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O drama dos refugiados na ilha grega de Kos

por Deutsche Welle publicado 18/08/2015 10h49
Autoridades não estavam preparadas para lidar com o elevado fluxo de pessoas para a ilha, que tem 30 mil habitantes e recebeu 7 mil refugiados, migrantes ou requerentes de asilo
Louisa Gouliamaki/AFP
Distribuição-de-alimentos

Migrantes aguardam em fila para receber comida distribuída por uma organização local

Na madrugada deste domingo 16, quase mil migrantes se espremiam na entrada do principal porto de Kos, na esperança de embarcar em um navio comercial fretado pelo governo grego para os refugiados que, vindos da Turquia, cruzaram o mar a bordo de botes infláveis.

Alguns esperaram por mais de 20 dias na ilha, dormindo em barracas à beira-mar ou ao ar livre, debaixo das árvores, com pouca água e comida e sem banheiros.

"Estamos trabalhando com as autoridades locais para encontrar um lugar onde seja possível acomodar essas pessoas em barracas, mas, primeiro, temos que convencer o governo a disponibilizar um lugar", disse Roberto Mignone, coordenador de emergência do Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados.

Funcionários da ONU e do governo grego se esforçam para conter o empurra-empurra. No meio da confusão, uma mulher segura um bebê e tenta manter os demais filhos por perto. A tensão aumenta com os desentendimentos sobre quem tem a preferência para embarcar, e as autoridades anunciam que, no momento, apenas os sírios serão permitidos no navio.

Mariah, de 25 anos, conta que chegou do Afeganistão há duas semanas e ainda não conseguiu os documentos que a autorizam a deixar a ilha e continuar a jornada. Ela diz que espera chegar à Alemanha ou à Suécia. "Estou vivendo nas ruas, nos jardins", conta Mariah, que não informa o sobrenome. "À noite, tenho medo. Não sei o que devo fazer, não tenho dinheiro e nenhum lugar para ficar."

Abatida, ela fica parada ao lado do portão, carregando os poucos pertences e acompanhada da filha de 7 anos. Ambas observam os sírios passarem em direção à grande e iluminada embarcação, com capacidade para quase 2.500 pessoas.

Assim como outras ilhas gregas, Kos está superlotada com as ondas de refugiados. Com uma população de quase 30 mil habitantes, a ilha recebeu cerca de 7 mil refugiados, migrantes ou requerentes de asilo em julho. Em plena crise econômica grega, 156.726 migrantes e refugiados cruzaram os mares desde janeiro para aportar no país, segundo estatísticas da polícia e do Ministério do Interior.

De acordo com analistas, além da guerra na Síria, o alto número de migrantes é causado pelas águas mais calmas nos meses de verão, que facilitam as viagens em pequenas embarcações.

Fluxo sem precedentes

Na semana passada, a violência eclodiu num estádio de futebol. No sol forte, várias pessoas esperavam, sem água ou comida, pelos documentos de migração. A polícia trancou mais de mil refugiados por mais de 24 horas e usou cassetetes e extintores de incêndio para controlar as tensões.

Quatro dias depois, 50 migrantes do Afeganistão, do Irã e do Paquistão entraram em conflito em frente à principal delegacia de polícia da ilha.

Segundo Yannis Koutsomitis, analista especializado em política e economia grega, o governo não estava preparado para a quantidade de migrantes e refugiados que chega ao país. "Não há infraestrutura para processar as aplicações de visto e os documentos de migração, a polícia sofre com a falta de pessoal e não existe um plano para transportar os refugiados", afirma.

Além disso, não há um serviço de recepção nem campos de refugiados oficiais que possam acolher os recém-chegado – mesmo que o governo esteja planejando resolver a questão em breve.

"Deverá chegar mais auxílio à Grécia em breve", diz Mignone, do Acnur. "Espero que seja rápido porque a situação é difícil de ser administrada."

Migrantes-sírios
Migrantes sírios desembarcam em Kos, ilha grega repleta de migrantes e refugiados / Crédito: Louisa Gouliamaki/AFP

À espera de uma solução

Duas horas depois, o cenário torna-se mais calmo na entrada do porto de Kos. O restante dos migrantes sírios está sentado no chão, em fila, esperando para serem registrados dentro do navio. O processo vai durar a noite toda. Pelo menos mil deles vão conseguir um lugar.

Semana passada, o prefeito de Kos, Giorgis Krystis, declarou que o navio ficaria ancorado no porto por mais duas semanas – e que ele não seria transformado num campo de refugiados permanente.

No centro da cidade, Angel, um grego de cerca de 20 anos que também não informa o sobrenome, observa o campo de refugiados do restaurante no qual trabalha. "A situação é ruim tanto para eles quanto para nós", diz. "Os turistas estão com medo de vir aqui à noite. Eles não querem ver essas pessoas vivendo assim. Tenho medo de andar na rua à noite", acrescenta.

Alguns habitantes de Kos temem que o aumento na imigração e que a mudança visual da ilha possam prejudicar o turismo, que tem tido bons resultados apesar da crise econômica.

O diretor da Organização Internacional de Migração na Grécia, Daniel Esdras, afirma que as tensões na pequena ilha podem se acirrar em breve por causa do grande número de migrantes. "No começo, as pessoas estavam recebendo bem os recém-chegados", conta. "Mas, agora, os nativos estão ficando cansados."

Mesmo assim, ainda é possível encontrar turistas dando garrafas de água a refugiados que se sentam à sombra para tentar se proteger do calor.

O escocês Alan Davidson está de férias na ilha. Degustando um coquetel em um bar, ele observa o litoral tomado por barracas de refugiados.

"Tenho simpatia por eles porque é óbvio que eles têm problemas nos seus países", comenta. "Entendo que moradores e turistas possam se incomodar com a forma como essas pessoas estão vivendo, mas eu não tive problemas. Muita gente está desesperada para deixar o próprio país por causa da guerra, e tudo que eles querem é proteger suas famílias. Nós faríamos o mesmo se estivéssemos no lugar deles."

Por Andrés Caballero

Deutsche Welle

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