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O drama dos migrantes barrados na Macedônia

por Deutsche Welle publicado 30/11/2015 04h44
Enquanto sírios, iraquianos e afegãos podem seguir adiante, migrantes de outros países estão retidos na Grécia por virem de "zonas sem conflito"
Sakis Mitrolidis / AFP
Refugiado iraniano

Refugiado curdo iraniano protesta em Idomeni, na terça-feira 24, com a boca costurada. Situação no campo é dramática

Por Diego Cupolo 

Tarde da noite, na sexta-feira 20, Mohamed Abdul-Kadir está desconfortavelmente sentado ao lado de uma fogueira, enquanto seus quatro filhos dormem sobre caixas de papelão. Há três dias ele aguarda ali, no campo de refugiados de Idomeni, na Grécia, a 25 metros da fronteira com a Macedônia, observando a passagem de sírios, iraquianos e afegãos.

Abdul-Kadir, que é somali, foi impedido de entrar na Macedônia na quarta-feira anterior por causa de um novo regulamento de fronteiras que proíbe a acolhida de migrantes das chamadas "zonas sem conflito". Desde então, ele pensa sobre o que vai fazer.

Ainda desconfortável, Abdul-Kadir tenta se ajeitar mudando de posição e adota uma postura mais rígida. Ele se queixa de fortes dores nas costas desde que foi espancado por militantes do grupo islamista Al Shabab. "Eu era dono de um restaurante e não quis trabalhar com o Al Shabab, então os militantes me bateram com a parte de trás de seus rifles", conta. "No dia seguinte, eu disse para a minha família que tínhamos de deixar a Somália."

Abdul-Kadir é um dos cerca de 45 somalis que não sabem mais o que fazer desde que chegaram ao campo de Idomeni e se depararam com a fronteira da Macedônia fechada. Eles não só estão retidos ali como ainda são discriminados pelos outros migrantes, que não os deixam entrar nas barracas com aquecimento fornecidas pela ONG Médicos sem Fronteiras (MSF).

"A Somália vive uma guerra civil há 25 anos", diz o jornalista somali Abdirashid Ali Malin, que reside em Frankfurt, na Alemanha, e tem prestado ajuda no campo de refugiados grego. "Mas não é essa a questão. Direitos humanos são para todos. Todos nós devemos ter a oportunidade de viver bem e em segurança. Ninguém pode dizer: 'Você não é sírio e por isso não tem direitos humanos'."

Habitantes de longo prazo

Entre 4 mil e 6 mil refugiados da Síria, do Iraque e do Afeganistão entram na Macedônia todos os dias, segundo Luca Guanziroli, que é o responsável da agência da ONU para refugiados (Acnur) no local. Devido à nova regra para controle de fronteiras, todo cidadão que não venha de um desses três países permanece na Grécia. Eles recebem pouca ou nenhuma informação sobre aonde ir, e muitos decidem ficar no campo de Idomeni na esperança de a fronteira ser reaberta em breve.

Guanziroli afirma que, em uma semana, a capacidade de abrigo do campo de refugiados aumentou de 1.500 para 2.500 pessoas. Mesmo assim, muitos continuam dormindo do lado de fora das tendas, sobre caixas de papelão, enquanto ônibus cheios de pessoas continuam chegando, de hora em hora.

"Isso não é um campo, é um centro de trânsito", diz Guanziroli. "Não foi projetado para abrigar tantas pessoas. Estamos agora à procura de um outro local, mais apropriado para habitantes de longo prazo."

Quem é refugiado?

Entre as pessoas que estão retidas em Idomeni, a maioria vem do Irã e do Paquistão, mas também há refugiados de Bangladesh, Burkina Faso, Egito, Marrocos e Nepal.

Cada grupo se encaixa num caso específico de asilo – geralmente envolvendo governos autoritários ou respostas atrasadas a desastres naturais ou econômicos – e cada grupo também organiza protestos diários perto da fronteira para chamar atenção para a sua situação.

"As pessoas que lideram o nosso país não têm capacidade para liderar nem uma cidade pequena", diz Mohsen Adine, um designer de interiores de 27 anos vindo do Irã. Com curativos na cabeça e na mão direita, Adine conta que se irritou durante um protesto no sábado à noite e avançou contra a polícia macedônia. Ele acabou apanhando dos guardas, munidos de cassetetes.

Refugiados em Idomeni
Refugiados de países africanos protestam em Idomeni, na quarta-feira 25. Desde a semana passada, só iraquianos, sírios e afegãos podem passar

"Não consigo ver minha gente vivendo desse jeito e não fazer nada", justifica o iraniano. "Mulheres e crianças estão dormindo no frio enquanto outros refugiados podem cruzar a fronteira. No Irã também há uma guerra, só que é uma guerra silenciosa."

A namorada de Adine, Mahshid Derakhshan, de 21 anos, era professora de dança em Teerã. Ela diz que mantinha secretamente uma escola de hip-hop só para mulheres. "Se o governo soubesse o que eu estava fazendo, acabaria com o meu negócio na hora e me colocaria na prisão", afirma.

Zehra, uma iraniana que não quis dar seu nome verdadeiro, conta que foi expulsa do curso de ciência da computação depois de a universidade descobrir sua conversão ao cristianismo.

Forçada a deixar o Irã, Zehra começou a trabalhar ilegalmente na Turquia há um ano, mas acabou voltando para casa em novembro, quando seu pai sofreu um ataque cardíaco. Ao tomar conhecimento de seu retorno ao país, autoridades iranianas invadiram sua casa e a atacaram, segundo relatos da própria Zehra.

"Olhe para meu rosto", pede a garota, apontando para as manchas roxas em suas bochechas e no canto dos olhos. "A polícia iraniana fez isso comigo. Eles bateram em mim até eu desmaiar. Quando abri meu olhos, estava na delegacia. Minha família pagou para que eu saísse de lá."

Zehra diz que sabe falar quatro línguas e que gostaria de terminar a faculdade, mas, para ela, é impossível viver no Irã. Ela está em busca de asilo na Europa com a irmã, cujo escritório de advocacia foi fechado depois de o governo descobrir que ela estava ajudando mulheres a conseguir o divórcio de maridos que cometiam abusos.

"O Irã é um bom país, mas não para as mulheres", afirma Zehra. "Em uma próxima vida, espero não nascer mulher, porque mulheres enfrentam muitos problemas."

No campo de Idomeni, documentos falsos são facilmente encontráveis, e muitos migrantes consideram pagar 50 euros (cerca de 200 reais) por uma cidadania iraquiana para seguir em frente. Outros perdem a calma, como um homem iraniano que tentou cortar os pulsos com uma lâmina de barbear em protesto contra o controle de fronteiras, depois de quatro dias em Idomeni. A polícia da Macedônia logo interveio.

Milhares dos chamados "migrantes econômicos" aguardam seu destino no campo de Idomeni, mas muitos deixaram o local em busca de rotas alternativas para a Alemanha. Na noite do domingo 22, cerca de metade do grupo de somalis entrou num ônibus em direção à cidade de Salonica, na Grécia. Quando questionados aonde iam, simplesmente responderam: "Para algum outro lugar".

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