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Internacional

11 de Setembro

"Pinochet traiu até aliados em nome do poder"

por Victor Farinelli — publicado 11/09/2013 09h26
Quarenta anos após o golpe, militar dissidente Ernesto Galáz cobra o reconhecimento dos erros cometidos pela ditadura chilena em nome de uma reconciliação histórica
Victor Farinelli

Ernesto Galáz era um dos mais importantes generais da FACh (Força Aérea Chilena) até 1973, quando o golpe de Estado promovido pelos militares levaram à quebra da institucionalidade e o surgimento de uma ditadura que eles mesmos comandariam por 17 anos.

O golpe também abalou a unidade dentro das Forças Armadas chilenas. Galáz é um dos poucos sobreviventes do período capazes de contar essa história.

Não foram muitos os militares que se atreveram a questionar a ação liderada por Augusto Pinochet no dia 11 de setembro de 1973, e a maioria deles pagou com a vida por tal ousadia. O caso mais conhecido internacionalmente é o do general Alberto Bachelet, pai da ex-presidenta e agora candidata presidencial Michelle Bachelet, companheiro de Galáz na Força Aérea. Ambos foram presos no mesmo dia, e compartilharam uma cela durante meses, até a morte de Bachelet, em março de 1974.

Em entrevista a CartaCapital, o ex-militar conta a história da morte de Bachelet e a responsabilidade que teve no caso o general Fernando Matthei (pai de Evelyn Matthei, adversária de Bachelet na eleição presidencial do dia 17 de novembro). Fala também dos militares que eram contra e a favor da ditadura, os que aceitaram a contragosto o golpe, e relembra as artimanhas do ditador Augusto Pinochet para manter sua hegemonia sobre os demais colegas da Junta Militar durante todo o regime:

 

Carta Capital Que lembranças você tem do governo da Junta Militar?

Ernesto Galáz – As piores possíveis. Não falo somente por ter sofrido tortura. Enfrentar a perda de muitos colegas de farda também foi difícil, muitos que eram contra o golpe e foram severamente castigados por isso. E, principalmente, ver ruir minhas convicções sobre o papel das Forças Armadas na defesa da soberania do país, que foram severamente afetadas naqueles dias.

CC – A imagem das Forças Armadas perante a sociedade chilena está manchada para sempre? É possível mudar isso?

EG – Enquanto imperar o silêncio nos altos mandos, acho impossível. A reconciliação com a sociedade tem que partir de um reconhecimento dos erros cometidos, que foram muitos. Não somente o de ter disseminado a tortura e os assassinatos políticos. Houve muita traição interna, e traição ao país.

CC – Que tipo de traições internas?

EG – As mais importantes foram as cometidas pelo próprio Pinochet. Ele foi quem salvou o presidente Allende da primeira tentativa de golpe, em junho de 1973, em uma ação que lhe valeu a confiança que levou Allende a nomeá-lo comandante-chefe das Forças Armadas, substituindo o general Carlos Prats. E duas semanas após a nomeação, traiu o presidente e a pátria. Depois, ele se manteve 17 anos como chefe da Junta Militar através de intrigas e pequenas traições contra outros camaradas. Muitos generais defendiam que houvesse um rodízio na presidência da Junta, mas ele inibiu todas essas tentativas semeando a discórdia, isolando aqueles que questionavam a sua liderança. Até mesmo depois da ditadura Pinochet foi um traidor, porque aceitou entregar dados sobre a participações de outros oficiais em crimes de tortura e desaparição, contanto que ele pudesse ser poupado, uma espécie de delação premiada. Tanto que o primeiro colega que o chamou publicamente de traidor foi o próprio Manuel Contreras – general que comandou a DINA (Departamento Nacional de Informação), principal órgão da repressão no Chile. Pinochet traiu até os seus aliados em nome do poder e da impunidade para ele somente.

CC – Você foi preso junto com o general Alberto Bachelet. Talvez tenha sido seu último amigo, o que pode ficar com ele até o dia da morte.

EG – Não exatamente até o dia da morte, porque ele passou os últimos dias em um calabouço separado, mas nós dividimos uma cela improvisada dentro da Academia de Guerra Aérea. Nossa prisão era para ser algo mais exemplificador, a intenção não era matar, mas sim torturar até coibir qualquer tentativa de rebelião. Ou matar, somente no caso de que o sujeito quisesse insistir em não aceitar as ordens superiores sobre o novo papel das Forças Armadas no controle político do país.

CC – O general Bachelet foi um dos que insistiu?

EG – Não. No caso deles, como em muitos outros torturados, foi simplesmente que ele não aguentou a tortura. Já tinha um problema cardiovascular anterior, e não resistiu. Ou talvez os torturadores tenham sido mais duros com ele. O sujeito sob tortura fica totalmente à mercê do estado de ânimo do torturador. Se você pega ele num mau dia, pode ser o seu último.

CC – Que responsabilidade teve o general Fernando Matthei no caso da morte de Bachelet?

EG – Matthei era coronel da Força Aérea, naquela época, e foi nomeado administrador da Academia de Guerra Aérea pela Junta Militar. Ele sabia quem era Alberto Bachelet, era seu amigo, as famílias eram amigas. Matthei sabia que o seu amigo estava preso no edifício que ele administrava, sabia que ali se cometiam torturas, e sabia que Bachelet tinha um problema cardiovascular que poderia ser fatal se exposto a certas situações. E ele não fez nada. Por outra parte, nós sabíamos também que Matthei era consciente de tudo o que acontecia ali, porque, tragicamente, nós fomos presos e torturados pelos nossos próprios companheiros de armas, e com eles conversávamos, e eles nos contavam sobre as decisões de Matthei com respeito aos nossos casos.

CC – No processo que apura a morte de Bachelet, a Corte de Apelações negou duas vezes a inclusão do general Matthei entre os réus do processo. Por quê?

EG – Por vários motivos. Efetivamente, Matthei não foi o autor das torturas, não era o papel que ele desempenhava ali. Mas era o cúmplice, tem culpa indireta. Era mandava no local, e foi condescendente com as torturas e os assassinatos.  Além disso, a Família Bachelet optou, lamentavelmente, por aceitar a versão de Matthei, de que ele não sabia o que acontecia ali. Eu não sei por que elas tomaram essa decisão (em referência a Michelle Bachelet e Ángela Jeria, viúva do general Alberto), talvez por respeito, ou por temor ao que isso poderia significar para a Força Aérea como instituição. E lamento porque sei que elas são conscientes de que Matthei tem culpa no caso.

CC – Existem muitas feridas abertas dentro das Forças Armadas, além das deixadas pelo caso de Bachelet e Matthei?

EG – Os primeiros meses da ditadura foram os mais tristes da história das Forças Armadas chilenas. Eu tenho pena quando vejo alguém clamando pelos direitos humanos e colocando a culpa nos militares, querendo dizer que todos os militares e somente os militares participaram disso. Eu fui preso e torturado porque tentei resistir ao golpe. Muitos outros fizeram o mesmo e pagaram com a vida. Muitos não queriam participar disso, mas silenciaram e aceitaram a situação, por temos às consequências. Claro, também há os que revelaram o pior deles mesmos, tinham certo prazer sádico em fazer parte daquele circo de horrores. Gostaria que todos tivessem consciência de que a participação dos militares não foi tão homogênea quanto alguns dizem. Não quero justificar os que foram cúmplices passivos, mas não era fácil viver sob o temor de ser considerado um traidor e as consequências que aquilo poderia significar naquela época.