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O difícil efeito dominó

As revoluções árabes não são previsíveis, segundo o professor de ciências políticas Mokhtar ben Barka. A Gianni Carta
por Gianni Carta publicado 30/08/2011 16:31, última modificação 05/09/2011 19:06
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Para Mokhtar ben Barka, professor de ciências políticas da Universidade de Valenciennes, na França, as revoluções no mundo árabe não são previsíveis, como foram aquelas nos anos 1990 no Leste Europeu, por causa das diferentes religiões e regimes na região. Segundo o professor tunisiano especializado em política americana e do Oriente Médio, “falta vontade” por parte dos Estados Unidos e da União Europeia para encontrar uma solução para o conflito entre a Palestina e Israel. Esta, argumenta Ben Barka, permanece a questão central.

CartaCapital: Qual será o impacto da queda do regime de Muammar Kaddafi em países como a Síria de Bashar el-Assad?

Mokhtar ben Barka: A queda de Kaddafi poderá influenciar Assad porque ambos se mantiveram no poder com perseverança. E os dias de Assad no poder estão contados. Kaddafi, se encontrado vivo, será julgado e enforcado, ou morto de outra forma. O mesmo destino deverão ter Ben Ali e Mubarak, os ditadores da Tunísia e do Egito. Portanto, Assad poderá tentar buscar um compromisso. Talvez se esforce para negociar com os manifestantes, oferecer-lhes reformas, mas talvez seja tarde também para ele. Além disso, a oposição síria se fortaleceu com o sucesso da oposição dos líbios. Claro, a oposição dos líbios foi tão forte graças, em grande parte, à ajuda das forças da Otan. Mesmo assim, sua determinação foi significativa.

CC: Nos anos 1990, falou-se em “efeito dominó” quando ditadores do Leste Europeu foram derrubados em golpes de Estado. O senhor acha que houve ingenuidade por parte de vários analistas políticos quando compararam a Primavera Árabe com a Primavera de Praga?

MBB: Sim, porque são reis que estão no poder em países como Arábia Saudita, Kuwait e Marrocos. São considerados, particularmente no caso da Arábia Saudita e do Marrocos, como os descendentes do Profeta. O rei é – e essa é a visão tradicional do século XVII – o representante de Deus. O rei da Arábia Saudita, capital do Islã, é intocável. Por isso, a metáfora do “efeito dominó” não pode ser aplicada no mundo árabe.

CC: Essas revoluções começaram porque o povo queria empregos, uma democracia e o fim da corrupção perpetrada por regimes autocráticos. Mas agora vemos que cada país é um caso diferente...

MBB: Não podemos colocar todos os países árabes no mesmo balaio. De fato, essas revoluções permitiram ao mundo descobrir as diferentes identidades. O cidadão do Oriente Médio é o oposto daquele do Magrebe. Aqui somos vistos como europeus e mais modernos pelos árabes do Oriente Médio. Não temos nada em comum, com exceção da língua árabe. E mesmo a língua é diferente nas duas regiões. A deles é mais clássica. No Magrebe prevalece, claro, o árabe. Mas usamos palavras latinas oriundas de francês, italiano e espanhol. Além disso, intelectuais magrebinos buscam raízes para seus trabalhos também no Ocidente. Isso acontece menos no Oriente Médio, onde eles têm elos mais fortes com a literatura, a poesia e a filosofia árabe.

CC: Países árabes dividem também o fato de abrigarem diferentes religiões e diferentes orientações da religião muçulmana. Por exemplo, a Turquia, país de maioria sunita, atrai atualmente numerosos refugiados da maioria sunita da Síria. Acredita que a Turquia poderia, como dizem vários observadores, invadir a Síria?

MBB: A Turquia dependerá das “instruções” dos Estados Unidos e da União Europeia, porque Ancara quer integrar a UE. Ancara, portanto, tem de manter a imagem de país moderno e democrático. Mas acredito que, com o apoio de Washington e Bruxelas, a Turquia poderia invadir a Síria. Tudo dependerá de até onde Assad pretende resistir no cargo, e até que ponto quer continuar reprimindo brutalmente os manifestantes.

CC: A questão torna-se ainda mais complexa porque Assad e a minoria alauíta a apoiá-lo têm o suporte dos alevitas, variante xiita na Turquia, e dos xiitas iranianos. Acredita na possibilidade de uma guerra religiosa a envolver países da região como o Líbano e o Iraque?

MBB: De fato, na Síria o conflito entre sunitas e alauítas é uma questão a permear a estrutura da sociedade síria e pode deflagrar uma guerra religiosa na região. E não se esqueça do fato de que os fundamentalistas muçulmanos podem se aproveitar da situação de caos deixado por revoluções para tomar o poder. A Líbia, no momento, é o país onde essa preocupação está em primeiro plano. No Egito, os fundamentalistas também estão se organizando para as próximas eleições.

CC: Mas a Irmandade Muçulmana, legenda à qual o senhor se refere, parece estar agindo dentro de um contexto democrático no Egito.

MBB: E se tudo não passar de uma fachada? Existe uma diferença entre a retórica e a ação. Vou contar um caso pessoal. Era hora de orações, eu estava na Tunísia. Alguém me perguntou: “O que o senhor está fazendo aqui? Não deveria estar na mesquita?” Respondi que ele não tinha nada a ver com isso. Eu nunca havia tido uma experiência do gênero. Fiquei chocado. Nasci e cresci numa família tolerante na Tunísia. A prova é que minha mulher é católica. Mas, por ora, é apenas um temor. Vamos dar tempo ao tempo.

CC: No Egito, agora, há um governo militar de transição. Na Tunísia, as eleições foram postergadas. Ocorrem choques entre manifestantes e forças de segurança nesses dois países. Prevê uma democratização no Egito e na Tunísia?

MBB: Portugal, após a ditadura de Salazar, levou cinco anos para se tornar um país democrático. É difícil fazer previsões. E obstáculos para atingir essa meta não faltam. De saída, as pessoas não têm experiência política. Não sabem o que é uma eleição ou uma democracia. Desconhecem as definições, os conceitos básicos. Você não pode ter uma democracia quando as pessoas não sabem o que estão fazendo. De fato, numerosos egípcios e tunisianos estão tão frustrados que não se incomodam com os interesses nacionais, e sim com os privados. O interesse nacional não existe. É o que Freud chama “o retorno do reprimido”. As pessoas estão famintas, com sede, roubam, matam. Portanto, a economia está paralisada porque as pessoas querem dinheiro. Não acham que sacrifícios sejam necessários para que a economia funcione. Isso é compreensível, mas não deveria levar tanto tempo. A questão é: quanto tempo esse quadro vai durar?

CC: Por que dos programas dos governos egípcio e tunisiano não constam reformas econômicas?

MBB: De fato, é incrível, mas não há absolutamente nada sobre reformas econômicas nos programas desses dois governos. Li os programas. Aliás, há mais de cem partidos políticos na Tunísia para 10 milhões de pessoas. Isso é uma insanidade. E nenhuma dessas legendas inclui reformas econômicas nos seus programas. Abordam temas como segurança, educação, mas nada do ponto de vista econômico e financeiro. Isso, diga-se, é um legado do passado. Os atuais políticos não têm experiência. Tudo era ditado pelo governo, como os planos da ex-União Soviética. Mas o mundo deles mudou. Os líderes egípcios e tunisianos precisam implementar planos econômicos para relançar a economia.

CC: No seu discurso no Cairo, em 2009, Barack Obama prometeu que ajudaria os palestinos a criar um Estado. Segundo recente pesquisa realizada pelo Arab American Institute, 65% dos egípcios dizem que “Obama e a interferência americana no mundo árabe têm sido um obstáculo para a paz e a segurança”. Essa pesquisa refletiria a insatisfação do mundo árabe com um Obama que parecia interessado em defender a causa palestina?

MBB: Quando Obama fez seu discurso na Universidade do Cairo, ele falou sobre a solução de dois Estados, proposta que já tinha sido feita por seus predecessores. De qualquer forma, o presidente americano não fez nada para concretizar suas promessas. Em política exterior, ele mostrou-se interessado no Pacifico, na Índia, na China. Obama não está preocupado com o Oriente Médio. Ele seguiu a linha de George W. Bush. Ou seja, não poderia antagonizar os judeus americanos e Israel, e, além disso, ele tentou, num primeiro momento, impor algumas de suas opiniões. Porém, Benjamin Netanyahu e os partidos de extrema-direita de Israel reagiram de forma negativa às propostas do presidente americano. Para Obama ficou claro que ele não poderia levar adiante a solução de dois Estados.

CC: Mas Obama tentou lidar com os palestinos...

MBB: Tentou. Num encontro ele humilhou Mahmoud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina. Na verdade, Obama contribuiu para travar as negociações entre palestinos e israelenses. E sempre houve ceticismo no mundo árabe em relação a Obama. Logo depois do discurso no Cairo, pesquisas revelaram que mais de 60% dos egípcios não confiavam nas suas promessas. Uma minoria dos árabes estava confiante porque seu segundo nome é Hussein e, provavelmente, concluía essa minoria, ele seria pró-árabe. Mas o fato de ele se chamar Hussein era um detalhe sem qualquer significado. Desde o início, eu sempre disse aos meus alunos e em palestras: “Não se enganem. Obama é americano e, portanto, defenderá interesses americanos”.

CC: Inclusive os interesses de Israel?

MBB: Um presidente americano, seja ele democrata, seja republicano, é eleito para defender interesses americanos. Ponto final. E um dos principais parâmetros da política americana é a importância do Estado de Israel. Ninguém, ninguém, pode antagonizar os israelenses e judeus americanos. E, vale recordar, numerosos judeus americanos financiaram a campanha de Obama. Os primeiros 21 bancos americanos, a maioria deles presidida por judeus, financiaram sua campanha. Na verdade, Obama não é muito diferente de Bush. Ele recebeu dinheiro dos lobbies de judeus americanos, e é assim que funciona a política: depois você precisa retribuir. Foi por isso, aliás, que Obama foi brando com os bancos na crise do subprime, em 2008. Da mesma forma, quem pensou que o presidente americano seria pró-árabe viveu uma ilusão.

CC: A ONU deverá reconhecer o Estado da Palestina em setembro. Mas o Hamas e Israel, apesar de supostas tréguas, continuam em pé de guerra. O Hamas, que controla Gaza, e o Fatah, na Cisjordânia, não chegam a um acordo. Os israelenses continuam a ocupar terras de árabes. Como reagirão os árabes neste momento de revoluções e no qual a Palestina, a questão central para o mundo árabe, encontra-se talvez na situação mais delicada de todos os tempos?

MBB: Como o senhor diz, a situação nunca esteve tão ruim quanto agora. Sabe qual é o motivo? Os dois lados, tanto o palestino quanto o israelense, estão nas mãos de extremistas que ditam suas regras. Até o premier Netanyahu é refém dos extremistas em Israel. E enquanto o Hamas continuar ganhando força na Faixa de Gaza, não haverá paz. Atravessamos uma situação de confrontação e de ódio.

CC: Como lidar com essa situação?

MBB: A União Europeia, por exemplo, parece desinteressada e não tomou nenhuma iniciativa concreta para resolver o problema. Os americanos têm a possibilidade de colocar pressão nos dois lados. Uma iniciativa conjunta por parte da UE e dos EUA poderia amenizar o quadro. Não estou dizendo que encontrariam uma solução final. Veja a intervenção da Otan na Líbia, com a participação dos europeus e em menor escala os americanos. Mas na Palestina não fazem nada. Falta vontade.

CC: A UE e os EUA não poderiam negociar com palestinos e israelenses?

MBB: As relações de Obama com Nicolas Sarkozy vão de mal a pior. Obama é um homem do Pacífico, e está interessado na China porque aquele país detém mais de 25% dos ativos dos americanos. Obama não vê nenhum interesse na Europa. Isso é prejudicial para o Oriente Médio. Uma ação conjunta de Washington e Bruxelas poderia levar a algo no Oriente Médio. Repito: falta vontade. Gosto dos americanos, trabalhei muitos anos lá, mas a política exterior dos EUA é outra coisa.

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