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Oriente Médio

Na Síria, o clamor pela moralidade desapareceu

por José Antonio Lima publicado 19/09/2013 13h54
Enquanto discutia-se as armas químicas da Síria, a batalha convencional se tornou ainda mais intensa
Ward al-Keswani / AFP
Síria

Rebeldes sírio tentam manter posição em Yalda, no subúrbio de Damasco

Por cerca de um mês, entre agosto e setembro, o mundo esteve atento aos desdobramentos do que ocorria na Síria. Após o ataque químico em Ghouta, no último dia 21, uma mobilização liderada pelos Estados Unidos denunciava o regime de Bashar al-Assad como responsável pela atrocidade e buscava puni-lo com base numa questão moral, a de que as armas químicas deveriam ser banidas. Em 14 de setembro, após a intervenção da Rússia, Washington e Moscou chegaram a um princípio de acordo e os holofotes se apagaram. A matança na Síria, entretanto, não apenas não foi cessada, como se ampliou nos últimos dias.

No sábado 15, reportagem do jornal The Washington Post trazia depoimentos de ativistas sírios afirmando que enquanto o acordo sobre armas químicas era negociado, o regime colocou em uso novamente sua força aérea. Cidades que não eram atacadas há semanas foram bombardeadas novamente e os subúrbios de Damasco (onde fica Ghouta) passaram a receber salvos de bombas numa taxa duas vezes maior que a normal.

Os opositores também escalaram suas ações e há relatos de novos massacres de alauítas, minoria da qual Assad faz parte. Nesta quinta-feira 19 um atentado a bomba em uma vila alauíta de Homs, no centro da Síria, deixou entre 14 e 19 mortos, de acordo com a Al-Jazeera.

Também nos últimos dias, ficou mais aberta a rivalidade entre os grupos que combatem o regime Assad. Na quarta-feira 18, a Al-Qaeda (cujo braço na Síria atende pelo nome de Emirado Islâmico do Iraque e do Levante) tomou o controle da cidade de Azaz, no norte da Síria, num combate com o Exército Livre da Síria, grupo secular apoiado pelos Estados Unidos e outros países ocidentais e árabes. Nesta quinta, os combates entre as duas facções continuam.

Numa série de entrevistas que concedeu na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que o acordo com a Rússia a respeito do arsenal químico sírio poderia servir de base para uma negociação ampla sobre o conflito como um todo. É difícil acreditar nisso. Como fazem Vladimir Putin e líderes regionais no Oriente Médio, Obama segue lamentando a guerra civil síria ao mesmo tempo em que a fomenta com apoio a um dos lados e anseia pela vitória de seus escolhidos. Como era óbvio, o massacre de Ghouta estava fadado a ser apenas uma linha na lista de atrocidades da guerra. Passado o furor, o clamor da moralidade saiu de cena e foi substituído pelo ciclo de bravatas que tenta esconder a disputa por poder entre EUA e Rússia no Oriente Médio. As perspectivas, assim, são nefastas. Foi sob os auspícios das bravatas internacionais que a guerra civil síria chegou às marcas de 100 mil mortos e 2,1 milhões de refugiados.

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