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O Brasil visto da América Latina e a América Latina vista do Brasil

por Opera Mundi — publicado 07/09/2010 16h25, última modificação 07/09/2010 16h25
É um avanço o Brasil ser considerado aliado dos países latino-americanos. Na época da ditadura, o nosso país era visto como um "subimpério" dos EUA

É um avanço o Brasil ser considerado aliado dos países latino-americanos. Na época da ditadura, o nosso país era visto como um "subimpério" dos EUA

Por Emir Sader*

Para que estivessem participando de importantes processos de integração, o Brasil e os seus vizinhos no continente tiveram que superar muitos preconceitos, muitos clichês, alguns inventados aqui mesmo, outros induzidos desde o Norte, para dificutar a unidade do Sul. É um avanço histórico de grandes dimensões que Brasil e Argentina se sintam parceiros indispensáveis, quase complementares, quando a política norteamericana sempre foi a de explorar as rivalidades e incentivar as diferenças.

Com razão, durante a ditadura militar, o movimento popular de outros países do continente temia o Brasil como país “subimperialista”, quando nosso país desempenhava o papel de aliado estratégico dos EUA na região. No momento mais agudo das negociações das dívidas externas dos nossos países, os credores não aceitavam negociar com mais de um país ao mesmo tempo, e os governos da Argentina, do México e do Brasil, se deixavam manipular, com concessões a um país quando um outro decidia suspender o pagamento da dívida.

O neoliberalismo – de que o nosso continente foi a maior vítima, com a maior quantidade de governos e sob as formas mais radicais no mundo – aprofundou as divisões e a subordinação dos países do continente a políticas de mercado e aos EUA. Este quase conseguiu impor sua Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), evitada com o triunfo de Lula e de uma política externa diferente no Brasil, que deveria conduzir a conclusão do pacto, mas terminou por abortá-lo. 


Assim, a América Latina passou da região mais subordinada aos EUA, na última década do século passado, à única região do mundo com projetos de integração relativamente autônomos em relação aos EUA, a única região do mundo com governos que pretendem superar o modelo neoliberal. 



Porém, as visões direrenciadas, muitas vezes mistificadas do Brasil nos outros países do continente e desses outros países entre nós, sobrevivem, e muitas vezes dificultam os processos de compreensão mútua e de integração.

Olhos para o litoral 


Visto do Brasil, a América Latina – ou os outros países de um continente ao qual pertencemos – aparece como algo que “fica perto”. Como se, saindo do Brasil, “chegaríamos na América Latina”. Como a ocupação territorial do país foi feita conforme o modelo primário exportador que o colonialismo impôs ao país, ela se fazia basicamente nos corredores de exportação, voltados para o litoral, na direção oposta das fronteiras com os países latino-americanos.

Enquanto que a Europa e os Estados Unidos estavam na mira dos portos, feitos para que o país olhasse para fora e, especialmente, para o alto. O exterior era sobretudo isso – a Europa e os EUA. Como se não pertencêssemos à América Latina. 



O ensino se encarregava de difundir como a colonização portuguesa nos havia impresso um selo diferente, uma identidade distante daquela dos de colonização espanhola, como se o idioma fosse suficiente para determinar essas diferenciações. 


Elemento diferenciador 


Nossa história foi muito similar, fomos colonizados e se usou mão de obra escrava para isso, trazida pelos europeus. Quando as potências ibéricas se enfraqueceram, nossa dependência foi transferida para a Inglaterra, em todos os países do continente. Modelos primário exportadores – agrícolas ou minerais – moldaram todas as economias do continente e nos inseriram de forma subordinada no sistema capitalista internacional. 



O elemento diferenciador de termos sido colonizados pelos portugueses veio do fato de que, enquanto a corôa espanhola resistiu, foi derrotada, se enfraqueceu e facilitou o impressionante ciclo de revoluções de independência – de cujo início se está comemorando o bicentenário este ano -, a coroa portuguesa fugiu para o Brasil, sem resistir. Com isso, para os outros países do continente se aceleraram os processos de independência, para nós, ao contrário, significou o fortalecimento dos vínculos coloniais. 



De tal forma que, enquanto eles passaram da colônia para repúblicas e terminaram com a escravidão – com as exceções de Cuba e de Porto Rico -, nós passamos a império vinculado familiarmente à corôa portuguesa e nos tornarmos o país que mais tardou para terminar com a escravidão, consolidando antes disso o poder do latifúndio no campo. Fatores que terminaram o nosso atraso histórico relativo em relação a outros países do continente, até o início do século XX, mas não definiram um destino diferenciado deles. 


Destino comum 


Nosso destino comum seguiu, da colônia e da escravidão, passando pelos modelos primário de exportadores, até o século passado e este, nos processos de industrialização. Nossa visão, no entanto, continuou fechada sobre nós mesmos. Só mesmo quando a crise da dívida, dos anos 1980, atingiu a todos, levando os governantes da época a negociar empréstimos do FMI praticamente nas mesmas condições, é que passamos a tomar consciência do nosso destino comum. 



Ainda assim, só quando, no governo atual, passamos a privilegiar os processos de integração regional e não os Tratados de Livre Comércio com os EUA, que essa consciência comecou realmente a se incorporar à consciência nacional brasileira. A ampliação do Mercosul, a expansão do comércio com a Argentina, com a Venezuela, com a Bolívia, foram consolidando lacos inexistentes ou sem importancia antes. A construção da Unasul, do Conselho Sulamericano de Defesa, do Banco do Sul, com participação ativa do Brasil foi confirmando a importância da identidade e da integração com os outros países da região. 



Opera-se assim uma mudança importante na percepção que se tem da América Latina e do Brasil como país latinoamericano. A aproximação e o intercâmbio com governantes como Hugo Chavez, da Venezela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, os Kirchner, da Argentina, Fernando Lugo, do Paraguai, Mauricio Funes, de El Salvador, permitiram um conhecimento mútuo maior e a definição de interesses comuns, assim como a superação de conflitos que surgiram, em alguns casos. 



Da mesma forma, a imagem do Brasil tambem foi mudando nos outros países do continente. A imagem projetada pelo governo Lula não deixa de assustar, pela dimensão territorial do país, pela força da sua economia, pela forte expansão das empresas estatais e privadas brasileiras. A Petrobras sofre acusações de não respeitar reservas indígenas no Equador, mas são principalmente empresas privadas, de construção, que nao cumprem contratos ou não respeitam legislações locais, as que mais trazem problemas para a imagem brasileira em outros países da região. 



Imagem projetada 

Porém, mais importante é a projeção internacional do Brasil como potência regional, com peso nas grandes decisões mundiais, com uma economia com capacidade de resistência aos efeitos da crise internacional, mas também com atitudes solidárias com seus vizinhos, como os casos da Bolívia e do Paraguai. 



É difícil separar a figura de Lula dessa nova imagem projetada do Brasil na região. Depois da ditadura militar, dos governos Sarney e FHC, que não davam maior importância à região – principalmente este, que priorizou as alianças subordinadas e subalternas aos EUA -, a nova imagem – pró integração, solidária, ativa, voltada para as alianças com o Sul do mundo – está indissociavelmente ligada ao conjunto da política externa brasileira e à presença de Lula no marco internacional. 



O ciclo atual de eleições - com destaque especial para as brasileiras e as argentinas, dado que o Uruguai e a Bolivia já optaram por aprofundar os processos atuais de integração – determinará se essa tendência à aproximação, ao maior conhecimento mútuo, à integração, seguirá adiante ou se se trata de um parênteses no tradicional processo de fragmentação e de desconhecimento mútuo a que a dominação colonial e imperial os submeteu.



*Emir Sader é sociólogo e cientista político, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Artigo originalmente publicado pela Agência Carta Maior.

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