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O cigano vs. Sarkozy

por Gianni Carta publicado 08/10/2010 10h58, última modificação 13/10/2011 11h16
Alexandre Romanès, escritor festejado e artista de circo, ironiza o presidente francês e sua política de expulsão dos roma do país

Alexandre Romanès, escritor festejado e artista de circo, ironiza o presidente francês e sua política de expulsão dos roma do país

Anulados os contratos de vários artistas do Circo Cigano Romanès, oriundos do Leste Europeu. Proibidos os números de menores, como aquele no qual sua filha de 10 anos dança flamenco. O departamento de inspeção do trabalho cobra do circo 19 mil euros em multas por supostos contratos irregulares de músicos em espetáculos anteriores.

Não era claro como afetaria o destino do Circo Romanès a decisão tomada pela Comissão Europeia na quarta-feira 29, de recorrer a ações legais contra as deportações de roma (ciganos) realizadas pelo governo francês. Segundo uma diretiva europeia de 2004, os roma são cidadãos europeus com direito à livre circulação. Desde o fim de julho, Paris desmantelou numerosos acampamentos ciganos e deportou mais de mil para a Romênia e Bulgária.

Durante a queda de braço entre Paris e Bruxelas, o poeta e dono do circo cigano Alexandre Romanès, de 59 anos, parece tranquilo. O circo cigano (Romanès não gosta do termo politicamente correto rom) abrirá suas portas, se tudo correr bem, em novembro.

Sentado à mesa num dos trailers que circundam o pequeno circo num bairro burguês ao norte de Paris, Romanès, ex-equilibrista e domador de leões de ombros largos e olhar límpido, não demonstra o mínimo rancor quando lhe pergunto como reage à política de expulsão adotada por Nicolas Sarkozy. Com voz calma, retruca: “Meu francês é menos ruim que o dele”. Intriga a resposta. Romanès nasceu e viveu a maior parte de sua vida na França. A prestigiosa Gallimard publicou três de seus livros. Ele frequentou meios intelectuais dos quais faziam parte, entre outros poetas, Jean Genet e Jean Grosjean.

Acha o francês de Sarkozy ruim?

“Fui analfabeto até os 20 anos de idade. Sarkozy, presidente com tamanho interesse em defender os valores franceses, no mínimo não deveria dizer job, e sim travail.’’ O termo anglo-saxônico pronunciado à francesa surgiu durante a campanha presidencial de 2007, quando Sarkozy martelou o seguinte slogan: “É preciso trabalhar mais para ganhar mais”. E, óbvio, o futuro presidente criaria des jobs (o “s” não é pronunciado). Romanès retruca: “Agora os franceses trabalham mais para ganhar menos”.

De volta de Xangai, onde o circo representou a França na Exposição Universal, Romanès foi informado que seus artistas do Leste Europeu não poderiam trabalhar no novo espetáculo. Ficou perplexo porque os pedidos de autorização de trabalho requeridos pela direção do circo haviam sido aceitos. Além disso, o grupo fundado por Romanès e sua mulher, Délia, 17 anos atrás nunca havia tido esse tipo de problema. Anualmente, os espetáculos recebem elogiosas críticas de diários, do esquerdista Libération ao “sarkozista” Le Figaro.

Os pedidos de regularização de empregos foram feitos antes de Sarkozy lançar seu programa de expulsão dos roma, em julho. Em tese, cidadãos da Romênia e da Bulgária, integrantes da União Europeia desde 2007, gozam, como todos os europeus, do direito de livre circulação. Mas dez países da UE, entre eles a França, impuseram limites legais a romenos e búlgaros. Na França, os migrantes (e não somente os roma desses países) precisam ter autorizações de residência e de trabalho até 2014. E nessa nova espiral de expulsões, Paris estabeleceu que os ciganos não podem viver em solo francês por mais de três meses. Segundo o governo, eles não têm dinheiro e representam uma ameaça à ordem pública. Caso Paris não cesse as deportações, a Comunidade Europeia recorrerá a ações legais já no próximo dia 15.

Se numerosos franceses tacitamente apoiam a nova medida contra ciganos adotada pelo seu impopular presidente, considerável parte do povo e da mídia ataca a nova política. Ela foca, segundo os opositores, uma dita etnia – e, por tabela, é racista. Viviane Reding, comissária da Justiça da UE, comparou as atuais expulsões àquelas durante a Segunda Guerra Mundial, quando cerca de meio milhão de ciganos foram exterminados em campos de concentração.

A analogia enfureceu os governantes franceses. Pierre Lellouche, secretário para Assuntos Europeus, disse, não sem arrogância, que a França “é a mãe dos direitos humanos”. O nível caiu ainda mais quando Sarko tomou a palavra. O presidente sugeriu que talvez Luxemburgo pudesse acolher os ciganos. Reding é luxemburguesa.

“Sarkozy se dirige à multidão e, como sempre nesse tipo de discurso, reina uma enorme falta de finesse”, argumenta Romanès. “O presidente deveria fazer uma guerra contra a pobreza, não contra os -pobres.” Segundo o poeta, a maioria de ciganos franceses trabalha, mas ele concorda que há um elevado nível de mendigos na comunidade. Isso se deve em grande parte ao fato de os ciganos sequer obterem autorização para trabalhar.

Délia, sua mulher, trocou a Romênia do ditador Ceausescu pela França, onde conheceu o marido 25 anos atrás. Nunca deixaram de trabalhar. Délia, a Terrível (seu nome artístico) só recebeu seu documento de identidade francesa no ano passado. Avalia Romanès: “Estamos no país dos documentos”. Para cantar no metrô, por exemplo, é preciso uma autorização. “E nos dizem: ‘Vocês são um bando de ladrões’.”

Outro dia, um gadjo (não-rom) num restaurante perguntou a Romanès se os ciganos são mesmo inconfiáveis e “terríveis”. Ele rebateu: “Sim, eu sou. Mas vocês, gadjos, inventaram a Inquisição, duas guerras mundiais, a câmara de gás, a bomba atômica, saquearam o continente africano...”

Romanès começou a trabalhar aos 13 anos para a família Buglione, dona de um dos maiores circos europeus. Sete anos mais tarde, preferiu ser equilibrista nas ruas de Paris. Certo dia, um senhor apresenta-se. Responde por Jean Genet, poeta entre os mais vagabundos. “Era um homem gentil, exalava uma espécie de santidade”, costuma dizer Romanès à imprensa. Acrescenta que só teve esse mesmo sentimento pelo violinista norte-americano Yehudi Menuhin, outro amigo.

Na nossa conversa Romanès fala de outros poetas cujos talentos “serão reconhecidos”. Jean Grosjean, falecido em 2006, é um deles. Quiçá Romanès tenha cansado de ser apresentado na mídia como o equilibrista cigano amigo de Genet. Uma associação que lhe confere o respeitável rótulo de intelectual anticonformista.

Grosjean prefaciou o seu segundo livro de poesias, Paroles Perdues (2004). Anotou Grosjean: “Alexandre faz parte de um povo para o qual palavras têm maior peso que o escrito. Ele nos adverte: escrever não é uma tradição cigana. No entanto, ei-lo adentrando com violência o mundo das letras. Ele tem algo a dizer às pessoas que leem”. Romanès “tem consciência de que vive sob o céu”. Como, pergunta Grosjean, “estar sob o céu e não ver o céu?”

Romanès dedica Paroles à poeta Lydie Dattas, que o ensinou a escrever. O poeta cigano lembra: “Ela me mostrou a frase que ecoa como o vento na vela”. Naqueles anos 1970, ele abandona os números de equilibrismo para se dedicar à música barroca. Logo seu alaúde ressoa em igrejas. Romanès chamava-se então Alexandre De Angelis.

Apesar da poesia e da música houve brigas, prisões. Quando outra ex-mulher, uma cigana espanhola, raptou sua filha Adelle na Itália, Romanès a recuperou, mas acabou preso em Nápoles. No cárcere, constata dois fatos: “A vasta maioria dos presos é pobre; e os italianos não sabem cozinhar mal, mesmo para os prisioneiros”.

Em Sur L’Épaule de L’Ange, publicado neste ano, o cigano faz odes ao amor e à família. Ele diz ser preferível viver num brejo com a mulher amada do que sozinho num palácio em Veneza. Em outra página, lê-se: “Nada, nem ninguém, é mais poético que uma menina”. A menina responde por Rose Reine, a mais jovem das cinco filhas que teve com Délia.

Rose, de 10 anos, entrou no trailer no fim de nossa entrevista. Menina solar, olhos claros. Logo sentou no colo do pai, orgulhoso. Ela fala três línguas, tem professora particular que lhe ensina francês, flamenco e contorcionismo. “Só deixaria minhas filhas irem à escola se fossem cantando”, esclarece o pai. Mas a escola não seria uma forma de integrá-las na sociedade? “Somos nômades. Nosso circo é itinerante, não estamos atrás do sucesso social. Queremos trabalhar o suficiente para viver – e não viver para trabalhar.”

Nem todos os ciganos pensam da mesma forma. Os menos tradicionais escolheram uma vida burguesa. Outros foram forçados a ter vida sedentária durante o comunismo. Naqueles tempos trabalhavam nas fábricas. E foram os primeiros a não se integrar na economia de mercado. Vítimas de racismo ainda maior a Leste que a Oeste, deslocaram-se para países ricos como a França. Buscam pequenos empregos que estão sendo eliminados pela globalização.

Romanès, cuja família trabalha em circo há dois séculos, conta que os ciganos sofreram na virada do século XIX para o XX. À época, produziam lâminas para facas e espadas e comercializavam cavalos. Porém, espadas foram substituídas por fuzis e cavalos por automóveis. Em Sur L’Épaule, Romanès se vê como o “idiota do vilarejo, alguém que se interessa pelas árvores, aves e pela poesia”. A caravana do Circo Romanès continua a avançar e a resistir aos avanços do tempo. E aos preconceitos do governo francês.

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