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No olho do furacão

por Clara Roman — publicado 20/04/2011 16h30, última modificação 06/05/2011 13h40
Egípcio que vive no Brasil há seis anos, relata sua viagem de volta à terra natal para ajudar na derrubada de Mubarak
No olho do furacão

Praça Tahrir, no Egito: um dos principais símbolos da Primavera Árabe. Foto: Mohammed Abed/AFP

“Aqui do Brasil, fica mais fácil contar as coisas do Egito”, começa Maged El Gebaly que nasceu no Cairo e mora há mais de três anos no país. O egípcio, que participa ativamente do movimento pela libertação de seu país, realiza seu doutorado em estudo comparado da Língua Portuguesa na Faculdade de Letras, da Universidade de São Paulo, traçando um paralelo com a história dos imigrantes árabes no norte do Brasil e a tradução do livro Relato de um Certo Oriente, de Milton Hatoum.

Motivado pelo eco das manifestações no Cairo que chegava ao mundo inteiro, Maged iniciou sua viagem de volta ao Cairo, no dia 25 de janeiro deste ano, com o intuito de atuar em um dos principais acontecimentos dos últimos tempos. “Cheguei em Madrid na madrugada do dia 26 de janeiro. O aeroporto estava vazio e todas as TVs falavam das manifestações da juventude do Egito contra o regime. Eu, silencioso, sentindo um arrepio. De repente, queria gritar: são imbecis aqueles gênios que associavam nossa revolução com a iraniana.” A falta de informação e uma cobertura pouco precisa fizeram com que estrangeiros vivendo no Egito ficassem assustados com a situação. “Tranquilizei alguns amigos, explicando que se trata de uma revolução democrática de jovens liberais e socialistas, da qual faço parte.”

Ainda que distante geograficamente, Maged acompanhava as notícias no Egito. “Todo jovem egípcio sofria com o governo de Mubarak. O ditador mantinha uma polícia moral altamente repressora que restringia liberdades individuais a partir da moral islâmica.”

No período que antecedeu a revolução, os mais diversos grupos egípcios opunham-se ao governo. O regime ditatorial era corrupto e estava envelhecido. O atentado à igreja Copta em Alexandria despertou a indignação do grupo cristão contra Mubarak. “Todo mundo sabia que o regime estava por trás da explosão da Igreja de Alexandria. Antes não tínhamos como provar, agora temos o documento”, conta Maged. Na ocasião, um militante salafista (grupo islâmico fundamentalista) foi culpado pelo ataque, o que também gerou insatisfações nesse grupo.

Maged conta que a manifestação pró-democracia do dia 25, encabeçada pelo Movimento 6 de Abril e apoiadores de Mohamed El Baradei, uma das principais lideranças da oposição, estava programada antes mesmo da Revolução tunisiana começar. A princípio, não tinham objetivos de derrubar o ditador.

“Na revolução da Tunísia, o povo fez algo interessante. Saíram dos bairros mais populares e periféricos para as praças centrais com a mobilização. Nós aplicamos isso. Quando você sai com alguns temas centrais, não partidários, mas sociais, como pão, dignidade e liberdade, nossa família se une ao movimento”. Nos bairros mais afastados, as pessoas saiam de suas casas ao ouvir as palavras de ordem e juntavam-se às multidões.

“Enquanto os militantes mais velhos estavam preocupados com coisas pequenas, os jovens percebiam a falta de mobilidade dos grupos antigos e desenvolveram uma união muito maior entre os diversos grupos”.

A luta de Maged é por um estado laico, democrático e civil no Egito. Seu grupo, Coalizão Civil Democrática da Revolução, liderado por Mohamed El Baradei, busca agora informar e mobilizar a população egípcia sobre suas ideias e da importância de se criar um estado laico civil e democrático. Durante o governo de Mubarak, o país esteve submetido às forças externas, como Israel e Estados Unidos que exerciam um papel colonialista. O apoio popular foi intenso, uma vez que parte da população era submetida a condições de trabalho sub-humanas por conta dessa exploração. Além disso, o ditador procurou gerar uma cisão entre as religiões judaica, cristã e muçulmana. “Assim, a população preocupava-se com esses conflitos, deixando de lado as insatisfações com o regime”. Depois da queda de Mubarak, os manifestantes invadiram e derrubaram o órgão da Alta Segurança do Estado. Lá, eles encontraram documentos que, segundo Maged, comprovam a participação do ex-ditador e sua família em diversos atentados e crimes religiosos, como a explosão da igreja Copta.

Maged ficou no Cairo até o dia 6 de março. Nos 39 dias em que esteve lá, contribuiu para reunir o movimento e ajudar os manifestantes. “Saí para manifestações no bairro Dokki. Milhares de jovens andavam gritando: ‘O povo quer a queda do Regime. Liberdade!’ A segurança do regime começou a atirar em nós com bombas lacrimogêneas. O que me chamou atenção foi a alta porcentagem das meninas nessa manifestação. Comecei a ajudar os jovens a pegar as bombas lacrimogêneas e jogar de volta para o carro de segurança que atirava em nós.”

Nesse mesmo dia, a Irmandade Muçulmana foi essencial para impedir que ocorresse um massacre aos manifestantes. Segundo Maged, esse grupo é composto de profissionais liberais conservadores e está dividido entre uma ala mais velha, que busca inserir um candidato da própria irmandade nas próximas eleições e um grupo mais jovem, que procura apoiar El Baradei.

Depois de 17 dias de protestos, o ditador renunciou. Mas, até hoje, a luta no Egito permanece intensa. Grupos contra-revolucionários despontam, tentando retornar à estrutura mantida por Mubarak. Os jovens permanecem mobilizados para conseguir as reivindicações da revolução. “Você escuta com frequência: “a revolução continua”... O objetivo agora é conscientizar a população e tentar reunir os grupos em torno de El Baradei. Como define Maged, o mito de que, se Mubarak caísse, o Egito se tornaria um estado islâmico, não existe mais.

De volta ao Brasil, Maged continua atuando no movimento Coalizão Civil Democrática da Revolução. A internacionalização, segundo ele, é um aspecto importante das ações de seu grupo. Em contato constante com Mohamed El Baradei e o Movimento 6 de abril, ele procura estender as relações entre Brasil e Egito não só no campo formal como também em parcerias com movimentos sociais e coletivos de jovens.

Confira abaixo relatos diários de Maged durante sua participação nas manifestações:

26 de janeiro

Ao chegar no aeroporto do Cairo, fui recebido por meus irmãos. Um segurança simpatizante ao nosso movimento aproximou-se e falou para mim: “Há confrontos na praça do Tahrir entre o movimento juvenil e a segurança do Mubarak, que tentava desocupar a praça”. Recebi ligações de pessoas próximas que queriam confirmar se eu estava bem. Em casa, minha mãe me recebeu com abraços. Fazia três anos que não a via. À noite, comecei a conversar com todos pela Internet. Dormi, pensando nos discursos sobre nossa revolução: o oficial, desmoralizando, um surpreendido, que tentava informar o que estava acontecendo e o terceiro, solidário conosco.

27 de janeiro

Acordei pela manhã. Falei com colegas e alunos da Universidade de Ain Shans. Algumas amigas me chamaram para nos encontrar na manifestação, que iria partir da rua Asad Ibn Al Forat passando pela praça do Dokki no dia 28 de janeiro. Dr. El Baradei voltou para o Egito para participar das manifestações do dia 28.

Naquele momento, percebi que meu celular não funcionava bem. Na hora do almoço, recebi uma mensagem avisando que Baradei chegaria naquele dia e que tínhamos que abastecer quantidade de comida suficiente para vários dias. Pela tarde, cortaram internet e celulares.

28 de janeiro

Fiz compras para nossa casa com meus irmãos e depois saí para as manifestações do bairro Dokki. Milhares de jovens andavam gritando: ‘O povo quer a queda do Regime! Liberdade!’. Atravessamos toda a rua do Tahrir no Dokki até a praça do Galaa perto da ponte. Nesse trecho, a segurança do regime começou a atirar bombas lacrimogêneas em nós. Eu estava encapuzado, com toalha molhada em vinagre e cebola e garrafa de coca cola para lavar os olhos ardentes do fumo da bomba. A segurança secreta do regime nos chamava de agentes do Mosad e da CIA! A alta porcentagem de meninas nessa manifestação me chamou a atenção. Junto com os jovens, comecei a jogar as bombas de volta nos guardas que atiravam em nós. Depois de pouco tempo, a segurança abandonou os carros. Os jovens subiram sobre os automóveis com a Bandeira do Egito, saltando de alegria. Avançamos cada vez mais toda a rua da ópera até a ponte de Qasr Al Nil, onde atiraram novamente com bombas lacrimogêneas. Naquele dia, cerca de cem pessoas morreram, além de inúmeros feridos. Alguns perderam os olhos.

Na ponte, fomos atingidos por balas de borracha. Uma bala acertou minha perna, o que criou uma ferida superficial que doía muito. Médicos voluntários me deram os primeiros auxílios. Fomos informados de que os revolucionários ocuparam sede do partido governante em Damieta (norte do Egito) e em Ismaília. Isso me animou a voltar e avançar com os manifestantes. Eram fortes confrontos. Os carros da segurança esmagaram alguns manifestantes. Morreram cerca de 100 jovens, entre eles Moustafa Al Sawi que recebeu 25 balas de borracha. No mesmo dia, o ditador criou um toque de recolher para manter a ordem.  Ocupamos a praça, outros manifestantes se mobilizaram para ocupar a sede principal do partido governante de Mubarak. Cheguei em casa com minha mãe desesperada.

29 de janeiro

Acordei na madrugada deste dia ao som de tiros nas ruas. Presidiários soltos pelo regime de Mubarak assustavam a população. Saí com meus vizinhos para fazermos uma comissão juvenil para a defesa do bairro, alternando os turnos. Lembro bem que muitas casas de vizinhos foram assaltadas. O exército começou a enviar mensagens para que se respeitasse o toque de recolher para que houvesse a captura dos presidiários.

30 de janeiro

Acordei tarde e sai na praça para ajudar na montagem do palco nas tribunas. Naquele momento, sentimos caças F16 voando em cima da praça para nos ameaçar.

31 de janeiro

Pela manhã, fui ao aeroporto para procurar minha mala. O escritório da Ibéria estava fechado e o aeroporto estava cheio e caótico. Pela noite, quando assistia o discurso de Mubarak, tive certeza que seu governo estava no fim.

No olho do furacão

Egípcio que vive no Brasil há seis anos, relata sua viagem de volta à terra natal para ajudar na derrubada de Mubarak

“Aqui do Brasil, fica mais fácil contar as coisas do Egito”, começa Maged El Gebaly que nasceu no Cairo e mora há seis anos no país. O egípcio, que participa ativamente do movimento pela libertação de seu país, realiza seu doutorado em estudo comparado da Língua Portuguesa na Faculdade de Letras, da Universidade de São Paulo, traçando um paralelo com a história dos imigrantes árabes no norte do Brasil e a tradução do livro Relato de um Certo Oriente, de Milton Hatoum.

Motivado pelo eco das manifestações no Cairo que chegava ao mundo inteiro, Maged iniciou sua viagem de volta ao Cairo, no dia 25 de janeiro deste ano, com o intuito de atuar em um dos principais acontecimentos dos últimos tempos. “Cheguei em Madrid na madrugada do dia 26 de janeiro. O aeroporto estava vazio e todas as TVs falavam das manifestações da juventude do Egito contra o regime. Eu, silencioso, sentindo um arrepio. De repente, queria gritar: são imbecis aqueles gênios que associavam nossa revolução com a iraniana.” A falta de informação e uma cobertura pouco precisa fizeram com que estrangeiros vivendo no Egito ficassem assustados com a situação. “Tranquilizei alguns amigos, explicando que se trata de uma revolução democrática de jovens liberais e socialistas, da qual faço parte.”

Ainda que distante geograficamente, Maged acompanhava as notícias no Egito. “Todo jovem egípcio sofria com o governo de Mubarak. O ditador mantinha uma polícia moral altamente repressora que restringia liberdades individuais a partir da moral islâmica.”

No período que antecedeu a revolução, os mais diversos grupos egípcios opunham-se ao governo. O regime ditatorial era corrupto e estava envelhecido. O atentado à igreja Copta em Alexandria despertou a indignação do grupo cristão contra Mubarak. “Todo mundo sabia que o regime estava por trás da explosão da Igreja de Alexandria. Antes não tínhamos como provar, agora temos o documento”, conta Maged. Na ocasião, um militante salafista (grupo islâmico fundamentalista) foi culpado pelo ataque, o que também gerou insatisfações nesse grupo.

Maged conta que a manifestação pró-democracia do dia 25, encabeçada pelo Movimento 6 de Abril e apoiadores de Mohamed El Baradei, uma das principais lideranças da oposição, estava programada antes mesmo da Revolução tunisiana começar. A princípio, não tinham objetivos de derrubar o ditador.

“Na revolução da Tunísia, o povo fez algo interessante. Saíram dos bairros mais populares e periféricos para as praças centrais com a mobilização. Nós aplicamos isso. Quando você sai com alguns temas centrais, não partidários, mas sociais, como pão, dignidade e liberdade, nossa família se une ao movimento”. Nos bairros mais afastados, as pessoas saiam de suas casas ao ouvir as palavras de ordem e juntavam-se às multidões.
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“Enquanto os militantes mais velhos estavam preocupados com coisas pequenas, os jovens percebiam a falta de mobilidade dos grupos antigos e desenvolveram uma união muito maior entre os diversos grupos”.

A luta de Maged é por um estado laico, democrático e civil no Egito. Seu grupo, Coalizão Civil Democrática da Revolução, liderado por Mohamed El Baradei, busca agora informar e mobilizar a população egípcia sobre suas ideias e da importância de se criar um estado laico civil e democrático. Durante o governo de Mubarak, o país esteve submetido às forças externas, como Israel e Estados Unidos que exerciam um papel colonialista. O apoio popular foi intenso, uma vez que parte da população era submetida a condições de trabalho sub-humanas por conta dessa exploração. Além disso, o ditador procurou gerar uma cisão entre as religiões judaica, cristã e muçulmana. “Assim, a população preocupava-se com esses conflitos, deixando de lado as insatisfações com o regime”. Depois da queda de Mubarak, os manifestantes invadiram e derrubaram o órgão da Alta Segurança do Estado. Lá, eles encontraram documentos que, segundo Maged, comprovam a participação do ex-ditador e sua família em diversos atentados e crimes religiosos, como a explosão da igreja Copta.

Maged ficou no Cairo até o dia 6 de março. Nos 39 dias em que esteve lá, contribuiu para reunir o movimento e ajudar os manifestantes. “Saí para manifestações no bairro Dokki. Milhares de jovens andavam gritando: ‘O povo quer a queda do Regime. Liberdade!’ A segurança do regime começou a atirar em nós com bombas lacrimogêneas. O que me chamou atenção foi a alta porcentagem das meninas nessa manifestação. Comecei a ajudar os jovens a pegar as bombas lacrimogêneas e jogar de volta para o carro de segurança que atirava em nós.”

Nesse mesmo dia, a Irmandade Muçulmana foi essencial para impedir que ocorresse um massacre aos manifestantes. Segundo Maged, esse grupo é composto de profissionais liberais conservadores e está dividido entre uma ala mais velha, que busca inserir um candidato da própria irmandade nas próximas eleições e um grupo mais jovem, que procura apoiar El Baradei.

Depois de 17 dias de protestos, o ditador renunciou. Mas, até hoje, a luta no Egito permanece intensa. Grupos contra-revolucionários despontam, tentando retornar à estrutura mantida por Mubarak. Os jovens permanecem mobilizados para conseguir as reivindicações da revolução. “Você escuta com frequência: “a revolução continua”... O objetivo agora é conscientizar a população e tentar reunir os grupos em torno de El Baradei. Como define Maged, o mito de que, se Mubarak caísse, o Egito se tornaria um estado islâmico, não existe mais.

De volta ao Brasil, Maged continua atuando no movimento Coalizão Civil Democrática da Revolução. A internacionalização, segundo ele, é um aspecto importante das ações de seu grupo. Em contato constante com Mohamed El Baradei e o Movimento 6 de abril, ele procura estender as relações entre Brasil e Egito não só no campo formal como também em parcerias com movimentos sociais e coletivos de jovens.

Confira abaixo relatos diários de Maged durante sua participação nas manifestações:

26 de janeiro

Ao chegar no aeroporto do Cairo, fui recebido por meus irmãos. Um segurança simpatizante ao nosso movimento aproximou-se e falou para mim: “Há confrontos na praça do Tahrir entre o movimento juvenil e a segurança do Mubarak, que tentava desocupar a praça”. Recebi ligações de pessoas próximas que queriam confirmar se eu estava bem. Em casa, minha mãe me recebeu com abraços. Fazia três anos que não a via. À noite, comecei a conversar com todos pela Internet. Dormi, pensando nos discursos sobre nossa revolução: o oficial, desmoralizando, um surpreendido, que tentava informar o que estava acontecendo e o terceiro, solidário conosco.

27 de janeiro

Acordei pela manhã. Falei com colegas e alunos da Universidade de Ain Shans. Algumas amigas me chamaram para nos encontrar na manifestação, que iria partir da rua Asad Ibn Al Forat passando pela praça do Dokki no dia 28 de janeiro. Dr. El Baradei voltou para o Egito para participar das manifestações do dia 28.

Naquele momento, percebi que meu celular não funcionava bem. Na hora do almoço, recebi uma mensagem avisando que Baradei chegaria naquele dia e que tínhamos que abastecer quantidade de comida suficiente para vários dias. Pela tarde, cortaram internet e celulares.

28 de janeiro

Fiz compras para nossa casa com meus irmãos e depois saí para as manifestações do bairro Dokki. Milhares de jovens andavam gritando: ‘O povo quer a queda do Regime! Liberdade!’. Atravessamos toda a rua do Tahrir no Dokki até a praça do Galaa perto da ponte. Nesse trecho, a segurança do regime começou a atirar bombas lacrimogêneas em nós. Eu estava encapuzado, com toalha molhada em vinagre e cebola e garrafa de coca cola para lavar os olhos ardentes do fumo da bomba. A segurança secreta do regime nos chamava de agentes do Mosad e da CIA! A alta porcentagem de meninas nessa manifestação me chamou a atenção. Junto com os jovens, comecei a jogar as bombas de volta nos guardas que atiravam em nós. Depois de pouco tempo, a segurança abandonou os carros. Os jovens subiram sobre os automóveis com a Bandeira do Egito, saltando de alegria. Avançamos cada vez mais toda a rua da ópera até a ponte de Qasr Al Nil, onde atiraram novamente com bombas lacrimogêneas. Naquele dia, cerca de cem pessoas morreram, além de inúmeros feridos. Alguns perderam os olhos.
Na ponte, fomos atingidos por balas de borracha. Uma bala acertou minha perna, o que criou uma ferida superficial que doía muito. Médicos voluntários me deram os primeiros auxílios. Fomos informados de que os revolucionários ocuparam sede do partido governante em Damieta (norte do Egito) e em Ismaília. Isso me animou a voltar e avançar com os manifestantes. Eram fortes confrontos. Os carros da segurança esmagaram alguns manifestantes. Morreram cerca de 100 jovens, entre eles Moustafa Al Sawi que recebeu 25 balas de borracha. No mesmo dia, o ditador criou um toque de recolher para manter a ordem.  Ocupamos a praça, outros manifestantes se mobilizaram para ocupar a sede principal do partido governante de Mubarak. Cheguei em casa com minha mãe desesperada.

29 de janeiro

Acordei na madrugada deste dia ao som de tiros nas ruas. Presidiários soltos pelo regime de Mubarak assustavam a população. Saí com meus vizinhos para fazermos uma comissão juvenil para a defesa do bairro, alternando os turnos. Lembro bem que muitas casas de vizinhos foram assaltadas. O exército começou a enviar mensagens para que se respeitasse o toque de recolher para que houvesse a captura dos presidiários.

30 de janeiro

Acordei tarde e sai na praça para ajudar na montagem do palco nas tribunas. Naquele momento, sentimos caças F16 voando em cima da praça para nos ameaçar.

31 de janeiro

Pela manhã, fui ao aeroporto para procurar minha mala. O escritório da Ibéria estava fechado e o aeroporto estava cheio e caótico. Pela noite, quando assistia o discurso de Mubarak, tive certeza que seu governo estava no fim.

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