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Opinião

Mudanças indispensáveis no Brasil e no mundo

por Paulo Yokota — publicado 08/12/2014 05h43
Criticar governos como o brasileiro que adotam mudanças nas suas políticas econômicas num quadro mundial de grandes alterações acaba soando como algo pouco razoável
Reprodução
Jornais

Na Europa, em muitos veículos de comunicação observa-se a persistência de posições dignas das épocas da guerra fria, mesmo tendo o mundo mudado tanto

Apesar das grandes dificuldades que possam ser enfrentadas, muitos países, governos e empresas necessitam adaptar-se de forma pragmática às significativas mudanças que estão ocorrendo no atual mundo globalizado. Alguns exemplos importantes estão ocorrendo no Japão como ilustram os anúncios dos expressivos jornais daquele país, o Asahi Shimbun e o Yomiuri Shimbun, que possuem tiragens invejáveis que superam diariamente as cifras de muitos milhões de exemplares.

Eles admitem agora que usaram inadequadamente por muitos anos expressões enganosas como “mulheres de conforto” para as “escravas sexuais”, principalmente coreanas e chinesas que foram utilizadas de forma abusiva pelos soldados japoneses antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Esses países vizinhos vinham insistindo na revisão da versão deste sensível assunto, que dificultava a melhoria dos relacionamentos no Extremo Oriente entre os três importantes países, a China, o Japão e a Coreia do Sul. Parece que isso começa a ocorrer.

É preciso admitir que estes e outros acontecimentos desagradáveis ocorreram antes e durante esses conflitos armados, inclusive o dramático massacre de Nanking, onde o número de mortos ainda é alvo de grandes divergências entre japoneses e chineses. A guerra já terminou há cerca de 70 anos e as atitudes formais e oficiais dos japoneses não ajudavam na admissão dos seus erros. Apesar do intenso intercâmbio econômico e comercial entre os três países, sempre persistiam desconfortos que, espera-se, irão melhorar no futuro mesmo com a resistência de pequenos grupos radicais.

A exagerada formalidade dos japoneses também dificulta mudanças nas posições de algumas empresas japonesas de porte. Uma grande automobilística japonesa enfrentou problemas com seus produtos que provocaram acidentes, pois, quando eles eram freados, ocorriam acelerações. A empresa adotou por muito tempo a posição de afirmar que tais fenômenos não ocorriam, apesar das evidências em contrário. Depois de muito tempo, aceitaram um acordo judicial admitindo essas dificuldades e suas correções, afetando a sua imagem que era do mais alto nível.

Algo semelhante vem ocorrendo agora como os “air bags” produzidos por uma empresa de componentes utilizados em muitos veículos de origem japonesa. Ainda não se conseguiu um processo de “recall” generalizado para a rápida troca dos mesmos, o que é urgente mesmo não se sabendo quantos veículos são afetados.

Com o significativo avanço das empresas farmacêuticas japonesas nos mercados internacionais, inclusive com a agressiva aquisição de empresas de outros países tradicionais nesses produtos, um antigo medicamento passou a ser considerado inconveniente diante de potenciais efeitos secundários não alertados. Os acordos judiciais em andamento envolvem bilhões de dólares, mesmo que outros interesses também existam nestas ações.

Na Europa, ainda que muitos veículos de comunicação social de importância mundial explicitem suas convicções ideológicas, observa-se a persistência de posições em muitos dos seus artigos, dignas das épocas da guerra fria, quando o mundo já mudou muito. Mesmo que não se concorde com muitas orientações adotadas no Ocidente e no Oriente, que se baseiam nas suas histórias e culturas, parece difícil que as posições de algumas preferências possam ser consideradas de qualidade superior à dos outros.

No atual mundo globalizado, parece que há uma conveniência de convívio diplomático até com aqueles com os quais não concordamos. O Brasil vem adotando uma posição pragmática, procurando negociar com todos os países, ainda que existam diferenças substanciais em algumas posições adotadas por alguns deles.

Não admitir que o mundo continua mudando, havendo fatos que alteram muitas das condições importantes, como a sensível alteração do custo da energia atual, onde o petróleo continua ocupando posição de destaque, parece da maior inconveniência. Em parte, isso decorre das novas técnicas de fraqueamento do xisto que também tem suas inconveniências, alem de apresentar sensíveis diferenças regionais nas suas reservas. As contaminações que provocam, notadamente, nas águas subterrâneas são inegáveis, mas a ganância a tudo atropela.

As políticas monetárias chamadas de “quantitative easing”, que começaram a ser aplicadas nos Estados Unidos, provocando medidas semelhantes no Japão e na Europa, alteram as condições cambiais de forma sensível no mundo. Ainda que beneficiando a recuperação de algumas economias, acabam provocando problemas em outras emergentes ou de níveis econômicos mais modestos. A tal ponto que as mudanças de política econômica se tornam inevitáveis, gerando uma situação dinâmica que estão denominando como novo normal.

Criticar os governos, como o brasileiro, que adotam mudanças nas suas políticas econômicas num quadro mundial de grandes alterações, no período pós-eleitoral, acaba soando como algo pouco razoável. A arte política exige grande flexibilidade para mudanças, que apresentam também seus riscos, não se podendo assegurar que agrade a todos, nem a maioria.

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