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Nove anos depois, Argentina relembra pior crise de sua história

por Opera Mundi — publicado 17/12/2010 10h05, última modificação 06/06/2015 18h17
Nos dias 19 e 20 de janeiro de 2001, a Argentina - um dos países mais prósperos da América do Sul - enfrentava o auge de uma das piores crises de sua história

Por Daniella Cambaúva, do Opera Mundi

O argentino Nicolás Damin mal consegue descrever aquele dia: desemprego, medo de não conseguir tirar as reservas do banco, estado de sítio recém-decretado pelo governo, o entra-e-sai de presidentes na Casa Rosada, enfrentamentos entre policiais e manifestantes, mortos e feridos nos protestos. Nos dias 19 e 20 de janeiro de 2001, a Argentina - um dos países mais prósperos da América do Sul - enfrentava o auge de uma das piores crises de sua história.

Para ele, lembrar daquela crise não é uma tarefa fácil. Pesquisador de sociologia histórica da política argentina pelo Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas), Nicolás está acostumado a dar entrevistas. Ele cursava o segundo grau quando a economia argentina começou a desmoronar, no final de 1998, quando o país era governado por Carlos Menem (1989-1999).

“Os últimos meses de 2001 foram especialmente difíceis”, conta Nicolás, em entrevista ao Opera Mundi.

Quando Nicolás, aos 18 anos, tinha acabado de terminar o ensino médio, a situação se tornou insustentável. Na noite do dia 19 de dezembro de 2001, o então presidente Fernando De la Rúa, sucessor de Menem, renunciou à Casa Rosada. A crise era tamanha que o país teve cinco presidentes e dois ministros da Economia em dez dias. Em janeiro do ano seguinte, com medo do desemprego e da falta de oportunidade, Damin decidiu deixar os pais e os irmãos em Buenos Aires e foi morar na Espanha.

“Os jovens tinham medo de que o nosso país acabasse, como uma sensação coletiva de que não havia futuro na Argentina”, lembra.

O sociólogo que, na época, trabalhava com manutenção de computadores, conta que sua geração foi dominada pela falta de perspectivas, num momento em que o desemprego chegava a 70% entre os argentinos com idades entre 18 e 29 anos, segundo dados oficiais.

“A única saída era o Ezeiza [o Aeroporto Internacional de Buenos Aires]”, diz, lembrando da frase que se tornou símbolo da época.

Na Espanha, Nicolás trabalhou como corretor de imóveis. Depois, foi viver na Irlanda e em Andorra. Em 2003, ele voltou para o seu país, “quando a situação econômica já tinha melhorado”.

Meses antes da renúncia de De la Rúa, já havia sinais de que o país enfrentaria uma grande depressão. O regime cambial de paridade entre o peso argentino e o dólar se tornara insustentável e o medo da desvalorização da moeda local fez com que muitos argentinos fossem aos bancos para sacar seu dinheiro.

Numa tentativa de conter esse movimento, o governo decretou, no dia 1º de dezembro de 2001, o chamado corralito: os depósitos bancários foram suspensos e os saques não podiam ser superiores a 1.000 pesos por mês. A medida simbolizava uma queda do padrão econômico e social do país. Para a advogada argentina Mariana D’Andrea, que, na época, tinha acabado de concluir o curso de direito e trabalhava como assistente em um escritório de advocacia na capital, esse foi o momento mais marcante.

“Ficou a falta de confiança nos bancos, nas instituições, o medo de perder ou de não conseguir tirar o dinheiro”, ressaltou.

Outro planeta
Em 5 de dezembro de 2001, a situação se agravou porque o FMI (Fundo Monetário Internacional) negou ao governo argentino a liberação de um pacote de ajuda avaliado em 1,2 bilhão de dólares, alegando que o país não havia cumprido a meta de redução do déficit fiscal.

Aos poucos, o medo e a insatisfação tomaram conta dos argentinos. No dia 19 de dezembro de 2001, as invasões a supermercados e lojas já estavam fora de controle. Parte dos comerciantes já havia fechado as portas. Como medida emergencial, às 22h daquele dia, De la Rúa fez um pronunciamento em cadeia nacional decretando estado de sítio em todo o país. O efeito, porém, foi o contrário do planejado: a insatisfação popular provocou novos protestos.

“De la Rúa apareceu na TV e o discurso não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. Parecia que ele estava em outro planeta”, lembra Mariana.

Por volta das 20h do dia 20, De la Rúa renunciou. Cinco horas depois, o então ministro da Economia, Domingo Cavallo, e sua equipe também renunciaram.

“Foi um momento muito difícil para todos, porque tivemos um mesmo presidente por uma década [Menem]. De la Rúa surgiu como uma alternativa a um movimento que estava esgotado. Era um presidente que não tinha dado certo, um momento de desilusão”, relembra a advogada Mariana.

Como o vice de De la Rúa, Carlos Álvarez, já tinha renunciado no ano anterior, quem assumiu a presidência interinamente foi o peronista Ramón Puerta, presidente do Senado. Ele ficou no cargo até 22 de dezembro, quando o congresso elegeu Adolfo Rodríguez Saá, então governador da província de San Luis, como presidente interino. Sete dias depois da posse, ele deixou o cargo, alegando falta de apoio dos governadores da oposição, que não o acompanhariam na aplicação de um novo plano de governo.

Puerta deveria voltar ao posto de presidente, mas recusou-se e passou a responsabilidade ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Camaño. No primeiro dia de 2002, em uma nova sessão conjunta das duas casas do congresso, o senador Eduardo Duhalde foi escolhido para governar o país.

Raízes da crise
A crise que levou o país ao colapso em 2001 teve raízes antigas, quando a industrialização - alicerce da economia argentina - começou a ser substituída pelo sistema de valorização financeira, explicou o economista e senador argentino Eric Calcagno.

“Não se pode substituir um modelo por outro. [A valorização financeira] é um modelo que não se sustenta”, afirmou ao Opera Mundi.

Sob a vigência da “lei de conversibilidade”, que fixou o câmbio do dólar em 1991, o país voltou a crescer, mas a expansão foi financiada com uma crescente dívida externa pública. Em 1992, Cavallo, que já estava à frente do ministério da Economia, renegociou a dívida do país, de 3 bilhões de dólares. herdada dos governos militares e civis antecedentes.

O plano tinha como objetivos privatizar a economia, zerar a inflação, aumentar as importações e, para isso, fazia com que um peso fosse equivalente a um dólar. A medida foi capaz de atrair grande volume de investimento estrangeiro por conta do bom rendimento que se podia obter na compra de serviços privatizados ou na especulação financeira, o que sustentava o modelo nos primeiros anos.

Fim da paridade
Nos anos seguintes, os juros baixos nos EUA contribuíram para a sobrevivência da política de cambio fixo, atraindo investidores de todo o mundo. Segundo Calcagno, o contexto internacional também foi desfavorável e situação começou a mudar em 1995, com a crise do México, e em 1997, com a crise na Ásia, ambas que reduziram o volume de investimentos globais.

No início de 1999, no Brasil, o dólar disparou e o real sofreu uma maxidesvalorização. Como a Argentina manteve a paridade do peso com o dólar, as exportações do país se tornaram muito mais caras que as brasileiras. Cada vez mais, o declínio das exportações restringia a capacidade do país de obter moeda estrangeira para pagar a dívida em dólar e o Plano Cavallo já estava insustentável.

Tanto para Calcagno quanto para outro economista, Pablo Rieznik, da Universidade de Buenos Aires, não foi apenas a insustentabilidade da paridade monetária característica do Plano Cavallo que levou o país à crise, mas também a gestão neoliberal de Carlos Menem, já que a privatização de empresas estatais, incluindo companhias petrolíferas, correios, telefone, gás, eletricidade e água, deixou milhares de pessoas sem trabalho. No fim de 1999, das 500 maiores empresas no país, 314 eram estrangeiras.

Moratória
Em dezembro de 2001, o governo decretou a moratória da dívida externa, então avaliada em 132 bilhões de dólares, o que equivalia a 45% do PIB do país. Isso se deu num momento em que o risco-país argentino atingiu 5 mil pontos, havia um elevado déficit público, os salários do funcionalismo estavam atrasados e a taxa de desemprego ultrapassava os 18%.

Em 2000, o número de desempregados chegou a 15,4% da população economicamente ativa. Dez anos antes, em 1990, esse índice era de 7,4%, segundo a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe). Entre 1991 e 1994, o crescimento médio da economia argentina foi de 7,7%; já em 2001, o país teve recessão de 9%; em 2002, o PIB diminuiu 10,9%.

“A primeira lição econômica que a crise deixou é algo que já se sabia: a auto-regulação não existe. É uma política que mostrou não ser sustentável. Antes, se pensava que os problemas tinham soluções técnicas, mas depois, a política voltou a dominar a esfera econômica. A política deve conduzir a economia, e não a economia conduzir a política”, resume Calcagno.