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Oriente Médio

O Estado Islâmico prepara novos massacres

por José Antonio Lima publicado 07/08/2014 14h05, última modificação 08/08/2014 13h53
O grupo extremista que tomou parte da Síria e do Iraque persegue minorias, enquanto o mundo observa, inerte. Por José Antonio Lima
Safin Hamed / AFP
Crianças yazidis iraquianas

Crianças yazidis iraquianas em escola de Dohuk, cidade curda para onde fugiram após a tomada de Sinjar pelo Estado Islâmico

*Após a publicação deste artigo, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, autorizou a realização de ataques pontuais contra o Estado Islâmico.

O grupo ultrarradical que anunciou no fim de junho a fundação de um califado islâmico em partes do território da Síria e do Iraque vem expandindo seus domínios e, no caminho, deixando um rastro de destruição. Desde o fim de semana, o chamado Estado Islâmico tem conseguido vitórias militares diante de tropas curdas que controlam o norte do Iraque e passou a ameaçar ao menos quatro minorias do país. Há relatos de extrema violência e alguns grupos étnico-religiosos podem estar correndo risco de extermínio.

Ao ser fundado, o Estado Islâmico, também conhecido por Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês), ocupava o norte da Síria e porções orientais do Iraque. Agora, o califado busca se expandir. Contido por milícias xiitas que protegem Bagdá, seu principal alvo se tornou o norte iraquiano. A região é controlada pelos curdos, grupo étnico que responde por entre 15% e 20% dos 32 milhões de iraquianos. O chamado Curdistão iraquiano é administrado de forma autônoma e, diante da recente precariedade do governo central do Iraque, passou a garantir a ordem inclusive fora de seus domínios, por meio de tropas armadas conhecidas como Peshmerga. Até a semana passada, acreditava-se que a Peshmerga era capaz de conter o avanço do ISIS. Hoje, a crença se esvaiu.

Nos últimos dias, jihadistas do Estado Islâmico avançaram sobre vilas e cidades antes controladas pelos curdos. No fim de semana, três cidades próximas à fronteira com a Síria foram tomadas – Sinjar, Wana e Zumar. Como de costume, o ISIS determinou às populações locais que se convertessem ao islã sunita, pagassem um imposto “de segurança”, fossem embora ou se preparassem para morrer. Nesta quinta-feira, 7, o ISIS tomou cidades como Qaraqosh, Tal Kayf, Bartella e Karamlesh, entre Mosul, a “capital” do Estado Islâmico, e Erbil, sede do governo do Curdistão.

Os dois avanços ameaçam grupos minoritários iraquianos. O caso mais grave parece ser o dos yazidis, etnicamente próximos aos curdos, que somam cerca de 500 mil pessoas no Iraque. Os yazidis professam uma religião milenar, que mistura traços do islã e do Zoroastrismo, e são chamados, muitas vezes como piada, de “adoradores do demônio” pela população iraquiana. O Estado Islâmico leva essa piada a sério. Desde a tomada de Sinjar, Wana e Zumar, ao menos 200 mil pessoas fugiram dessas cidades, a maioria deles yazidis. Alguns milhares estão nas montanhas próximas a Sinjar, cercados por militantes do Estado Islâmico. Na terça-feira 5, a deputada iraquiana Vian Dakhil, uma yazidi, fez um emocionado discurso no parlamento pedindo ajuda ao governo central. "Os yazidis estão sendo trucidados", afirmou ela. "Por 48 horas, 30 mil famílias estão sitiadas nas montanhas de Sinjar sem água em comida", disse. De acordo com Dakhil, dezenas de idosos e bebês teriam morrido, e mulheres yazidis foram vendidas como escravas.

Também cercados pelo ISIS nas montanhas de Sinjar estão duas outras minorias, os shabaks e os turcomenos. A perseguição a esses grupos pelo ISIS é mais intensa pois ambos são majoritariamente xiitas, versão do islã considerada herética por sunitas ultrarradicais. Os shabaks são uma pequena minoria, de cerca de 50 mil pessoas. Os turcomenos têm uma representação bem maior, cuja estimativa varia muito, de 500 mil pessoas a 3 milhões. Ao jornal Hurriyet, da Turquia, o vice-presidente de um grupo de representação dos turcomenos iraquianos confirmou o perigo das pessoas refugiadas na região montanhosa de Sinjar. "Milhares de pessoas buscaram abrigo nas montanhas. Os turcomenos foram varridos da região", afirmou Kasim Kara. "Não consigo contato com muitas famílias turcomenas, mas com as que consegui disseram não ter recebido água fresca e comida para três dias. As crianças estão morrendo por causa do calor extremo. Todos eles vivem com medo. O ISIS irá matar todos eles se pegá-los", afirmou.

A organização humanitária Human Rights Watch vem registrando uma série de crimes cometidos pelo ISIS desde junho contra essas minorias. Mais de 200 yazidis, shabaks e turcomenos foram sequestrados recentemente e diversos deles apareceram executados dias depois.

Na região de Qaraqosh, a situação também é precária. Ali, o alvo são os cristãos iraquianos, assírios, conhecidos como integrantes da Igreja do Oriente, ou simplesmente caldeus. Em entrevistas à AFP nesta quinta-feira 7, autoridades religiosas cristãs iraquianas afirmaram que a saída das tropas curdas abriu espaço para a chegada do Estado Islâmico. Ao menos 100 mil pessoas deixaram as cidades da região, agora dominadas por homens do ISIS que ocuparam as igrejas, retiraram as cruzes e queimaram manuscritos. Muitos dos caldeus fugiram para Erbil, a capital do Curdistão iraquiano, onde estão abrigadas em igrejas, como a de São José, exibida na imagem abaixo.

Ao longo do tempo, yazidis, shabaks, turcomenos e cristãos foram perseguidos de forma sistemática no Iraque, um país dividido entre os três grupos nacionais mais fortes – xiitas, sunitas e curdos. O surgimento do Estado Islâmico, e sua violência espantosa, agravou a situação de uma forma que, há alguns meses, ninguém poderia imaginar. É irônico, tragicamente irônico, notar que, diante da debilidade do Estado iraquiano, essas minorias só poderiam ser resgatadas por uma ação da comunidade internacional. A mesma comunidade que, desde 2003, vem inviabilizando a existência do Iraque e que, desde 2011, implode a Síria, criando as condições para o surgimento do Estado Islâmico.

Agora, países como Arábia Saudita, Irã e Rússia, em grande parte responsáveis pelo caos no Oriente Médio, seguem em silêncio. Estados Unidos, França e Turquia, igualmente culpados, cogitam ações humanitárias, uma forma de aplacar a ambiguidade moral gerada pela convivência entre seus regimes democráticos e seus interesses geopolíticos. Geralmente, o termo genocídio é carregado de significado político e usado de forma equivocada. Se apenas ações paliativas forem tomadas diante do avanço do ISIS, logo o mundo verá um genocídio de verdade sob seus olhos. Mais uma vez, aliás.