de Israel, de todos os obstáculos para garantia dos direitos humanos; e o cancelamento imediato do bloqueio, que permitirá as importações e exportações, um passo essencial para a recuperação econômica.

É preciso cessar os disparos de foguetes desde Gaza. Há uma necessidade urgente de uma união palestina, para que o governo palestino de consenso nacional possa assumir as suas funções de governança e segurança em Gaza. O Quarteto do Oriente Médio deve exercer pressões políticas eficazes, pois o momento para simples ação humanitária já foi, há muito tempo, ultrapassado.

Faço um apelo para que os doadores transformem as promessas feitas durante a Conferência do Cairo em doações reais e à comunidade internacional para promover e exigir o cumprimento do direito internacional. Mais importante ainda, as partes em conflito têm a obrigação de proteger a população civil. Os culpados de violações devem ser responsabilizados e levados à justiça.

Outra grande crise pode ser evitada. Se mobilizarmos os recursos políticos, financeiros e morais para sair deste impasse, podemos dar um à futuro Gaza. É tarde demais para Salma e Moemen, mas não para a próxima geração, não para as outras 950.000 crianças que que eles deixaram para trás.

*Chris Gunness construiu uma carreira de 23 anos na BBC. Foi produtor, correspondente e âncora. Em 2006, ele deixou a BBC para assumir um cargo no escritório político da ONU em Jerusalém e desde 2007 é o porta-voz da UNRWA

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