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No Muro das Lamentações, feministas lutam por igualdade

por Marsílea Gombata publicado 04/11/2013 12h50, última modificação 04/11/2013 13h17
Grupo Women of the Wall pede direito de liderar orações do início do mês judaico em espaço exclusivo. Por Marsílea Gombata
Miriam Alster

De Kfar Saba, Israel

Se a fé cabe a homens e mulheres de maneira igual, por que uns têm mais direitos que os outros? É o que questionam feministas do judaísmo, que há exatos 25 anos lutam pelo direito de rezar da mesma maneira que os homens no sagrado Muro das Lamentações, em Jerusalém. Batizado de "Women of the Wall" [Mulheres do Muro], o grupo tem ganhado os holofotes na batalha que lidera contra o controle do Muro pelos judeus ultraortodoxos – denominação na qual os homens se dedicam exclusivamente ao estudo da Torá e se abstêm de trabalhar e do serviço militar obrigatório de Israel.

Formado por mulheres de diferentes correntes do judaísmo, como as ortodoxas, as conservadoras e as reformistas, o grupo se reúne todo primeiro dia do mês no calendário judaico para rezar em um dos monumentos mais sagrados para os judeus. Segundo a tradição, no chamado Rosh Chodesh (que significa “o início do mês”) apenas o homem pode executar as ações que abrem o mês no código religioso e social do Talmud babilônico. O "Women of the Wall", no entanto, quer uma releitura do livro e pede um espaço exclusivo, no qual as mulheres também possam liderar as orações desse dia.

Na organização, fundada durante uma conferência feminista em 4 de novembro de 1988, muitas das mulheres são ortodoxas e não querem rezar ao lado dos homens – o muro, inclusive, tem uma divisão: um espaço para homens e outro para mulheres, assim como em uma sinagoga. O que as integrantes do grupo pedem, no entanto, é uma parte para as mulheres exercerem o direito de poder rezar nos mesmos termos que os homens: em voz alta, com o xale de oração talit e o tefilin – duas caixas de couro de animal kosher (permitido para o consumo segundo leis do judaísmo) com pergaminhos de quatro parágrafos da Torá e tiras de couro pretas que devem ser amarradas nos braços e nas mãos como forma de envolvimento do indivíduo com sentimentos e valores judaicos.

“A ideia é repensar as tradições e reinventar o próprio judaísmo”, explica Tammy Gottleib, 30 anos. “O Muro das Lamentações é para os judeus um lugar importantíssimo, ao qual sentimos pertencer. Temos tanto direito de estar nesse lugar histórico dessa maneira importante quanto os homens.”

A posição progressista do grupo, no entanto, enfrenta obstáculos gigantescos da sociedade israelense, como os ultraotodoxos, que não creem na igualdade de gêneros dentro do universo religioso. Nas palavras do rabino Idan Itzjak, prefeito da cidade ultraortodoxa de El’ad, a 25 km de Tel Aviv, as mulheres estudam menos os textos bíblicos e mantêm um papel secundário nos mandamentos religiosos, uma vez que cuidam dos afazeres domésticos e dos filhos. “São obrigações reservadas aos homens, responsáveis por manter e transmitir a tradição do judaísmo não apenas às comunidades em Israel, mas ao mundo todo.”

O peso dos mandamentos ultraortodoxos, observa Tammy, influencia não apenas como homens e mulheres devem se portar no Muro das Lamentações e na vida cotidiana, mas também na legislação do Estado de Israel. Um judeu ultraortodoxo ou ortodoxo, por exemplo, não pode se casar com uma judia de denominação diferente. Caso isso ocorra, ela lembra, será um matrimônio não reconhecido perante o Estado.

Assim, o grupo vem sendo alvo de pressão em Israel. No melhor dos cenários, o Women of the Wall pode levar meses e meses para conquistar o direito de liderar as orações do Rosh Chodesh, como fazem os homens no Muro das Lamentações. Pressionado por comunidades judaicas dos Estados Unidos, o ministro de Assuntos Religiosos de Israel, Naftali Bennet, se comprometeu a cumprir parte da lista de demanda das feministas, depois da construção de uma plataforma temporária para mulheres e homens rezarem juntos perto do Muro. Mas as feministas querem um espaço exclusivo para as orações no Muro – assim como o dos homens.

“Isso reflete o quanto os rabinos conseguem influenciar a sociedade e a política de Israel. Não respeitar o que pedimos é dizer que o Muro não nos pertence”, protesta Tammy. “É um espaço público, onde quero poder rezar do jeito que acredito. Não são só os homens que têm direito. Nós também queremos celebrar a comunidade judaica.”

*A repórter foi enviada por CartaCapital para Israel para participar do curso Os Meios de Comunicação em Zonas de Conflito, promovido pelo Ministério das Relações Exteriores israelense

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