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Crise internacional

Falência ao estilo anos 30

por The Observer — publicado 20/09/2011 19h01, última modificação 21/09/2011 12h14
O modo como o capitalismo foi concebido e praticado nos últimos 30 anos chegou ao fim da linha

Por Will Hutton*

Oitenta anos atrás, diante dos acontecimentos econômicos de hoje, ninguém teria a menor dúvida: estaríamos evidentemente vivendo uma crise do capitalismo. Em vez disso, há uma indisposição coletiva a falar com franqueza. Esta é alternadamente uma crise da União Europeia, uma crise do euro, uma crise da dívida ou uma crise de vontade política. É todas essas coisas, mas são subtramas de uma história muito maior: o modo como o capitalismo foi concebido e praticado nos últimos 30 anos chegou ao fim da linha. Enquanto isso não for reconhecido, as economias ocidentais estarão presas na estagnação que poderá até se transformar em um grande desastre econômico.

Colocado de maneira mais simples, o mundo tem trilhões e trilhões de dívida privada excessiva financiada por um grande número de moedas diferentes cujo risco é supostamente aliviado por mais trilhões de apostas financeiras que, em conjunto, não minimizam em nada o risco sistêmico. Todo esse edifício financeiro, sustentado por pequenas quantias de capital, foi criado ao longo de três décadas com base na teoria de que os mercados não cometem erros. O capitalismo é melhor concebido e praticado, segundo a teoria, por banqueiros e empresários caçadores-coletores que não devem fidelidade ao Estado ou à sociedade.

Isso é absurdo. A economia e o Estado coadministram a riqueza em um sistema de complexa dependência mútua. Os mercados são atingidos por alterações de humor e incertezas que, se não forem compensadas por ação governamental, causam oscilações violentas. O capitalismo sem responsabilidade ou proporcionalidade se degrada em agiotagem e exploração. A perspectiva de pagamento ilimitado é um convite aberto ao mau comportamento ou mesmo criminoso. O bom capitalismo não pode acontecer sem árbitros para tocar o apito ou estruturas robustas em que os mercados possam funcionar; nada disso é criado de maneira confiável pelo próprio capitalismo, daí o papel do governo democrático. Mas o mundo está tentando solucionar o legado dos últimos 30 anos como se nada disso fosse verdade e, pior, como se a prática e as teorias que criaram a confusão ainda fossem válidas.

O secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, unindo-se a ministros das Finanças europeus na Polônia, que mais uma vez ponderavam sobre a melhor maneira de encerrar a atual crise do euro, estava pelo menos reconhecendo as atuais dependências entre os países quando pediu que seus colegas ministros parassem de discutir por que os mercados estão aterrorizados pela ameaça de um evento catastrófico -- com todo o risco que isso representa para os EUA.

George Osborne também estava certo ao declarar que um euro forte é do interesse da Grã-Bretanha. Mas preocupar-se sobre como um euro falido poderia ter impacto sobre o país é conversa velha. O que os mercados precisam ouvir é que os políticos ocidentais -- sejam da zona do euro ou não -- veem o euro como parte da potencial solução para a atual crise do capitalismo, e não sua causa, e que estão preparados para fazer o possível para apoiar as reformas necessárias para que o euro sobreviva e tomar outras medidas vitais para que o sistema financeiro mundial funcione novamente. Geithner e Osborne devem agir de acordo com suas palavras.

Os críticos do euro, enfatizando interminavelmente que é uma camisa-de-força monetária e que a melhor reforma hoje seria sua ruptura, perdem o ponto. Não foi essa chamada camisa-de-força que causou a atual crise do euro. É a interação do sistema do euro com uma crise do capitalismo única em um século, que seus criadores e defensores, assim como seus críticos, jamais previram. Sim, o que a crise expôs é que a zona do euro precisava de um fundo de mais de 1 trilhão de euros para recapitalizar os bancos quebrados e subscrever a depreciação de dívidas soberanas; isso não estava escrito no tratado original. E que os braços de investimento e varejo bancário dos bancos universais da UE precisam ser cercados ou formalmente separados -- como propõe a comissão bancária de sir John Vickers para a Grã-Bretanha -- para que sejam minimamente seguros. Mas nenhuma dessas ideias foi um grito de batalha dos eurocéticos nos últimos dez anos.

Na verdade, a existência do euro até agora foi uma defesa contra o desastre. Suponha que não tivesse sido criado e que a crise financeira de 2008 tivesse irrompido em uma Europa com diversas taxas de câmbio flutuantes e sem o Banco Central Europeu -- a utopia dos eurocéticos. Os sistemas bancários irlandês, português, grego, espanhol, italiano e francês estariam sós e teriam caído em efeito dominó, interagindo com a megacrise na Grã-Bretanha e nos EUA. Até alguns bancos alemães não teriam ficado imunes. Teria havido uma derrocada no estilo 1930, a ruptura da UE e um aumento das desvalorizações nocivas aos vizinhos e proteção comercial.

Ainda não escapamos dessa perspectiva. Se o euro quebrar, a cascata subsequente de falências de bancos e de baixas de dívidas não será menos ameaçadora e a Grã-Bretanha será puxada para o redemoinho. A UE criou um "órgão de estabilização financeira" para tentar manter a linha. Mas não há urgência em lançá-lo; ainda não é um fundo propriamente, mas sobretudo um fornecedor provisório de empréstimos, e pequeno demais. Igualmente ruim, os governos alemão e francês estão presos à austeridade coletiva europeia; eles querem impor orçamentos equilibrados em longo prazo não apenas para si mesmos, mas uma austeridade desanimadora aos desafortunados Estados que têm de pedir emprestado para sustentar seus bancos e mercados de títulos.

Todo um continente será prejudicado pela falta de demanda em meio a uma crise capitalista, intensificada pelos planos arrasadores de redução de déficit da Grã-Bretanha. Muitos bancos europeus já estão tecnicamente insolventes, como reconhece Christine Lagarde, a nova diretora-gerente do FMI, ou os próprios bancos.

Na semana passada, o Banco da Inglaterra uniu-se ao Federal Reserve dos EUA, ao Banco do Japão e ao banco central suíço para prometer aos bancos da Europa uma liquidez vital em dólares, atenuando a crise por algum tempo. Comprou-se tempo; estamos trabalhando firme para nos salvarmos. Mas o mundo exterior precisa ir muito além. A linha de Estabilidade Financeira Europeia deve se tornar um fundo com capacidade para emprestar e intervir para evitar os especuladores: Grã-Bretanha, EUA, Suíça e Japão, juntamente com a China e os países árabes ricos em petróleo, precisam contribuir ao lado da Alemanha.

Em troca de ajudarmos o contribuinte alemão, devemos pedir duas concessões chaves: uma, que a Europa se decida a cercar as operações de bancos de investimentos de seus bancos universais para torná-los menos vulneráveis; e segundo, que não venha dinheiro internacional a menos que a UE se comprometa a um plano formal de crescimento em que seus países mais fortes, notadamente a Alemanha, prometam estimular suas economias. Como parte do pacote, a Grã-Bretanha aceitaria adiar seus próprios planos de redução de déficit e emitir títulos em euros para contribuir para um novo fundo em euros.

Estamos vivendo a mais perigosa confluência de circunstâncias econômicas dos tempos modernos. Tentar fingir que as interdependências não existem ou que o colapso do euro é a resposta só pode piorar as coisas. É uma opção clara: ou fazemos o possível para ajudar uns aos outros ou corremos o risco de cair no que poderá ser a pior contração econômica em um século.

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