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Não se deixe enganar. Papa por nome, papa por natureza

por The Observer — publicado 14/08/2013 11h36, última modificação 14/08/2013 11h50
Esqueça o que os católicos liberais e a mídia liberal pensam que o papa disse no avião papal e leia o que ele realmente disse. Por The Observer
TIZIANA FABI / AFP PHOTO
papa

Papa Francisco durante oração na praça São Pedro

Por Nick Cohen

O alívio quando o novo papa disse que não queria julgar os gays foi tão palpável quanto lamentável. Os liberais convencionais não querem derrubar ou mesmo reformar as instituições opressoras. Eles querem "respeitar" a religião, enquanto bloqueiam a escuridão que há nela. Eu muitas vezes penso que os líderes religiosos podem tratá-los como os publicitários tratam os consumidores vorazes. Tudo o que precisam fazer é parecer bonzinhos e falar em tom suave.

Ou, no caso do papa, declarar piedades contemporâneas sobre evitar preconceitos "de opinião". Antigamente supúnhamos que emitir opiniões era o que os papas faziam. Aparentemente, este não.

Um silêncio embaraçoso baixou sobre todos desde aquele momento de euforia, porque Jorge Bergoglio estragou a história ao continuar como se nada tivesse mudado. O Vaticano anunciou que os católicos receberiam a remissão das punições do purgatório. Os bons atos que eles tinham de realizar eram não defender as crianças de abusadores, para pegar um exemplo ao acaso, mas seguir o papa Francisco no Twitter. Bergoglio mostra o caminho para a salvação em sua conta @Pontifex. Ele tem milhões de seguidores, mas, como um verdadeiro narcisista, segue somente a si próprio.

Enquanto isso, o comportamento da igreja sob sua liderança continua tão vergonhoso quanto sempre. Enterrada sob o elogio à humildade do papa estava a notícia de que as ordens católicas irlandesas se recusam a compensar mulheres "caídas", que trabalharam em suas lavanderias de Madalena. As Irmãs da Misericórdia, as Irmãs de Nossa Senhora da Caridade, as Irmãs de Caridade e as Irmãs do Bom Pastor traíram seus nomes ao se beneficiar das receitas do que só posso chamar de trabalho escravo.

Elas mantinham mulheres trabalhando de graça atrás de portas trancadas em lavanderias sufocantes. Isto não é algum abuso semiesquecido de antes de a maioria de nós ter nascido. Com a cumplicidade do Estado quase teocrático da Irlanda, as mulheres eram condenadas a suar em troca de nada nos anos 1990. Mas a igreja se recusa a lhes pagar os salários que roubou, e o governo irlandês sequer vai retirar das ordens ladras sua posição de beneficentes, como forma de retaliação.

As pessoas que os religiosos enganam não me deprimem. Todos podemos ser enganados. São as pessoas que querem ser enganadas que eu não suporto. Se você esquecer o que os católicos liberais e a mídia liberal pensam que o papa disse no avião papal no mês passado, e se der ao trabalho de ler o que ele realmente disse, a história feliz de um pontífice tolerante e reformador se desintegrará diante de seus olhos.

Repórteres perguntaram sobre monsenhor Battista Ricca, supervisor do banco do Vaticano. A imprensa italiana chocada havia relatado acusações – fortemente desmentidas – de que a igreja teve de chamá-lo da América do Sul quando ele começou um caso com um capitão da Guarda Suíça. Estes talvez não sejam crimes aos olhos da lei. Mas romper os quem, quê, por quê, quando e como do sexo permissivo certamente são crimes aos olhos do deus invejoso e intrometido a que Ricca deveria servir.

Os jornalistas quiseram saber se um "lobby gay" no Vaticano havia encoberto os supostos pecados de Ricca. "Se uma pessoa gay está buscando a Deus, quem sou eu para julgá-la?", respondeu o papa. "A Igreja Católica ensina que não se devem discriminar os gays."

Isso parece um começo: um pequeno começo, um começo muito atrasado, mas de todo modo um começo. Mas considere a sequência. "Ser gay não é o problema", continuou o papa, "fazer lobby é o problema, e isto vale para qualquer tipo de lobby... lobbies políticos, maçônicos, todos os lobbies." ("Lobby dei politici, lobby dei massoni, tante lobby.")

E com essa frase casual o papa sinalizou sua fidelidade à profunda corrente de reação na história europeia e quase ninguém percebeu. Poucos leitores anglo-saxões compreendem que o preconceito contra os maçons é a principal teoria conspiratória da extrema-direita. Ela viu as maquinações de uma sociedade que começou entre inofensivos artesãos escoceses no século XV como responsáveis pelo liberalismo, o iluminismo, os direitos do homem... tudo o que ela odiava.

Na década de 1790, um abade chamado Augustin Barruel, uma combinação alarmante de Dan Brown com David Icke, examinou as revoluções americana e francesa e concluiu que as massas só poderiam ter derrubado divinamente os monarcas consagrados e a santa madre igreja se fossem o alvo de uma conspiração internacional de maçons.

Os maçons não eram homens de meia-idade em roupas elegantes, mas os descendentes dos cavaleiros Templários, que se tornaram clandestinos na Idade Média e juraram vingar-se da igreja e da monarquia que os perseguiram.

Parecia loucura. E era realmente. Mas uma teoria conspiratória que diz que os direitos humanos são um golpe atrás do qual uma sociedade secreta sinistra manipula o mundo era útil demais para se jogar fora. Papas sucessivos emitiram bulas contra ela. Pio IX incluiu a maçonaria, juntamente com o socialismo, o liberalismo e a liberdade de consciência, como males que os fiéis deveriam combater em seu Sílabo de Erros de 1864.

Os antissemitas e os fascistas do início do século XX acrescentaram que os maçons estavam coligados com os judeus. Franco e Mussolini os perseguiram. Os nazistas fizeram os maçons usar triângulos vermelhos e os assassinaram aos milhares.

Não pense que essas ideias loucas estão mortas. O islamismo radical reflete os delírios da extrema-direita europeia. (A carta do Hamas diz que os maçons são uma aliança com os judeus e – preparem-se – o Rotary Club e também os Lions.) Assim como o Hamas, o bispo católico Luigi Negri acredita que os maçons foram responsáveis pela Revolução Francesa e também a Revolução Russa. Na semana passada, o Catholic Herald pegou a dica da condenação do papa ao "lobby maçônico" para levantar o "pensamento realmente assustador" de que maçons haviam se infiltrado no Vaticano e estavam subvertendo a Santa Sé de seu interior. Esses diabos de avental estão em todo lugar.

Bergoglio, em suma, estava cavando em solo excessivamente adubado. Antes que os idiotas o aclamem como liberal, devem esperar que ele preencha requisitos mínimos. Sua igreja se opõe ao casamento civil gay e afirma que o sexo homossexual é um pecado. Se ele falasse sério sobre parar com a discriminação, inverteria esses dois dogmas. Ele também poderia aprovar o uso da camisinha, porque ela emancipa as mulheres e protege contra a Aids, e cooperar com investigações policiais sobre a violação de crianças por religiosos e indenizar suas vítimas.

Até hoje, não há sinal de que tenha feito nada do que foi citado acima. Pois, apesar de tudo o que você tem lido, o papa continua sendo o que sempre foi: um católico.