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Internacional

Análise

Na principal província petrolífera do Canadá, um sismo político

por Marc Lizoain* — publicado 10/05/2015 16h55
A centro-esquerda chega ao poder em Alberta e mira a desigualdade fomentada pelos conservadores por 44 anos
Divulgação
Rachel Notley

Rachel Notley, a líder do NDP: ela quer aumentar impostos sobre a produção de petróleo e reduzir a desigualdade na província de Alberta

A província canadense de Alberta é famosa por suas montanhas rochosas, seus cowboys, e sobretudo, por seu petróleo. Os quatro milhões de habitantes de Alberta têm a boa sorte de controlar o 95% da produção canadense, não só a quinta maior do mundo, mas também o mais importado pelos Estados Unidos. Na semana passada, nas eleições provinciais de Alberta, se produziu um político que deixou boquiaberta toda a classe política canadense. Depois de 44 anos de governo ininterrupto, o partido conservador de Alberta foi botado para fora pela centro-esquerdista New Democratic Party (NDP).  

A surpresa é ainda maior porque Alberta é tradicionalmente a região canadense mais conservadora. Fornece o músculo politico que mantém no poder nacional o direitista Stephen Harper, que nas últimas eleições federais de 2011 recebeu mais de 66% dos votos em Alberta, contra menos de 40% no resto do pais. 

Entre os motivos da vitória do NDP estão a atuação elogiada de sua líder, a advogada Rachel Notley, o programa confuso do atual primeiro-ministro, Jim Prentice, e a boa pontuação do partido de extrema-direita Wildrose, que tirou muitos votos dos tradicionais conservadores.  

No final das contas, o governo foi castigado pela sua gestão inepta da economia. Alberta é a província mais rica do Canadá, mas é também a mais desigual. E o governo não consegue equilibrar as contas desde 2009. Com a exportação de mais de 3 milhões de barris de petróleo por dia e uma população relativamente pequena, os cidadãos de Alberta deveriam viver como os noruegueses e comprar como os nativos do Catar, mas não é isso o que ocorre. Em março, os conservadores lançaram um plano de austeridade, que não ajudou em nada sua popularidade.

Mas como Alberta chegou a esta situação de desigualdade? Pela constituição canadense, são as províncias, e não o governo nacional, que possuem o controle sobre os recursos naturais e seu desenvolvimento. Há muitos anos, Alberta se converteu em uma espécie de "Nigéria norte-americana".  

Em Alberta, os impostos sobre a extração do petróleo são dos mais baixos do mundo. Segundo o Parkland Institute, da Universidade de Alberta, desde 1986 a província só recebe 6% dos lucros do petróleo extraído.

Talvez uma empresa estatal como a PDVSA venezuelana ou a Petrobras ajudaria a defender os interesses nacionais? Nem pensar. O Canadá não tem, Alberta não tem, e portanto os campos de petróleo estão em mãos privadas. O absurdo da situação é revelado pelos dados: em 2009, o governo de Alberta arrecadou mais dinheiro pelos impostos sobre o álcool e os jogos de azar do que sobre o petróleo.  

Por certo, a vitória da centro-esquerda não significa que uma bandeira vermelha vai soprar sobre Edmonton, a capital provincial. O NDP propõe um aumento dos impostos corporativos de 10% para 12%, e também quer reintroduzir o imposto de renda progressivo para que os moradores de rua e os milionários deixem de pagar a mesma taxa. Mas o governo de Notley não planeja nacionalizar o petróleo. Calgary ainda não é Caracas.  

Como todos os partidos social-democratas dos países ricos, faz décadas que o NDP vai moderando-se para ficar mais elegível. Em 2013, o congresso do partido decidiu apagar qualquer referência ao socialismo do programa do NDP. Não obstante, o partido entra na campanha pelas eleições federais do mês de outubro com as melhores chances da sua história.  

Inesperadamente, o NDP arrancou o petróleo de Alberta das mãos dos conservadores. Os canadenses estão prontos a ouvir novas propostas. A direita só pode estar nervosa.

*Marc Lizoain é historiador e pesquisador de opinião pública canadense

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