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O ano que vivemos em perigo

por Envolverde — publicado 11/01/2011 11h48, última modificação 12/01/2011 11h49
Republicamos a matéria que foi ao ar no último dia 10, sobre o aniversário do terremoto no Haiti completado hoje. Quase um milhão de pessoas continuam sem moradia

Quase um milhão de pessoas continuam morando em acampamentos improvisados, em barracas,  ou sob precárias lonas ou telas plásticas na capital do Haiti antigida por forte terromoto em janeiro de 2010

Por Ansel Herz*

Porto Príncipe, – Faltando dois dias  para completar um ano do terremoto de 12 de janeiro de 2010, quase um milhão de pessoas continuam morando em acampamentos improvisados, em barracas, ou sob precárias lonas ou telas plásticas na capital do Haiti. Dieula Rosemond é uma delas. “Não posso mais viver assim”, disse, sentada sob a escassa sombra de uma palmeira solitária, com as mãos cruzadas sobre a saia. Atrás dela, meninas brincavam com uma boneca pálida e esfarrapada. Era mais um dia no acampamento Imakile Deplase.

O terremoto, de sete graus na escala Richter, deixou cerca de 230 mil mortos, aos quais agora se somam os aproximadamente 3.500 causados por uma epidemia de cólera. “Quero que em 2011 haja uma mudança no Haiti. E também quero ver uma mudança nos que dizem que estão ajudando o Haiti. Porque nós, que vivemos debaixo das lonas, tivemos um ano horrível”, afirmou Dieula. Ela e seu marido, Joseph, perderam seu meio de sustento com o desmoronamento de sua pequena casa, que também funcionava como comércio de conserto de produtos eletrônicos em Cité Soleil, um assentamento no extremo norte de Porto Príncipe.

Até julho do ano passado, eles, e pelo menos outras 50 famílias, viviam em Plas Imakile, uma praça pública. Durante semanas sofreram os ataques noturnos de um grupo que tentava expulsá-los da propriedade. Joseph Rosemond foi até uma base conjunta das forças da ONU e da polícia haitiana pedir ajuda. Mas as poucas patrulhas que passaram pelo local nunca se detiveram. A gangue simplesmente esperou até que partissem para entrar no acampamento e aterrorizar os moradores, cortando as lonas com facões.

Na base, o tenente brasileiro Edison Campista disse à IPS ter conhecimento desta realidade, mas que não podia fazer nada além de aumentar a frequência das patrulhas. Também admitiu que a gangue podia evitar as autoridades com seus integrantes se comunicando por celular. A polícia haitiana tratou Joseph com desdém, dizendo que exagerava as ameaças que enfrentava no acampamento. Os ataques continuaram. Um homem teve roubado seu celular e apanhou na cabeça.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM), vinculada à Organização das Nações Unidas, disse a eles que esperassem até ser possível encontrar outro lugar. Finalmente, os Rosemond e os demais se foram, mudando para um local a cerca de 800 metros de distância, perto de um canal hediondo. As cabras baliam ao subirem em pequenos montes de lixo. Nesse acampamento, chamado Imakile Deplase, as mortes por cólera aumentaram para quase 3.500.

No começo de novembro, um jovem que morava ali pegou a doença e foi levado a um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras. Ao regressar, sua mulher e filhos estavam infectados. Sua família foi a primeira de várias a ficar doente. A Médicos Sem Fronteiras informa que, desde o surgimento da epidemia, em outubro, tratou de 63 pacientes com cólera. O líder da organização criticou a ONU e outras entidades de assistência pela onda de doenças previsíveis, dizendo que sua resposta é “o fracasso mais recente do sistema de ajuda humanitária”.

Dieula Rosemond não votou nas eleições de 28 de novembro. Desde o verão liderou protestos em frente ao escritório do primeiro-ministro e em seu acampamento, onde as famílias gritavam, enquanto batiam em panelas: “Não votaremos até que nos deem casas”. As “organizações e o governo continuam nos dando uma ajuda mínima. Mas precisamos de casas, como manda a Constituição haitiana”, afirmou, por sua vez, Sanon Renel, ativista de um novo comitê para deter as expulsões forçadas.

“O primeiro-ministro não está aqui”, disseram funcionários governamentais a Joseph, quando ele e outros líderes do acampamento entregaram uma carta detalhando suas necessidades ao escritório de Jean-Max Bellerive. A Joseph asseguraram que o primeiro-ministro leria a carta e daria uma resposta, mas esta nunca chegou. Uma exposição de desenhos de casas a serem construídas para vítimas do terremoto estava programada para outubro do ano passado, mas foi adiada para este mês e agora para março.

As eleições de novembro afundaram o país em outra crise. Os principais candidatos exigiram a anulação ou disputaram os resultados preliminares. Milhares não puderam votar. “Votei em René Préval em 2006. Pensei que ele poderia mudar as coisas. Pensei que ele estava do lado dos pobres. Pensei que traria de volta Jean-Bertrand Aristide”, disse Dieula Rosemond. Foram os estrangeiros que o colocaram no poder, disse, acrescentando que “ele trabalha para eles”.

O ex-presidente Aristide foi tirado do país em fevereiro de 2004 em um avião norte-americano, num ato que seus partidários afirmam ter sido um golpe de Estado moderno. Os Estados Unidos disseram que ele pediu para ser levado ao exílio. Em uma entrevista recente, publicada pelo jornal brasileiro Folha de S.Paulo, o diplomata brasileiro Ricardo Seitenfus, que representava a Organização dos Estados Americano no Haiti, disse que o núcleo da comunidade internacional se reuniu no mesmo dia das caóticas eleições.

Ali se falou de tirar Préval do país por avião. “Ouvi isso e fiquei horrorizado”, contou Ricardo. O primeiro-ministro Bellerive chegou à reunião, que incluiu países da OEA, da ONU e doadores. “Perguntou se o mandato do presidente Préval estava sendo negociado. E se fez silêncio na sala”, disse o diplomata, acrescentando que o secretário-geral adjunto da OEA, Albert Ramdin, nada falou.

O conselho eleitoral do Haiti anunciou na semana passada que o segundo turno das eleições não poderá acontecer até o final de fevereiro. Segundo a Constituição, a gestão de Préval deveria ter acabado no dia 7, passando o cargo ao sucessor. Observadores da OEA chegaram ao país após os feriados para a contagem dos votos, processo aprovado pelo governo haitiano e pela comunidade internacional. A missão da OEA disse que no dia das eleições houve apenas “irregularidades” isoladas.

Porém, um estudo do Centro de Pesquisa em Economia e Política, com sede em Washington, concluiu que houve fraude e inconsistências superiores ao admitido pela OEA. “Se a Organização dos Estados Americanos certificar estas eleições, será uma decisão política, que não terá nada a ver com o controle eleitoral”, afirmou em um comunicado o codiretor do Centro, Mark Weisbrot. Um porta-voz da OEA não respondeu aos telefonemas nem aos emails pedindo que desse uma declaração sobre o caso.

Ricardo disse na semana passada ao jornal brasileiro O Estado de S. Paulo que foi demitido da OEA no dia de Natal, pouco depois de ter concedido uma entrevista ao jornal suíço Le Temps, na qual condenou o envolvimento da comunidade internacional no Haiti, dizendo que o país sofreu por causa de sua proximidade com os Estados Unidos.

*Ansel Herz tem seu blog em http://mediahacker.org.

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