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O manipulador das crises africanas

por Envolverde — publicado 01/02/2011 17h09, última modificação 01/02/2011 17h09
A França mantém significativos laços econômicos e estreitos vínculos políticos e militares com a Costa do Marfim, Níger e Tunísia, atualmente envoltos em crises institucionais. Da Envolverde/IPS

Por Julio Godoy, da IPS

Paris, França, 31/1/2011 – A França mantém significativos laços econômicos e estreitos vínculos políticos e militares com a Costa do Marfim, Níger e Tunísia, atualmente envoltos em crises institucionais e crescentes protestos populares contra as elites nacionais acusadas de abusos e corrupção. Cerca de 1.250 empresas francesas constituem o motor da economia da Tunísia, onde uma mobilização social provocou este mês a queda e posterior fuga do presidente Zine El Abidine Ben Ali, que liderava o regime desde 1987.

As empresas cobrem praticamente todos os setores, do têxtil e vestuário, passando por microeletrônica, automóveis e aeronáutica, até o de serviços. O investimento francês nesse país atingiu US$ 191 bilhões em 2009, o que converteu a França no principal sócio econômico da região do Magreb. Muitas dessas companhias têm estreitos vínculos com a família Ben Ali. Por exemplo, 49% da operadora de telecomunicações Orange Tunisie pertencem ao outrora monopólio francês France Telecom. Os outros 51% são da Investec, a companhia de investimento do genro de Ben Ali, Marwan Mabrouk, acusado de corrupção.

A participação econômica e a conivência de empresas francesas com o regime da Tunísia podem explicar porque Paris, desde François Mitterrand (1981-1995) até Nicolas Sarkozy adotava uma conduta complacente com Ben Ali, apesar das acusações fundadas da corrupção generalizada e de graves violações de direitos humanos. A complacência francesa alcançou seu ponto máximo no dia 14, véspera da fuga de Ben Ali do país.

Dois dias antes, em meio à sangrenta repressão à mobilização popular contra o regime que deixou mais de cem mortos, a ministra francesa das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, ofereceu ajuda policial e militar ao governo da Tunísia para pacificar o país. Também destacou que o direito de manifestação deve ser respeitado tanto quanto o de segurança. Várias fontes disseram que, com apoio expresso do presidente Sarkozy, ofereceu ajuda. “Dizer que na Tunísia há uma ditadura é um exagero”, disse o ministro francês da Cultura, Frédéric Mitterrand.

Essa e outras declarações envergonharam a diplomacia francesa quando Ben Ali teve que abandonar o país. Um grupo de intelectuais franceses encabeçados por Etienne Balibar, professor emérito de filosofia política da Universidade de Nanterre, noroeste de Paris, recordou que a política externa da França “se caracterizou pela desonrosa tradição de complacência com a ditadura tunisiana”.

Após a fuga de Ben Ali, a França deveria apoiar as reclamações legítimas do povo tunisiano, disse Etienne, acrescentando que os argumentos utilizados por Paris para apoiar a ditadura na Tunísia na chamada guerra contra o terrorismo foram errôneos. Quando Sarkozy visitou a Tunísia, em abril de 2008, elogiou a repressão do governo à oposição islâmica. Ben Ali sufocou os muçulmanos e a oposição em geral, mas, na verdade, o Islã radical nunca foi uma ameaça nesse país.

Informes dos serviços secretos franceses, divulgados pelo jornal Le Monde, confirmaram essa situação. Também mostraram um “otimismo prudente” a respeito do Islã radical na Tunísia. A França também mantém importantes vínculos econômicos em Níger, onde uma junta militar expulsou em fevereiro de 2010 o presidente Mamadou Tandja, alegando que pretendia violar a Constituição e que seu governo se corrompera com as divisas recebidas pela concessão de minas de urânio à companhia estatal francesa Areva.

No final de 2009, Tandja convocou um referendo para poder apresentar-se para um terceiro mandato presidencial. O urânio representa 70% das exportações do país. A Areva é a principal companhia investidora em Níger. Além disso, a presença militar e econômica da França na Costa do Marfim podem ter influenciado o comportamento de Paris em relação ao presidente Laurent Gbagbo, que, segundo observadores internacionais, perdeu as eleições de 2010.

Cerca de 700 companhias francesas controlam a economia marfinense, desde a lucrativa exploração dos campos de cacau e as exportações, até a infraestrutura e as telecomunicações. Essas empresas pagam cerca de 50% do total de impostos do país, segundo dados oficiais. Atribui-se a Gbagbo, que assumiu a presidência no final de 2000 depois de controvertidas eleições, o mal-estar que afeta este país da África ocidental desde então.

A Costa do Marfim, desde 2002, está praticamente dividida em duas. Um grupo armado ocupa o norte do país, enquanto no sudoeste, especialmente a capital, Yamoussoukro, e o centro econômico de Abidjan, estão em mãos de Gbagbo. Uma força de paz da Organização das Nações Unidas, liderada por franceses, garante a divisão do país e protege a área controlada por Gbagbo e a delicada reconciliação entre o governo e os rebeldes.

As eleições previstas para 2005, inicialmente, e depois para 2008, foram adiadas, o que permitiu a Gbagbo continuar controlando o país. Porém, desde a eclosão da guerra civil, as empresas francesas investiram US$ 370 bilhões no país, o que prova que a instabilidade não foi prejudicial para os negócios. Não surpreende que Gbagbo não esteja pronto para aceitar sua derrota eleitoral. A indignação da comunidade internacional pela sua permanência no governo não é tão efetiva quanto o apoio militar da França e de suas companhias.

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