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Oriente Médio

O alvo do atentado em Istambul era a estabilidade

por José Antonio Lima publicado 29/06/2016 10h39, última modificação 29/06/2016 10h44
O ataque, o quarto em Istambul em 2016, ocorre na semana em que a Turquia tenta retomar relações com Israel, Rússia e Egito
Ilhas News Agency / AFP
Terrorismo na Turquia

Serviços de emergência chegam para atender vítimas do atentado no aeroporto Ataturk, em Istambul, na noite de 28 de junho

O aeroporto internacional Ataturk, em Istambul, voltou a funcionar no início desta quarta-feira 29, horas após ser alvo de um atentado terrorista que, segundo o balanço mais recente, deixou 41 mortos e 239 feridos. O governo da Turquia atribui o ataque ao Estado Islâmico, que não reivindicou a autoria do atentado, mas há suspeitas sobre os nacionalistas curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, o PKK. Enquanto as evidências são coletadas, o alvo político dos terroristas parece óbvio: era a estabilidade.

Primeiro-ministro da Turquia por 11 anos e presidente desde 2014, Recep Tayyip Erdogan capitaneou uma política externa de "zero problema" com os vizinhos mais próximos. A Primavera Árabe, em especial o caso da Síria, alteraram essa perspectiva: nas manifestações populares que abriram as portas para partidos e grupos islamistas, Erdogan viu a oportunidade de afirmar seu papel como uma espécie de líder dos muçulmanos no mundo.

O tiro saiu pela culatra. Na Síria, o governo turco teve papel decisivo no surgimento e fortalecimento do Estado Islâmico. Por anos, deixou suas fronteiras com a Síria abertas, permitindo e promovendo a entrada de homens, armas e dinheiro para lutar contra Bashar al-Assad. Quando muitos desses jihadistas se transformaram no Estado Islâmico, a Turquia virou alvo.

Essa política colocou a Turquia em desacordo com a maior parte de seus então aliados. Em 2013, Ancara rompeu com o Egito, após o golpe comandado pelo marechal Abdel Fattah al-Sissi contra o governo da Irmandade Muçulmana, alinhada ideologicamente de Erdogan. Com os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), do qual faz parte, o problema era a manutenção das fronteiras abertas aos jihadistas. Com a Rússia, firme aliada de Assad, a hostilidade se tornou franca em novembro de 2015, quando a Força Aérea turca derrubou um caça russo que auxiliava as tropas de Assad.

Em paralelo à luta contra Assad e o Estado Islâmico, Erdogan abriu uma segunda frente de batalha. Em 2015, em meio a um processo eleitoral no qual o HDP, partido esquerdista com raízes na minoria curda, ameaçou o domínio de Erdogan, o governo abandonou as negociações de paz com o PKK e passou a atacar, e ser atacado, pelos militantes curdos.

O resultado desta política se expressa no número de atentados ocorridos na Turquia. Entre julho de 2015 e junho de 2016, oito atentados ocorridos em três cidades – Suruc, Ancara e Istambul – deixaram 267 mortos e mais de mil feridos, incluídas as vítimas do aeroporto Ataturk.

A onda de violência fez a economia turca sofrer um baque, também por vir acompanhada de um boicote da Rússia a viagens para a Turquia. O turismo, responsável por cerca de 13% do Produto Interno Bruto, definhou. Centenas de hotéis foram fechados e balneários de cidades como Antalya e Bodrum, antes repletos de turistas russos, passaram a ficar vazios. 

Terrorismo na Turquia
Filha de Siddik Turgan, uma das vítimas do atentado em Istambul, chora a morte do pai durante funeral, nesta quinta-feira 29

Diante da precarização da economia e do crescente isolamento em um Oriente Médio cada vez mais hostil, a Turquia decidiu remendar seus laços com vizinhos e aliados. Depois de ampliar a segurança nas fronteiras e reprimir o contrabando e a entrada de jihadistas na Síria, um aceno à Otan, a Turquia iniciou nesta semana uma espécie de campanha de apaziguamento.

Na segunda-feira 27, Turquia e Israel assinaram um acordo para retomar relações diplomáticas após seis anos de tensão, e o primeiro-ministro, Binali Yıldırım, anunciou estar pronto para dialogar com o governo do Egito. No mesmo dia, Erdogan enviou uma carta ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, lamentando a derrubada do caça russo em 2015 (ato que, nesta quarta-feira 29 fez os dois inciarem a retomada de suas relações). 

Na terça-feira 28, veio o atentado. Dois homens, possivelmente três, abriram fogo e, em seguida detonaram bombas que carregavam presas ao corpo, ao serem barrados na entrada do aeroporto Ataturk. O ataque se assemelha aos realizados em Paris e Bruxelas e tem as marcas, portanto, de ações que o Estado Islâmico realizou.

Hoje a Turquia chora suas vítimas novamente e o governo reafirma sua "luta contra o terrorismo". Tenham sido responsáveis os curdos ou o Estado Islâmico, parte das raízes da violência que atinge o país foi produzida internamente. Sem lidar com essa realidade, a Turquia dificilmente se verá livre do terrorismo.

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