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A esquerda esqueceu do povo

por A Leneide Duarte-Plon, de Paris — publicado 20/05/2015 02h23, última modificação 21/05/2015 11h35
Os partidos de esquerda no poder esqueceram as razões da sua existência, diz o jornalista francês Jack Dion
Alain Jocard/AFP
jack-dion

"O povo desapareceu de todas as esferas do poder, das instâncias políticas do mundo do trabalho e da mídia"

Le Mépris du Peuple – Comment l’oligarchie a pris la société en otage, (Edition Les liens qui libèrent) é um verdadeiro libelo, no fundo e na forma. Em apenas 152 páginas o jornalista Jack Dion, diretor-adjunto da redação da revista semanal Marianne, traça um retrato impiedoso da liquefação da esquerda e de seus valores numa França em que a presença da candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, no segundo turno da eleição presidencial de 2017, é quase uma evidência.

Segundo o autor, o próprio Partido Socialista, que dirige a França, está em sintonia com o avanço do neoliberalismo, dominante nas instâncias governantes da Europa, que parecem dar razão póstuma a Margaret Thatcher. Ela justificava as medidas neoliberais extremas com a frase: “There is no alternative”.

“Hoje, tudo que chamam de ‘reformas’ constitui de fato um conjunto de recuos sucessivos em matéria de direitos sociais, de proteção aos assalariados, com privilégios para os poderosos e prerrogativas ampliadas para o grande patronato. Isso provoca no povo uma rejeição de qualquer ideia de ‘reforma’, pois ele pressente que em nome dessa palavra mágica vão lhe pedir novos sacrifícios”, constata Dion.

CartaCapital: O senhor criou o neologismo “prolofobia”, para designar o desprezo pelo povo por parte das castas dominantes da França contemporânea. Seu livro mostra como os meios populares estão excluídos dos lugares do poder. Pode desenvolver essa ideia?

Jack Dion: A palavra “povo” dá medo nas elites, sejam quais forem. A prova é que o povo, no sentido mais amplo, desapareceu de todas as esferas de poder, das instâncias políticas, do mundo do trabalho e da mídia. Nessas diferentes estruturas, ele ou é ignorado ou é desprezado ou as duas coisas ao mesmo tempo. Com duas únicas exceções, os deputados oriundos do mundo operário desapareceram do Congresso francês (Assemblée Nationale). No país da Comuna de Paris é uma virada impressionante. O mais incrível é que essa forma de supressão de classe acontece em total indiferença. Temos debates sem fim sobre as virtudes da paridade homens/mulheres, mas ninguém parece se preocupar com o desaparecimento da coexistência social, que, se existisse, abriria a porta a todas as outras formas de coexistência. Mas isso é tabu. Ninguém protesta contra a expulsão metódica das camadas populares. Agora, quando se evoca o tema, associam-se essas classes à Frente Nacional sem se perguntar por que e como há mais operários que votam na Frente Nacional do que no Partido Socialista. Essas pessoas são caricaturadas, insultadas, chamadas de racistas, de xenófobas, como se quando o povo escapa ao domínio ideológico das elites tivesse de cair inexoravelmente nos braços de Marine Le Pen. 

CC: Como explicar o crescimento da FN? Ela é um partido fascista?

JD: Não. Se fosse, seria proibido pela lei. Nenhum de seus textos propõe uma Revolução Nacional calcada no regime de Vichy, com o chefe de Estado transformado em guia supremo, partido único, eleições suprimidas, liberdades limitadas, cidadãos controlados. Nenhuma das propostas da FN é uma ameaça explícita para a democracia. No entanto, ela tem orientações e valores que estão a anos-luz do espírito da República Francesa, com uma definição étnica de nação que faz lembrar momentos sombrios. Expressa uma xenofobia, sem esquecer suas obsessões reacionárias próprias de uma família política que sonha em fazer girar a roda do progresso em sentido oposto. De fato, a FN implanta-se como reação ao balanço catastrófico dos partidos que se alternam no poder há mais de 30 anos e que realizam programas cuja diferença entre eles é menos espessa que um papel de cigarro. A gestão de François Hollande assemelha-se à de Nicolas Sarkozy, que era inspirada na de Jacques Chirac, que lembrava, estranhamente, o período François Mitterrand do pós-1983. Precisa-se sair dessa armadilha para estancar o crescimento da FN.  

CC: Seu livro constata: “A questão não é mais de saber se Marine Le Pen estará no segundo turno, mas quem ela enfrentará”. Chirac venceu Jean-Marie Le Pen no segundo turno, em 2002, com o voto de toda a esquerda reunida numa frente republicana inédita. O senhor seria capaz de votar em Sarkozy (se ele for o candidato da direita no segundo turno) para derrotar Marine Le Pen?

JD: Não me faço essa pergunta. O importante é sair dessa armadilha de forma que haja perspectivas políticas capazes de impossibilitar a ida de Marine Le Pen ao segundo turno. Ora, os dois principais partidos (PS e UMP) fazem tudo atualmente para se qualificar para o segundo turno, dizendo que vão ganhar da candidata da Frente Nacional. Isso é perigoso, pois pode aumentar ainda mais o resultado da extrema-direita. Precisamos recusar esse roteiro diabólico e trabalhar por outra solução.

CC: O senhor diz que preferia o Partido Socialista de antes, quando ele queria “mudar a vida”, em vez do atual, que se adaptou às “exigências do mercado”. Como as nações podem resistir à globalização?

JD: Em 1981, o PS propunha “mudar a vida”. Depois, tornou-se um partido social-democrata clássico, um gestor do sistema que se permite impor contrarreformas que até mesmo um governo de direita teria dificuldade de levar a cabo pelo voto dos deputados. E tudo isso sob pretexto de que é preciso se adaptar às exigências do mercado, em nome do realismo, do pragmatismo, e porque não há alternativas. É o que repetem hoje os bonzos da União Europeia à Grécia, para fazê-la se dobrar e entrar na linha. Ora, não há nenhuma fatalidade que faça com que as nações e os povos tenham de capitular diante do mercado, ou seja, os bancos e o poder da finança que dominam o planeta. É preciso ter coragem política e vontade de resistir e de buscar alternativas, tomando as medidas necessárias para fazê-los recuar.

CC: Na França, a alíquota mais elevada do imposto de renda passou de 65%, em 1982, a 50%, em 2000, depois a 40%, em 2007, e foi elevada a 45%, em 2013. Um assalariado trabalha hoje 45 dias por ano para os acionistas, enquanto, em 1980, esse tempo era de 14 dias. As reformas são feitas sempre para beneficiar os mais ricos?

JD: No momento, sim, mesmo se as lutas populares conseguem às vezes reduzir a injustiça. Mas isso é cada vez menos verdadeiro, infelizmente. Hoje, tudo o que chamam de “reformas” constitui de fato um conjunto de recuos sucessivos em matéria de direitos sociais e de proteção aos assalariados, com privilégios para os poderosos e prerrogativas ampliadas para o grande patronato.

CC: Não existe mais nenhuma força para defender os trabalhadores contra o tsunami das tais “reformas”?

JD: Sim, há forças que se opõem a essas “reformas” no mundo sindical, no mundo político e no mundo dos movimentos sociais. Mas elas estão enfraquecidas, espalhadas e pouco operacionais. Eis por que é preciso trabalhar para encontrar respostas, como vemos na Grécia e na Espanha. Não é fácil, vai ser um processo longo, mas é a única possibilidade de sair do impasse da austeridade.

CC: O senhor é implacável com a Europa da forma como ela se construiu. Pensa que, em vez de construir a “Europa dos povos” com que sonhava o historiador Fernand Braudel, construiu-se a “Europa contra os povos”, instaurando o poder conjunto dos oligarcas e burocratas. Qual seria a Europa ideal?

JD: Seria uma Europa dos povos e das nações que não destrua os princípios da soberania nacional, inteiramente ligados. Nos últimos anos, tudo foi feito para ampliar uma Europa supranacional destinada a afastar o povo dos centros do poder. Instalou-se uma estrutura burocrática em Bruxelas que decide tudo e que pede aos governos que apliquem as políticas de austeridade que tornam essa Europa inaceitável para os cidadãos. Seria preciso implementar formas de cooperação e de partilha dos poderes que não violem as regras elementares da democracia.

CC: Sobre o populismo, o senhor escreve: “Quando o povo não aplaude com entusiasmo a escolha das elites, ou expressa reticência em aceitar as ditas reformas vistas como regressões sociais, o termo populismo sai do armário”. Esse termo é a prova do desprezo das elites pelas escolhas do povo?

JD: Um país que não ouve seu povo é um país que está morrendo e que ilustra a famosa tirada de Brecht, quando expressou com humor a necessidade de mudar de povo se ele se mostrasse rebelde. Quando vemos uma tamanha fratura entre a França das elites e a dos meios populares, algo está podre. Como se pode aceitar que a vontade majoritária do povo expressa num referendo sobre o Tratado Constitucional Europeu de 2005 tenha sido ignorada, como aconteceu?

CC: O jornal Libération deu uma capa recentemente debatendo o voto obrigatório como solução contra o abstencionismo. O senhor é contra ou a favor do voto obrigatório?

JD: Sou contra, pois não é a boa resposta à questão. Não é obrigando os cidadãos a votar que se vai resolver o problema, mas ouvindo-os, não traindo as promessas eleitorais, respondendo aos desejos de mudança e instaurando mais democracia nas instituições, com a eleição proporcional nas legislativas.

CC: O senhor relembra que o candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA) na eleição presidencial de 2012, o operário Philippe Poutou, tinha de se explicar o tempo todo nas entrevistas na televisão: “Os jornalistas davam a impressão de achar que o candidato devia ficar na fábrica como uma herança genética”. Foi mais ou menos o que se passou no Brasil, onde as elites nunca reconheceram a legitimidade do operário Lula, nem mesmo depois de sua eleição?

JD: Sim, eis uma boa comparação. As elites têm dificuldade em aceitar que representantes do povo, simples operários, cheguem ao poder. Isso é reflexo de classe, racismo social.

CC: Todos os que levam o povo em consideração são chamados de populistas, tanto à esquerda como à direita. Como o senhor vê a participação do povo nos partidos como o Syriza, na Grécia, e o Podemos, na Espanha?

JD: A intervenção popular é essencial, porque é preciso assumir um balanço histórico complexo e pesado, marcado pelo fracasso do comunismo, que faz com que o partido que defende essa utopia tenha perdido seu papel de força de protesto hoje encarnado pela extrema-direita, com uma nota preocupante de xenofobia e rejeição do outro. Depois tem a virada do PS no campo econômico e social, que o leva a executar uma política pouco diferente da que faria a direita. Enfim, há a hesitação de todas as tendências de esquerda em tratar, sem tergiversar, as questões de sociedade ignoradas por muito tempo ou abordadas de maneira caricatural, como a imigração, a segurança, o laicismo ou a nação.

CC: O senhor escreve que “os oligarcas formam um Estado no Estado, um poder oculto ao qual ninguém escapa, mas do qual não se fala, pois esse pequeno mundo controla também de perto a galáxia midiática”. Em sua opinião, quem defende da melhor forma os trabalhadores na França, uma vez que os próprios socialistas se renderam às leis do mercado?

JD: A realidade é mais complexa, pois mesmo no Partido Socialista há quem não entregou as armas. Direi que a esquerda reunida no seio da Frente de Esquerda (Front de Gauche), mesmo ainda fraca, não é desprezível. Da mesma forma, os sindicatos também trabalham essas questões, o que mostra haver debates.

CC: Tocqueville dizia que “a França tem a paixão da igualdade”. Como se explica que os jornais tratem tão pouco as questões sociais (trabalho, greves, defesa do direito trabalhista), excetuando-se o jornal comunista L’Humanité?

JD: Porque os jornais pertencem a grandes grupos capitalistas e seus dirigentes preferem falar de outras coisas. Le Monde, Libération, Le Nouvel Observateur e os outros, sem esquecer rádios e televisão privados, dependem do poder do capital e isso fica claro. Diria que os jornalistas são selecionados de forma a eliminar os que vêm de classes populares e, dessa forma, são os filhos das elites que garantem uma espécie de reprodução social caricatural.